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Envelhecimento, Inovação e Tecnologia (2)

Muito se fala sobre o baixo nível de automação de inúmeras atividades no Brasil. Ainda temos em nossa sociedade, ocupações que já não existem, há muitos anos, em outros países, principalmente nos mais desenvolvidos economicamente. Profissões como frentistas de postos de combustíveis, cobrador de ônibus, serventes de construção civil, entre outras, que aqui proporcionam um grande número de vagas ao mercado de trabalho, desapareceram por completo ou foram extremamente reduzidas em alguns países há décadas. Isso foi fruto de um nível variado de automação e da incorporação de equipamentos que facilitaram a execução de tarefas que, anteriormente, exigiam uma quantidade maior de esforço e de um número maior de pessoas para a sua execução. Inovações como, as bombas automáticas de abastecimento em postos de combustíveis, leitores de cartões magnéticos e similares e o concreto em saco, que precisa apenas da adição de água para ficar pronto, eliminou ou reduziu em muito as ocupações citadas. Com isso, os ocupantes destas funções precisaram de requalificação profissional para reinserir-se no mercado de trabalho.

Fica a pergunta: por que não aconteceu ainda aqui? Podemos responder que por diversos fatores isso ainda não aconteceu totalmente. Primeiro porque existe uma pressão por parte de sindicatos e até mesmo dos governos, que defendem a tese de que isso causaria mais um problema social, ao desempregar milhares de trabalhadores. Lembro que, quando trabalhava em uma multinacional do petróleo, quando estávamos implantando novas bombas de abastecimento que permitiam que o próprio motorista abastecesse os veículos, como já ocorria no exterior, houveram pressões de todos os lados para que não fossem eliminados os postos de trabalho dos frentistas, sob a alegação de que teríamos um problema social grave, em um período bastante crítico pelo qual passava a economia brasileira, no final dos anos 80. Outro fator é a disponibilidade de mão de obra não qualificada, relativamente barata, quando confrontada com o preço dos equipamentos que permitem a redução no número de operários em obras, por exemplo. Vamos usar a indústria da construção civil como exemplo por ser uma grande empregadora.  Por conta deste fator, é muito mais barato contratar ajudantes para executarem as tarefas que um ou mais equipamentos executariam, mesmo que isso implique em maiores riscos de acidentes e maiores prazos de execução. Mesmo quando consideramos profissionais mais qualificados, como pedreiros e carpinteiros, entre outros, a oferta de profissionais ainda é grande, e limita o interesse das empresas em investir em equipamentos que reduzam a demanda por mais mão de obra.

No caso da construção civil, no período compreendido entre 2007 e 2012, quando o mercado teve um crescimento muito grande, e começou a haver escassez de profissionais para algumas funções, as empresas tiveram que investir em equipamentos e na capacitação de profissionais, e houve a incorporação de equipamentos como máquinas de execução de reboco, de pintura e até de robôs de assentamento de tijolos. Esse equipamentos exigem que esteja no comando profissionais aptos à sua operação, que sejam capazes de solucionar problemas técnicos, exigindo assim uma maior capacidade de resolução de problemas e habilidades que não estão disponíveis no mercado. É preciso qualificar estes profissionais. Porém, o somatório de equipamentos mais profissionais qualificados é igual a um menor número de profissionais necessários para a mesma tarefa, ou seja, causa desemprego. Aconteceu em outros países, e vai acontecer aqui.

Como já mostrado na primeira parte 1 deste Artigo, o cenário do mercado de trabalho brasileiro, para o período compreendido entre 2047 e 2060, será de uma considerável redução de mão de obra jovem, com um aumento importante no número de pessoas acima de 65 anos. Esta nova configuração da força de trabalho, demandará a introdução de muita inovação e tecnologia em indústrias que hoje são grandes empregadoras e que não terão essa disponibilidade de pessoas no mercado. Para isso será necessário automatizar o que for possível. A mudança dos seus meios de produção (equipamentos e sistemas) exigirá profissionais mais capacitados, com maiores competências e habilidades que proporcionem a suaempregabilidade neste novo cenário.

Fala-se muito na Indústria 4.0, que é a base para essas mudanças que já vem sendo trabalhadas em outros países e que engatinha no Brasil por dois motivos básicos: a disponibilidade ainda grande de mão de obra e a baixa escolaridade. Analisando a posição estratégica de alguns países que já possuem uma avançada utilização de tecnologia na produção, podemos entender a importância destes dois fatores. A  Alemanha, um dos países expoentes na Indústria 4.0, de acordo com o site Countrymeters (disponível em https://countrymeters.info/pt/germany), possui uma população de 81,5 milhões de habitantes. entre 1975 e 1985 e entre 1999 e 2011, teve taxa negativa de crescimento. De 1986 e 1998, teve crescimento abaixo de 1%, e, a partir daí, vem tendo taxas de crescimento próximas de 0%. A França tem uma população de 65,5 milhões de habitantes e taxas de crescimento abaixo de 1,0% desde 1967. O Canadá tem 37,4 milhões de habitantes e taxa de crescimento populacional em torno de 1% desde 1980. Ou seja, são países que possuem uma população pequena e que está envelhecendo, pois a fecundidade está abaixo de 2,1 filhos por mulher, taxa de fecundidade que garante a reposição populacional. Isso acionou nestes países, um sinal de alerta que não aconteceu no Brasil, cuja população crescia próximo de 3% de 1951 até 1968, acima de 2% até 1987 e acima de 1% até 2009, quando estabilizou em torno de 0,9%. Assim, somente a partir de 2010 começamos a perceber o problema que essa baixa taxa de crescimento populacional nos causará no futuro. Esse foi um dos fatores para termos largado atrasados nesta corrida. Assim, o que tínhamos à vontade, que era mão de obra abundante, vai começar a faltar.

Quando se trata de qualificação, que implica em melhorar nossa educação, o problema é mais preocupante.  Para uma breve conclusão, optamos por usar o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) como fator de comparação do desafio que nos aguarda, por este reunir diversos fatores que influenciam resultados quando tratamos de desenvolvimento e melhoria na qualidade da educação. O IDH da Alemanha é de 0,936 (5º.), da França é de 0,872 (14º.) e do Canadá 0,926 (12º.). O IDH brasileiro é de 0,699 (79º.).  A mensagem é clara: se nada for feito, vai faltar mão de obra e vai faltar qualificação no pouco que restar. Se acharem que temos tempo, lembrem-se de que temos 28 anos para esta fase começar, ou seja, vai pegar em cheio todos os nascidos neste ano, que estarão saindo das Universidades.

 

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