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26 de janeiro de 2021
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Dores das perdas

A pandemia tem mostrado o lado cruel da nossa existência. Mas indica que devemos amar e viver próximo de quem nos faz feliz

Dores das perdas

O canto do galo anunciando um novo dia que não acontece. Nunca o futuro foi tão incerto. O prenúncio de um novo dia vem por meio de sirenes de ambulância e de carros fúnebres, entrecortado por choros solitários e gritos de dores que ecoam por áreas nobres e pobres das cidades. Sentimentos de amor e de fraternidades são expostos e, também, guardados no peito e nas lembranças a cada anúncio de mortes. A pandemia tem levado um pouco de cada um de nós e da história de nossa terra.

Nessa pandemia, muitos faleceram e outras pessoas queridas, infelizmente, terão o mesmo destino. Alguns tiveram reconhecimentos em vida. Receberam amor, afagos, perdões e conselhos. Amaram e foram amados. Deram e receberam o conforto e a amizade necessária para momento de felicidade familiar e profissional. Outros ou outras, nem tanto. Muitos partiram sem saber o quanto os amamos, o quanto eles foram importantes para nós e para cidade, o quanto eram maravilhosas as suas existências, o quanto o mundo ficaria mais triste e com poucas esperanças com suas ausências.

Há dois anos, perdi um irmão, ainda jovem. A dor da despedida se misturava com a angústia de não ter dito a ele o quanto o amava, o admirava e da falta que ele faria na família. Jamais vou poder dizer o quanto deveríamos ficar mais próximos, convivendo de forma fraternal. Junto a essa saudade, outra saudade. No mesmo período, perdi minha mãezinha de leite – uma mulher que me amava como filho, mas depois de adulto ficamos distante. Não consegui dizer a ela: “Obrigado, meu amor.”

Outra perda dolorosa: há cerca de cinco anos, recebi, com dor na alma, a notícia do falecimento de uma pessoa que eu admirava e que também gostei muito. Mas, nunca disse isso a ela.

Eu gostava de estar perto dela. Gostava de ficar olhando seu sorriso cativante, seu jeito irreverente, sua inteligência e a capacidade de ser afável com as pessoas. Loura, alta, elegante, bastante comunicativa e linda.

Era advogada, procuradora, assistente social e professora universitária. Tinha conhecimento diversificado, além de admiradora de poesias, contava histórias dos clássicos da literatura mundial como ninguém.

Certa vez ela me disse: “Você, menino, só irá me beijar quando souber o significado de um beijo pra uma mulher, como eu”. Eu estava com quase 30 anos de idade, ela uma mulher próxima de completar 50 anos. Com o tempo e, com as poesias de Fernando Pessoa e de Ferreira Gullar, desmontei as suas resistências.

Há 20 anos, não tínhamos mais contato. Sempre que passava próximo da sua residência ficava com uma vontade de visitá-la. De contar-lhe um pouco da minha vida nos últimos anos: a compra da minha casa, as minhas profissões, os meus amores, as minhas decepções…

Mas nunca arrumei tempo para visitá-la. Quando fiquei sabendo do seu falecimento senti profunda dor na alma. Dor, também, por não poder dizer mais a essa pessoa que ela foi muito importante na minha vida emocional e formação intelectual.

Pois bem. A pandemia tem mostrado o lado cruel da nossa existência. Mas indica que devemos amar e viver próximo de quem nos faz feliz. Todos merecem amor, todas as vidas importam, vamos aproveitar melhor a vida, buscar fraternidades, ouvir o canto do galo anunciando lindas manhãs.

Espero nunca mais deixar para depois para dizer da gratidão e do amor que sinto por pessoas que foram e são importantes para mim.

*Sociólogo, Analista Político e Advogado.

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