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10 de julho de 2020
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ANGÚSTIA

Na semana passada, depois de iniciar uma pequena “discussão” a respeito da deterioração do caráter do brasileiro, pareceu-me importante desenvolver algumas arguições sobre as dificuldades que temos de sair de uma inércia natural, nacional, quase humana, e que está presente em todas as relações sociais, políticas, familiares etc.
Pois bem. Enquanto questionava a realidade, dois personagens literários povoaram minha mente: Alice, do livro Alice através do espelho, e o próprio Barão, de As aventuras do Barão de Münchhausen. De cada um desses contos fantásticos, escolhi uma aventura para ajudar a pensar essas condições inerciais. Tento alinhavá-los, talvez, por um pequeno pedaço do fio do novelo de Ariadne, torcendo para encontrar um caminho lógico. Vamos à nossa empreitada.
De repente, Alice e a Rainha Vermelha começam a correr. A majestade grita: Mais rápido! Mais rápido! Vamos! Vamos! Mais rápido! Mais rápido! Alice acha estranho que mesmo correndo tanto, nada muda. Questiona e ouve da Rainha a seguinte explicação: “… aqui, como vê, você tem de correr o mais que pode para continuar no mesmo lugar. Se quiser ir a alguma outra parte, tem de correr no mínimo duas vezes mais rápido!”. Nesse momento, sinto-me invadido por um turbilhão de emoções. Penso que talvez Zygmunt Bauman ou Karl Marx pudessem me auxiliar afirmando que a modernidade fragilizou os laços humanos e que tudo que é sólido se desmancha no ar. Encho-me de dúvidas. Complexidade. Impossível não pensar em política, economia, ética, pandemia. Elejo a corrupção, essa talvez seja o grande exemplo de que, para nos mantermos no mesmo lugar, é preciso corrermos duas vezes mais.
Aventuro-me a pensar numa escapadela para essa questão. Hesito. Vivemos tempos de negação. Sorrio… Não encontro nenhuma saída plausível para as minhas dúvidas, nem no plano físico e nem no metafísico. Naquele, o humano não passa de humano; neste, já não há humanidade. Talvez, uma irmandade de santos ou anjos. A incerteza é perpétua. Podemos, quem sabe, arremedar o modo de fazer justiça da Rainha de Copas, personagem do livro Alice no país das maravilhas, e dizer, ao invés de “cortem a cabeça!”, prendam a todos! Mas, por onde e por quem começar? Uma angústia invade-me.
Busco refúgio na literatura. Encontro-me entre os que ainda acreditam no saber, na ciência e no ser humano. Não quero um mundo pós-físico, pelo menos, agora, não! Devo ser louco! Mas só um louco para escapar da areia movediça desse jogo tão mal jogado, a vida. Vejo-me como o Barão de Münchhausen, que ao cair em um lamaçal, juntamente com seu cavalo Ajax, e prestes a morrer, esporou o animal e puxando os próprios cabelos, conseguiu escapar da morte. Critico minha própria tese por ser estranha e absurda. Mas, é fantástica! Reafirmo que se corrermos bastante e nos livrarmos do lamaçal da corrupção política, talvez ainda haja uma saída plausível para o Brasil.
Tudo me angustia. De repente, tenho a impressão de que estou sendo observado. Olho e não vejo ninguém. Procuro, vou até a sacada. Nada! Vasculho os cantos da sala, ninguém! A sensação continua. Ah! Não é nada. Acho agradáveis os versos de Augusto dos Anjos. Penso que o Brasil realmente tem uma vocação para o passado. Sigo na vida e um ruído me persegue. Está tão perto que quase posso tocar com minhas mãos. Um som abafado. Não sei se são bichos ou humanos, eles: roem, roem, roem…

* Sociólogo, Analista Político e Advogado.

Amazonas1 TV

Publicado por Amazonas1

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