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28 de novembro de 2020
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Agrotóxicos paraquate e glifosato mataram 214 brasileiros na última década

Das mais de 45 mil notificações, menos da metade — apenas 19.852 — possuíam o nome do ingrediente ativo, e muitos destes registros eram ilegíveis

Agrotóxicos paraquate e glifosato mataram 214 brasileiros na última década
Foto: Reprodução

Dois dos agrotóxicos mais populares no país foram os responsáveis pela morte de 214 brasileiros na última década. Os herbicidas paraquate e glifosato levaram cinco pessoas por semana ao atendimento médico de emergência entre 2010 e 2019.

No mesmo período, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) estudou se retirava ou não os produtos do mercado, e considerou que apenas o paraquate representava risco à saúde. Mas, previsto para sair das prateleiras do Brasil em 22 de setembro deste ano, a decisão está agora sob pressão do lobby de empresas fabricantes de pesticidas, que tentam suspender a proibição.

Leia mais: Bolsonaro libera 118 novos agrotóxicos durante a pandemia do coronavírus

Mais de 200 mil toneladas de glifosato e paraquate foram vendidas no Brasil apenas em 2018, segundo o Ibama. Mas um levantamento inédito da Agência Pública e da Repórter Brasil revela que os dois herbicidas lideram a lista de agrotóxicos permitidos no Brasil que mais intoxicaram e mataram na última década. 92% das mortes causadas por esses produtos foram classificadas como suicídio.

Os números fazem parte da base de dados do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan) do Ministério da Saúde e foram obtidos por meio da Lei de Acesso à Informação. Eles revelam que ocorreram 45,7 mil atendimentos de intoxicações por agrotóxico entre 2010 e 2019. Em 29,4 mil foi confirmado a relação da intoxicação com o contato a um agrotóxico. Destes, 1,8 mil pessoas morreram. Cada registro é proveniente de uma ficha com 86 campos preenchidos a mão pelos médicos.

Das mais de 45 mil notificações, menos da metade — apenas 19.852 — possuíam o nome do ingrediente ativo, e muitos destes registros eram ilegíveis.

Assim, o  ÁRida padronizou 13.392 registros, ou 29% das notificações. A análise mostrou que glifosato, Aldicarbe, paraquate, Picloram e Carbofurano são os agrotóxicos que mais intoxicaram brasileiros na última década. Em relação a mortes, Aldicarbe, paraquate, glifosato, Diurom e Carbofurano são os mais encontrados.

Dois desses agrotóxicos estão banidos no país: o Aldicarbe desde 2012, e o Carbofurano desde 2017. Ou seja, têm origem no comércio ilegal.

Os números revelam apenas uma pequena parte do cenário. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), para cada caso notificado de intoxicação, existem outros 50 não computados. Com isso, os números de intoxicações por agrotóxico no Brasil superariam 1,4 milhões em uma década.

Indústria e governo minimizam riscos do glifosato e paraquate

O glifosato é de longe o ingrediente ativo mais comercializado no país, segundo o Ibama – vende quatro vezes mais que o segundo colocado, o herbicida 2,4-D. Já o paraquate aparece em sexto lugar.

Esses produtos são utilizados em culturas como soja, arroz e fumo, fundamentais para o PIB agrícola brasileiro. São tidos como vitais para o setor agropecuário, que costuma investir pesado no lobby contra a proibição desses produtos, destacando possíveis prejuízos econômicos.

A Anvisa começou a reavaliar o paraquate em 2008, e em 2017 decidiu que o produto seria banido em setembro de 2020 por ele estar associado ao desenvolvimento de mutações genéticas e à doença de Parkinson.

O paraquate foi criado pela Syngenta, empresa de origem suíça recentemente comprada pelo grupo chinês ChemChina, mas é proibido no país de origem desde 1987, em toda a União Europeia desde 2017 e na China desde 2015. Ele é produzido nesses países apenas para exportação. Nossa reportagem denunciou que esse produto estava sendo “desovado” no Brasil.

O paraquate é tão mortal que é necessário apenas um gole para tirar a vida. Por isso, o produto agrícola vem sendo utilizado também como veneno. Das 138 mortes por ingestão de paraquate, 129 foram registradas como suicídio. Uma a cada quatro pessoas intoxicadas pelo produto acabou morta.

O estado brasileiro com mais casos de morte por paraquate foi Rondônia, que tem produção agrícola de café, arroz, milho, culturas que utilizam o herbicida. 71% das vítimas que vieram a falecer no Brasil são homens, e 78% têm entre 19 e 59 anos. Apenas em 13% dos casos a vítima concluiu o ensino médio.

De acordo com a Organização Mundial da Saúde, 20% dos suicídios no mundo ocorrem por auto-envenenamento com pesticidas, dos quais a maioria ocorre em zonas rurais de países com baixa e média renda. Em 2009, um relatório da Organizações Unidas (ONU) alertou para a precaução ao suicídio relacionado aos agrotóxicos e destacou a necessidade de retirar de mercado todos os produtos considerados altamente e extremamente tóxicos.

Mas as notificações de mortes por paraquate mostram inconsistências. Das 138 vítimas, duas tinham até 1 ano de idade. Uma das crianças, de um ano, foi vítima de homicídio: o autor a envenenou dentro de casa. O outro caso era um bebê de 6 meses  —   incapaz, obviamente, de tirar a própria vida.

 

 

(*) Com informações da Pública

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