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28 de setembro de 2020
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A banalização da tragédia

Um dos perigos da tragédia prolongada é a sua banalização. Mais de cem mil mortos em cinco meses não podem nos fazer “tocar a vida” como se nada houvesse. Equivalem a 33 ataques de 11 de setembro de 2001 em cinco meses. Mil mortos a cada dia pela Covid são como três rompimentos da barragem de Brumadinho, ou mais de dois aviões Boeing lotados caindo a cada dia no país sem sobreviventes.

Negacionismo, falta de coordenação nacional nas ações e nas compras, investimentos em medicamentos sem comprovação, conflito com governadores são algumas das respostas erráticas que demonstram nossa incapacidade em lidar com a pandemia. Temos de reconhecer que a doença, por ser de transmissão fácil e ainda desconhecida, de todo modo, vitimaria aos milhares. Mas há que se admitir que ações mais efetivas ao coronavírus teriam poupado outras milhares de vidas.

Além destas razões explicarem em parte o nosso fracasso no combate à pandemia, uma pesquisa feita pela BBC News Brasil entre líderes, pesquisadores e profissionais de saúde revelou outros equívocos do país. Ausência de um plano nacional de combate à doença e de testagem em massa, baixas taxas de isolamento social, hospitais de campanha chegando tardiamente, falta de uma política para as populações mais vulneráveis, como os indígenas e os mais pobres, completam o receituário desastroso na condução da crise sanitária.

A tragédia expõe muitos equívocos, mas deixa uma certeza. O coronavírus chegou ao país em um momento em que pesquisas científicas eram postas em dúvida por autoridades e quando investimentos no setor eram cortados. Pesquisas de instituições públicas, custeadas com recursos públicos, nos ajudaram a compreender melhor o vírus e o avanço da epidemia, com o desenvolvimento de equipamentos mais baratos, essenciais para salvar vidas.

Alertas de autoridades de saúde indicam que o surto brasileiro ainda está longe do fim. Se nada mudar e continuarmos com mais de mil mortes por dia, podemos chegar a 200 mil vítimas em no máximo cem dias. Se esse quadro persistir, as mortes do engenheiro Sérgio Campos Trindade, da maestrina Naomi Munakata, do artista Daniel Azulay, do empresário Florindo Corral, do bispo católico Aldo Pagotto, do músico MC Dumel, do professor e líder indígena amazonense, Higino Tuyuka, do também professor e amazonense Manuel Rodrigues Terceiro, do ativista Altamiro Moyses Zimerfogel, do compositor Aldir Blanc, do escritor Sérgio Sant’Anna, do economista Carlos Lessa, do jornalista Rodrigo Rodrigues, do Ricardo Maeda, da Erika Regina, da Abadia de Fátima Alves, do nosso amigo Roberto Augusto dos Santos, do caminhoneiro Ademar de Jesus, da dona de casa Cecília Cardoso, do enfermeiro Cícero Romão, e de tantos outros, inumeráveis, filhos, pais, avós e amigos, terão sido em vão.

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