Amor de menino

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Amor de menino

Acendo a luz. São quatro horas e meia da manhã. Uma mariposa começa a voar para beijar a lâmpada iluminada. Ali perto, uma pequena lagartixa espera silenciosamente a mariposa pousar para degusta-la. São três seres unidos pela luz: eu preciso de luz para trabalhar, o inseto precisa de luz para saciar o seu fascínio pelo brilho e a lagartixa precisa de alimento para viver. Percebo que os rumos de vida daqueles outros seres dependem de mim. Penso: basta um apagar de luz e o destino será outro.
Antes de decidir, reflito sobre o ser humano no mundo de hoje. Se ele quiser não precisa de um terceiro para definir seus rumos. A vida é feita de múltiplas experiências e escolhas. Ele é livre, pode pensar, pode decidir, voltar atrás, tomar os caminhos da liberdade ou do cárcere. Algumas vezes, o ser humano age tão somente como uma “mariposa fascinada”, sem refletir as consequências dos seus atos.
Não os julgo, já passei por essa fase e bebi dessa fonte. Achava que só tinha uma trilha, uma direção, uma influência, um amor. O fato era que eu tinha apenas 12 anos de idade e não olhava aquela menina moça como antes. O meu corpo passava por transformações: os pelos cresciam, a voz já não era a mesma, os músculos enrijeciam e as acnes tomavam conta do rosto. Era uma corda atada entre a criança e o adulto. Minhas convicções de vida e de mundo mudavam, rapidamente.
Sentia que ela sorria diferente para mim. Com 13 anos de vida, com o aumento do quadril, do peso corporal, da estatura e dos seios, aquela menina também chamava atenção pela disposição de vender tapioca com coco ralado num tabuleiro na cabeça pelas ruas.
Quando a enxergava, o meu coração fazia mais barulho, ficava nervoso de felicidade, vontade de dizer algo e lhe escrever o que eu sentia, mas me faltavam palavras e letras. Sozinho, pensava em possíveis diálogos com ela. Sua imagem estava ali, e sua presença eu a encontrava em cada música que ouvia num radinho velho de pilha.
Numa tardinha chuvosa, ela passou em frente de casa com o tabuleiro de venda já vazio. Estava molhada, descalça e sorria com água no rosto. Num impulso, saí na chuva para vê-la descer a ladeira da rua sem asfalto. De repente, um momento mágico, uma felicidade eterna, ela me chamou para brincar na chuva. Que maravilha! Aceitei. Passamos horas tomando banho.
Na despedida, ganhei o primeiro beijo na vida e um “aperto” de uma jovem mulher decidida. Aconteceram outros beijos, em outros momentos, tão marcantes que vou levá-los para toda vida. Não passou muito tempo e a menina mudou-se para outro bairro, algo natural nas periferias da cidade, onde é grande a mobilidade de famílias pobres que não possuem moradias e nem trabalhos fixos.
Durante décadas procurei um pouco daquele primeiro amor em outras relações que experimentei. Aquele sorriso, aquela cor de pele, aquela disposição de lutar pela vida com muito trabalho, aquele abraço e aquela força de uma mulher decidida.
Com o tempo e a maturidade de vida percebi que as mulheres e os amores são diferentes e os momentos também vividos são únicos. Hoje, com meio século de existência, posso afirmar: o primeiro amor é inesquecível. Mas, devemos guardá-lo num cantinho das lembranças para que outros amores aconteçam e novos caminhos se abram.

* Sociólogo, Analista Político e Advogado.

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