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26 de setembro de 2020
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Após 40 anos, bronze de João do Pulo ainda gera mágoa e questionamentos

Toledo, o treinador do brasileiro João do Pulo, hoje com 80 anos, ainda carrega o ressentimento. Ele não tem dúvida de que João tenha sido deliberadamente prejudicado para que um representante da União Soviética ficasse com o ouro

Após 40 anos, bronze de João do Pulo ainda gera mágoa e questionamentos
ORG XMIT: 261101_0.tif João do Pulo (João Carlos de Oliveira), atleta de salto em distância e salto triplo. (Sem local, 31.03.1979. Foto: Folhapress)

João do Pulo subiu sorridentemente ao pódio do estádio Lenin, em Moscou, há 40 anos, para receber sua segunda medalha de bronze olímpica no salto triplo. Brincou com os soviéticos dos degraus de cima e chegou a pisar no topo da estrutura para uma foto com Jaak Uudmäe e Viktor Saneyev.

Abraçou em seguida o técnico Pedro Henrique de Toledo e chorou de tristeza.

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O atleta boa-praça de 26 anos fez questão de ser simpático com aqueles que haviam ficado à sua frente naqueles Jogos de 1980. Mas não se conformou com o resultado ou com o fato de ter botado os pés no patamar mais alto do tablado de premiação meramente como um convidado –mágoa que levou até a sua morte, em 1999.

Toledo, o treinador do brasileiro, hoje com 80 anos, ainda carrega o ressentimento. Ele não tem dúvida de que João tenha sido deliberadamente prejudicado para que um representante da União Soviética ficasse com o ouro. Foi a única explicação que encontrou para as faltas apontadas em 4 dos 6 saltos do então recordista mundial.

“O que atrapalhou o João foi ele ter sido roubado”, resume à reportagem Pedrão, como sempre foi conhecido o técnico. “Ele fez saltos, acredito, acima dos 18 metros. Com certeza, ele ganhou a prova. Mas eles davam ‘foul’ para ele. Foi um episódio muito triste para os brasileiros e para mim, amigo e técnico do João.”

O salto que valeu o bronze foi de 17,22 m, na terceira das seis tentativas de João Carlos de Oliveira. A primeira registrara 16,96 m. Todas as outras investidas dele na direção da caixa de areia acabaram com a bandeira vermelha erguida, indicação de que teria sido ultrapassado o limite da tábua para o primeiro pulo.

Após uma delas, o paulista de Pindamonhangaba chegou a abrir seu largo e característico sorriso, certo de que havia concluído o salto da vitória, talvez do novo recorde mundial. Logo, porém, o semblante se desfez.

“Na segunda tentativa, saltou com muita disposição e foi tão longe que se levantou e gesticulou com as mãos vibrando de alegria, enquanto o público aplaudia. Mas o salto estava anulado”, relatou o jornal Folha de S.Paulo na edição do dia seguinte àquele 25 de julho, em texto intitulado “João queimou 4 saltos e 4 anos de luta”.

Ele havia chegado a Moscou com forte expectativa de brigar pelo primeiro lugar. Era uma caminhada sólida, com recorde mundial estabelecido em 1975 (17,89 m, marca imbatível por dez anos) e bronze na Olimpíada de 1976, em Montreal, competição que disputou contundido e contra a vontade do próprio treinador.

Em 1980, o cenário era duplamente diferente: João do Pulo estava no auge da forma, e os Jogos tinham outra cara. Se o atleta brasileiro vivia o pico de sua condição atlética, também havia crescido a tensão entre Estados Unidos e União Soviética no contexto da Guerra Fria.

A invasão russa ao Afeganistão foi a justificativa do presidente norte-americano, Jimmy Carter, para liderar um boicote ocidental à Olimpíada. A competição esportiva ganhou importância geopolítica, e, do lado soviético, acumular medalhas virou mais do que nunca uma arma na disputa ideológica.

João era um obstáculo para esse projeto, uma ameaça à tentativa de Viktor Saneyev -vencedor do salto triplo em 1968, 1972 e 1976- de obter um espetacular tetracampeonato olímpico. O clima hostil ficou evidente antes da disputa, quando o brasileiro precisou passar por exames, já em Moscou, por causa de uma lesão na perna esquerda.

“Existia um centro médico da União Soviética para atender os atletas da Olimpíada. O João fez uma radiografia e voltou para buscar o resultado, todos sabiam quem ele era. Disseram que o caso era grave, que talvez ele precisasse ser operado. Jogaram uma pressão médica em cima dele. Tentaram pegar o João de toda maneira”, conta Edgard Alves.

