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Cortes nas universidades públicas afetam o futuro do país


Temos usado este espaço para mostrar a importância do conhecimento e da formação acadêmica e científica, para que melhores resultados nos índices de desenvolvimento econômico e social possam ser alcançados. Acredito que não exista ninguém que conteste essas afirmações, demonstradas pelos resultados obtidos em países que investiram maciçamente na qualificação de sua população, começando pelas séries iniciais, como foi o exemplo da Coréia do Sul.

A discussão do momento é o corte, ou contingenciamento, anunciado pelo Governo Federal nos orçamentos das Universidades Públicas, as grandes responsáveis pelo desenvolvimento de pesquisas no Brasil.  De uma maneira geral, qualquer perda de orçamento na educação é indesejada. Isso não deve ser contestado nem fazer parte de discursos que busquem justificar a medida. Se existem problemas de gestão, que sejam apurados, combatidos e severamente punidos. Se existem problemas orçamentários, que se busquem formas de economia em outros setores, que não comprometam o que existe de mais importante para uma nação: O futuro.

Alguns pontos devem e precisam ser relatados de maneira técnica, sem nenhuma inclinação ou consideração de ordem política ou ideológica, para que todos possam avaliar o problema pelo qual passamos.  Um desses pontos refere-se ao orçamento. De uma forma bastante simplificada, no caso do orçamento público, o montante é determinado pelo valor da previsão da arrecadação dos impostos, normalmente considerando uma expectativa de crescimento da economia. O orçamento público é, portanto, uma “peça de ficção”, pois não há nenhuma garantia de que a economia se comporte conforme planejado em uma sala com ar condicionado, principalmente se outras questões, como um cenário de instabilidade política, lançarem dúvidas sobre a capacidade de crescimento da economia. Quanto piores as notícias, pior a arrecadação do governo e pior a arrecadação de impostos. Aí está a raiz do problema.

O orçamento anual de uma empresa é determinado pelo valor que ela tem em caixa (conta bancária ou outros ativos), mais as previsões de vendas menos o custo de sua produção. Diferentemente das empresas, o Brasil não possui dinheiro em caixa, ao contrário, para que as contas públicas fechem este ano, a meta do déficit primário de 2019 é de 139 bilhões de reais, embora em março deste ano, a estimativa deste déficit tenha caído para 99,2 bilhões. Ainda assim, é muito dinheiro que falta para fechar a conta.  Isso significa que o governo irá ao mercado financeiro buscar esse valor em empréstimos, lançando títulos, para pagar suas contas. Quanto maior o déficit maior a taxa de juros a ser paga, quanto pior a estimativa do mercado financeiro, a taxa de juros sobe ainda mais.  Como o Brasil não fabrica nada, quem paga a conta são todos os cidadãos que aqui vivem. Esse é um problema real.

Analisando o problema de forma técnica, não há o que fazer a não ser reduzir os gastos para tentar equilibrar as contas, isso não se discute, é o que cada um de nós faria em casa nessa situação.  O problema é que não podemos cortar a fonte de alimento. Ninguém, salvo em situação de completa falta de opções, cortaria o alimento que lhe dá forças para permanecer vivendo. Cortar os recursos da educação é fazer exatamente isso. É matar de fome a capacidade de gerar conhecimento para o futuro, deixando uma parte desta geração sem os instrumentos necessários para competir em um mercado de trabalho cada vez mais competitivo, e justamente em um período em que nossa civilização cada vez mais precisa de conhecimento para vencer os problemas que não tínhamos e que acabamos criando com o nosso “progresso”.  Essa geração prejudicada, fará muita falta. Pesquisas interrompidas, projetos encerrados, são perdas irreparáveis ao conhecimento nacional e vai fazer falta mais cedo do que pensam.

Com relação a algumas justificativas que estão sendo apresentadas nas redes sociais, é bom esclarecer que sempre será possível discutir a validade desta ou daquela pesquisa, e, certamente, alguns questionamentos e redirecionamentos precisam ser discutidos. Temos urgência em gerar empregos e riquezas que possibilitem o desenvolvimento econômico e social do país, com dito antes, e para isso precisamos investir maciçamente em tecnologias capazes de nos colocar na primeira divisão da indústria mundial.  Somos um país gigante, com muitos problemas a serem solucionados e com recursos limitados, daí a necessidade de priorizar os investimentos onde estes possam construir novas estradas que nos conduzam a um futuro mais promissor.

Considerações também precisam ser feitas a respeito das críticas a pesquisas de algumas áreas do conhecimento. Precisamos lembrar que, se de um lado formamos engenheiros e técnicos, fornecendo ferramentas tecnológicas que possibilitam a transformação da sociedade, de outro lado precisamos mostrar a eles como gerenciar pessoas, como lidar com equipes multidisciplinares e como nos relacionarmos com uma sociedade em constante mudança de anseios e desejos, com valores que estão se modificando no mesmo ritmo em que a tecnologia invade a vida em todos os aspectos.  As redes sociais modificaram até a definição de “amigo” e as pessoas passam hoje, mais tempo no mundo digital do que no mundo real.

Como em qualquer área, na educação também existem problemas de gestão e de julgamento, porém, isso não pode ser desculpa para cortes ou contingenciamentos. Que se puna os desmandos e a má aplicação de recursos com a severidade que merece o assunto, afinal, são recursos de cada cidadão brasileiro, que convive com inúmeros problemas e que, mesmo assim, continua trabalhando e acreditando em tempos melhores. O não investimento ou os desvios na área de saúde condenam a população à morte, estes mesmos problemas, quando ocorrem na educação, condenam a população à uma vida sem perspectivas e dignidade.

 

 

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