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28 de maio de 2020
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A falsa universalização da internet no Brasil

Para o escritor inglês, Aldous Huxley, autor de Admirável Mundo Novo, a normalidade seria tão somente uma questão de estatística. Em tempos de pandemia, há quem acredite em uma dimensão estatística na qual o aluno brasileiro tem disponível na sua casa a internet necessária para acessar as aulas online e também para se preparar para o Exame Nacional do Ensino Médio.


Fonte: Internet/Reprodução

 

A Pesquisa TIC Domicílios – 2018, divulgada em agosto do ano passado pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br), demonstrou a presença de aparelhos celulares em 84% das residências das classes D e E. Esse dado foi amplamente divulgado como sinônimo de conectividade.

A esse respeito, o IBGE[1] publicou um estudo suplementar sobre Internet, televisão e telefone móvel celular no início deste ano (mas também com dados de 2018), no qual apontava 79,1% das residências brasileiras com acesso à rede mundial de computadores.

Independente da amostragem e das metodologias da coleta, principalmente nas áreas rurais e nas regiões de difícil acesso na Amazônia, a conexão web pode ser na realidade bem mais limitada, devido a outras variáveis como a velocidade da conexão disponível, a existência de provedores de internet banda larga no município, a franquia mensal dos dados móveis, a cobertura de dados por antenas com tecnologia 4G, a quantidade de equipamentos por residência e até a energia elétrica.

Em relação à velocidade da internet, por exemplo, a pesquisa da CGI.br demonstrou que apenas 4% das residências brasileiras tem conexão superior a 50 Mbps. 37% dos domicílios não tinham banda larga fixa alguma, chegando a 64% nas classes D e E. Ou seja, não tem internet de alta velocidade para a imensa maioria da população e a qualidade do serviço, quando entregue, é questionável. De acordo com o Speedtest Global Index, em março de 2020, o Brasil, a oitava economia do mundo, ocupava o 57º lugar entre os países na velocidade média de conexão banda larga e o 72º lugar na conexão móvel. Até no Azerbaijão e em Cuba a internet é mais rápida.

Além disso, existe ainda uma concentração no acesso. Em 2017, a Agência Nacional de Telecomunicações (ANATEL) constatou que apenas 37 cidades respondiam por 50% do acesso à internet no país, o que revela uma distribuição desigual entre os 5.570 municípios brasileiros. Contratar um plano de internet também não é tão simples para todos. Segundo a ANATEL, em 2019, 28% dos municípios brasileiros continuavam sem acesso à fibra ótica. Por consequência, são 1.558 municípios sem provedor de internet com essa tecnologia. Não existe, portanto, sequer a possibilidade de contratar o serviço nessas localidades excluídas. O Amazonas tem o pior número entre os estados: 55% dos municípios sem a opção de conexão via terrestre.

Quanto aos acessos pelo celular, apesar do número de aparelhos móveis ter crescido de forma exponencial nos últimos anos, 2/3 dos planos de celulares são pré-pagos e a recarga é cara para a maioria dos usuários. O limite da franquia dos dados inviabiliza, por exemplo, o acesso a videoaulas, que requer no mínimo 3 gigabytes/mês para cada aluno. Ademais, em apenas 3% dos domicílios existe um segundo computador para os membros da família acessarem a internet, segundo a CGI.br. Sobram aparelhos celulares, mas não há computadores ou notebooks nas residências para o home office e ensino remoto, além da conexão limitada.

A cobertura das antenas 4G, das três maiores operadoras de celular no Brasil (Claro, Tim e Vivo), alcançou entre 2.959 e 3.398 municípios em 2019, deixando sem cobertura até 2.611 municípios, bem distante dos compromissos de abrangência da ANATEL, considerando ainda que as operadoras ofereçam nessa localidades serviços de dados para acesso à rede e não apenas sinal de voz, o que acontece com frequência na região amazônica, devido à falta de fiscalização.

Há ainda as localidades sem energia. O Instituto de Energia e Meio Ambiente (IEMA) publicou em 2019 um estudo estimando que existem 990 mil pessoas na Amazônia legal sem acesso à energia elétrica. No Brasil são cerca de 2 milhões de pessoas nessa situação de exclusão.

 


Foto: IEMA/Divulgação

 

São  variáveis estatísticas que demonstram a leitura equivocada daqueles que acreditam na interconexão rápida e ilimitada para todas as regiões no Brasil. O que temos é uma universalização falsa sobre o acesso à internet, baseada em dados parciais. A conectividade, limitada pela infraestrutura precária, é insuficiente para atender as demandas sociais e educacionais, atrasando o desenvolvimento do país. A desigualdade digital continua sendo a nossa realidade.

 

 

[1] Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Amazonas1 TV

Publicado por Amazonas1

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