No estádio Lenin, no dia decisivo, houve também hostilidade do público a João, com vaias que eram incomuns no atletismo. Naquele cenário, começou a subir insistentemente a bandeira vermelha do juiz para o paulista. O australiano Ian Campbell, 23, que terminou em quinto lugar com a marca de 16,72 m, foi outro a se frustrar, com cinco de seus seis saltos invalidados.

“Olhamos um para o outro, depois da prova, e cada um falou: ‘Você é o grande campeão’. Nós dois sabíamos que haviam roubado nosso devido lugar na competição”, relatou Campbell em um dos diversos depoimentos sobre o tema desde aquela final.

Os membros da delegação australiana foram os primeiros a questionar o resultado, embora a querela não tenha ido adiante. O francês Regis Prost, técnico do antilhano Christian Valétudié, juntou-se aos que protestavam e apontou que o ouro, por justiça, seria de João do Pulo.

“Eu tenho certeza de que ele tinha feito mais de 18 metros”, afirmou Osmar de Oliveira (1943-2014), médico do COB (Comitê Olímpico do Brasil) em Moscou. “Eu vi. Eu estava lá. Ele não queimou o salto”, disse Conceição Geremias, em depoimento ao documentário “João do Voo – a História de uma Medalha Roubada” (Sergio Miranda e Pedro Simão, 2014).

Conceição foi à União Soviética como uma atleta de 23 anos do heptatlo e estava no estádio naquele dia. Testemunhos como o dela contribuem para a construção da ideia de que a competição estava arranjada para os donos da casa, mas já se foram 40 anos e não há imagens definitivas.

“Nenhum brasileiro assistiu à prova de perto, porque os ingressos eram todos vendidos antecipadamente ou distribuídos pelo governo. A prova aconteceu de um lado do campo, e a delegação brasileira todinha ficou do outro. E isso em um plano mais baixo, você não enxergava nada de marca. Naquela posição, não tem como perceber se um metro no salto são dois ou três. Ou nenhum”, afirma Edgard Alves.

O técnico Pedrão não tem dúvidas. Ele assegura ter a memória de 1980 tatuada na retina e confirmada pelas imagens a que teve acesso.

“O parâmetro que a gente tinha era um árbitro que ficava no meio da caixa de salto. Pelo ângulo em que tudo foi filmado, quem caísse atrás do cara da cadeira teria um resultado razoável. Quem saltasse na linha dele seria bom. E quem saltasse na frente seria o vencedor”, explica Pedrão.

A questão, porém, não é o ponto atingido na caixa de areia. Pode-se dizer com alguma segurança que os saltos anulados de João e de Campbell tenham superado a marca do medalhista de ouro Uudmäe. O problema é apontar com exatidão se houve falta na parte inicial do movimento.

Foram os australianos que assumiram a tarefa de comprovar a suposta injustiça. Em 2000, uma profunda reportagem do jornal Sydney Morning Herald apontou “o grande esquema” do salto triplo olímpico de 1980. Em 2015, cientistas da Universidade de Victoria conduziram um meticuloso estudo biomecânico dos vídeos para estabelecer que Campbell fora prejudicado.

A associação de atletismo australiana chegou a enviar à Iaaf (Federação Internacional de Atletismo) o estudo, acompanhado de um pedido para que Ian Campbell ganhasse uma medalha de ouro retroativa. O Brasil se apresentou como parte interessada, esperando que o benefício fosse estendido a João do Pulo.
A resposta foi negativa, sob a justificativa de que as imagens eram inconclusivas.

Após a frustração olímpica de 1980, João Carlos de Oliveira ainda conquistou o título mundial pela terceira vez, em 1981. No fim daquele ano, sofreu um acidente de carro que lhe custou a perna direita e ajudou a ditar o que seria o resto de seus dias.

O craque do atletismo morreu em 1999, aos 45 anos, de cirrose hepática. Antes de partir, recebeu homenagem do medalhista de ouro de 1980, Jaak Uudmäe. E foi tratado com reverência pelo medalhista de prata, Viktor Saneyev, aquele que fizera questão de marcar sua posição no refeitório da vila olímpica: “Os saltos do João, para mim, eram uma lição”.

Com todas as contestações, o resultado do salto triplo dos Jogos Olímpicos de Moscou ainda tem Uudmäe na frente (17,35 m), com Saneyev (17,24 m) e João do Pulo (17,22 m) completando o pódio. Mas Pedrão, o técnico do brasileiro, não desistiu.

“Continuo reclamando e continuo achando que, se quisessem, mediante filmagens e depoimentos de pessoas que assistiram à prova mais proximamente, algo poderia ser feito. A própria arbitragem poderia ser procurada”, insiste o treinador, 40 anos após a conquista da medalha que poderia ter outra cor.

 

*Com informações Folhapress

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