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Capital dos EUA tem ‘brindes’ de maconha para burlar legislação


A Coalizão Cheeba, formada por “entusiastas da maconha”, anunciou que faria um evento privado no dia 27 de agosto em Washington, com “hip-hop clássico e música reggae”. Para saber o endereço, só por meio de mensagem direta em uma rede social. “Sem vendas. Somente brindes”, dizia o convite.

Motivo do aviso: a compra e a venda da droga são proibidas na capital dos Estados Unidos. Já a doação de até uma onça (cerca de 28 gramas) para maiores de 21 anos é legalizada desde 2015, assim como o consumo em espaços privados e o cultivo de até seis pés da planta por pessoa. Para os desavisados, uma oportunidade de ganhar algumas amostras grátis de maconha e consumir sem culpa.

O lugar escolhido para receber o evento foi um bar na região de Northwest, próxima ao centro da cidade. Após o pagamento de uma “doação” de US$ 5 (em torno de R$ 20), o visitante tinha acesso a uma espécie de feira canábica, com óleos, ceras, cookies e até produtos para banho. Mas sem essa de generosidade: quem quisesse os itens teria que comprá-los.

Os participantes não deram bobeira. O esquema era entrar, comprar o item preferido e ir embora. Os preços eram semelhantes nos oito estandes: US$ 40 (em torno de R$ 165) por 3,5 gramas da droga, US$ 65 (R$ 269) por uma cera canábica e US$ 20 (R$ 82) por biscoitos e brownies.

Eventos como esse são rotina em Washington. Os organizadores se valem da legislação do distrito para legitimá-los, mas, na prática, trata-se de um mercado mantido fora dos holofotes. Tudo entre amigos. E quem não faz parte da rede deve estar preparado para olhares desconfiados por parte dos vendedores.

A programação é compartilhada em redes sociais e em portais como o 420 DC, que compila feiras e festas que estão por vir. Os organizadores não costumam divulgar os eventos com muita antecedência ou revelar o endereço nos convites para não chamar atenção e também para se prevenir contra eventuais repressões policiais.

Em junho, por exemplo, 30 pessoas foram detidas no distrito em uma festa. Os policiais teriam apreendido mais de US$ 10 mil (mais de R$ 41 mil) em dinheiro e três armas de fogo, segundo reportagem do The Washington Post.
“Eu acho que a polícia respeita os termos da lei sobre a maconha, mas a sua aplicação não é uma prioridade”, diz Keith Stroup, conselheiro legal da Norml (organização para reforma das leis da maconha). “Geralmente, só prendem quem vende ou fuma em público.”

Nem todos são realizados em estabelecimentos públicos. Na última quarta (5) à noite, um outro coletivo realizou uma festa em uma casa, também em Northwest. Para afastar olhares curiosos vindos da rua, uma cortina fora colocada do lado de dentro da porta de vidro.

Um segurança no hall de entrada sem iluminação revistava os visitantes que chegavam. “Cadê os convites?”, perguntou à reportagem. Após mostrar a troca de mensagens com organizadores do evento em uma rede social, o homem liberou o acesso ao segundo andar. A entrada era gratuita.

Vendedores em cerca de dez estandes exibiam diferentes opções de produtos derivados da maconha e a droga em si. Cobravam US$ 40 dólares por 3,5 gramas de maconha. A planta era exposta em potes transparentes com direito a lupa e luzes de led.

Como estavam em um espaço privado, os “convidados” podiam fumar livremente, com hip-hop ao fundo.
Outros tipos de estratégias têm sido adotadas por vendedores para viabilizar a venda de drogas em Washington sem burlar a lei.

Roupas, doces, sucos e obras de arte são vendidas em sites por preços superfaturados e, em troca, o cliente “ganha” alguns gramas de maconha.

Uma loja de venda de bebidas chamada High Speed, por exemplo, vende pacotes de seis sucos por US$ 55 (cerca de R$ 228). A Pink Fox vende blusas por valores entre US$ 25 (R$ 103) e US$ 35 (R$ 145). O Red Eye Delivery vende alguns cookies a US$ 60 (R$ 248).

A lei é imprecisa, mas o entendimento do escritório do procurador-geral de DC, principal órgão legal do distrito, é de que doar maconha em conexão com qualquer troca comercial é ilegal, explica Meital Manzuri, advogada do Manzuri Law, escritório especializado em drogas.

Um economista brasileiro que vive em DC e não quis ser identificado conta que já comprou livros que vinham com maconha de brinde. “Não recebi o livro todas as vezes, então basicamente comprei maconha”, diz. “Como eles vendem muito, nem sempre têm os itens disponíveis.”

Para ele, enquanto no Brasil o debate sobre a legalização das drogas é mais focado em tráfico e na violência, nos Estados Unidos a questão é mais moral e ligada à saúde dos usuários.

Para facilitar a venda, existem muitos sites que conectam compradores e vendedores e serviços de delivery da droga no distrito. O LeafedIn, por exemplo, mostra em um mapa usuários próximos, seus objetivos (comprar ou vender) e suas classificações para facilitar a escolha.

O arquiteto americano Matt (que não quis revelar o sobrenome), 25, usou um serviço de delivery da droga há alguns meses. “Se a droga fosse completamente legalizada, seria mais seguro para todos.”

Para Stroup, da Norml, a maconha deveria ser legalizada e regulada para que os usuários não tenham que comprar no mercado negro, onde não têm garantias sobre a segurança e qualidade do produto. “A lei foi um bom primeiro passo, mas precisamos estabelecer um mercado legal e regulado em que produtores tenham licença para comercializar a maconha.”

*Informações retiradas da FolhaPress

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