Cárcere do homem | Carlos Santiago | Amazonas1

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Cárcere do homem

Há muito tempo, em um distante Império, um governante recebeu do “céu” um mandato para governar sobre toda a terra. Não tinha sido escolhido por uma votação, mas por seu merecimento como pessoa. O “céu” o havia escolhido para governar tudo, em benefício de todos. Sua autoridade celestial, legítima, universal, e fonte do mandato, o obrigava a disseminar a justiça, a paz e a harmonia para todos os habitantes. A natureza do seu mandato excluía adversários, ele representava a unicidade de pensamento e de ações, diante de sua autoridade não havia nenhuma independência, nem de indivíduo e nem de Estado. A fragmentação política, a pluralidade de pensamento, a diversidade de religiões e as mais íntimas particularidades pessoais eram encaradas como contraposições à sua autoridade, à limpidez de seu mandato e vistas como mensageiros do caos e da injustiça.

Nesse Império, os detentores do poder não se contentavam em ter apenas o poder político, queriam dominar tudo e a todos, esquadrinhar cada recanto da vida humana, reacender uma visão muito mais poderosa que a do sistema panóptico. A base do seu argumento: busco ceifar todas as liberdades e toda igualdade para que o meu domínio sobre todos possa semear uma nova vida, uma nova forma de pensar, novos valores, enfim, construir um império, não para o imperador, ou para a sua família, mas para todos aqueles que creem. O passaporte para esse novo reino será a fé no governante.

As pessoas não entendiam muito bem o que o imperador pretendia, mas de tanto ouvir aquelas promessas, planos, projetos, acabaram desejando os mesmos desejos dele. Seus arautos incumbiram-se de espalhar suas ideias. Inicialmente, eram apenas alguns; depois, dezenas, centenas, milhares, milhões… O imperador viu seu poder aumentar; sua fortuna, avolumar-se; as pessoas, já não o saudavam, o reverenciavam como um santo, um orixá. Diante disso, sentia uma sensação indescritível. Não era como as outras pessoas. Os “céus” o haviam ungido. Sentia-se intocável. Quando ficava sozinho, refletindo sobre a sua pessoa, sempre repetia a mesma ideia: o céu não me escolheu para apenas um mandato, ele me deu a eternidade. Transformar-me-ei num mito. As pessoas irão me admirar, reverenciar, amar, glorificar, odiar…

Não buscava a unanimidade, pois nada é. Tudo é parcial: Deus, bem, mal, democracia, meio ambiente… Será global, universal. Diante da nova realidade posta, será o alfa e o ômega, a ponte entre o homo sapiens e o homo deus. Nada subsistirá à sua expansão. Teorias deterministas profetizarão sua ascensão, não explicarão nem o como nem os porquês, dirão apenas que a história humana caminha para esse fim. Da aurora ao crepúsculo, em cada canto, do Ocidente ao Oriente, onde houver uma pegada humana, ali terá um seguidor. A ideia fundamental do imperador não era explorar, mas educar as pessoas para que entendessem esse novo pensar. Dizia que não se tratava de mais uma ideologia, mas de uma nova realidade.

Esse novo (velho) imperador que arrebata e forja novas consciências possui diversos nomes. Ontem, imperialismo, nazismo, comunismo, fascismo, monoteísmo, capitalismo, cristianismo; hoje, fundamentalismo religioso, tecnologia, democracia, liberalismo, americanismo, nacionalismo, cientificismo; amanhã…, se escaparmos das consequências das nossas próprias ações, como os desastres ecológicos, militares, nucleares… e de sermos escravos dos algoritmos, restará sabermos o que nos condicionará.

* Sociólogo, Analista Político e Advogado.

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