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Crianças enviam cartas ao TJ contando medo de tiros e de caveirões

O uso de helicópteros nas incursões policiais, marca do governo de Wilson Witzel (PSC), foi representado em vários dos desenhos entregues pelas crianças

Carta de uma criança (Divulgação)

As crianças do Complexo da Maré têm medo. Não do escuro, de agulha ou do bicho-papão. Nas margens da avenida Brasil, zona norte do Rio de Janeiro, os meninos temem helicópteros, caveirões, policiais e bandidos. 

Na segunda-feira (12), 1.500 cartas escritas (ou desenhadas) por crianças da comunidade foram entregues ao Tribunal de Justiça do Rio. Elas pediam o restabelecimento de uma Ação Civil Pública suspensa em junho, que regulamenta as operações policiais na Maré.

Funcionou. Na quarta (14), uma liminar expedida pela 2ª Câmara Cível determinou que os protocolos voltarão a valer. Entre eles a presença de ambulâncias durante as operações, o cumprimento de mandados de busca e apreensão apenas durante o dia e a instalação gradual de equipamentos de vídeo, áudio e GPS nas viaturas da polícia.

Veja algumas cartas:

A reportagem esteve na comunidade nesta quinta-feira (15) e conversou com sete crianças, de 9 a 12 anos, que escreveram algumas das cartas para a Justiça. Os nomes das crianças foram trocados para protegê-las.

“Pedi que parem com essas operações porque eu tenho medo. Quando está tendo operação, os bandidos entram na casa dos outros. Tenho medo dos policiais entrarem na minha casa e matarem os bandidos lá dentro”, disse Mariana, 10.

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O uso de helicópteros nas incursões policiais, marca do governo de Wilson Witzel (PSC), foi representado em vários dos desenhos entregues pelas crianças. 

Em sua carta, Beatriz, 10, lembrou-se de quando precisou se esconder embaixo de uma mesa no recreio da escola. Do alto, agentes atiravam de um helicóptero.  “Eu escrevi para o helicóptero não mandar mais tiro para baixo, porque isso é crime. Uma vez estava todo mundo no recreio, aí todo mundo se escondeu embaixo da mesa e um tiro passou de raspão nas costas da minha amiga.”

Durante a conversa com a reportagem, as crianças citaram muitas vezes a escola: dizendo que com frequência precisam faltar as aulas nos dias de operação ou lembrando de ocasiões em que estavam no colégio e tiveram que se esconder dos tiros.

“A gente estava na escola e estava todo mundo lá embaixo brincando. Aí passaram dois homens segurando um homem só de cueca, morto. Depois começou a dar tiro e todo mundo subiu correndo”, afirmou Mariana. 

Jessica, 9, disse que durante as operações fica com medo e chora. “Eu pedi para o juiz menos tiros e mais aulas”, afirmou.

Questionadas se já viram uma pessoa baleada ou morta, todas as crianças tinham histórias para contar. “Eu, tia! Eu já vi!”, gritavam, disputando quem falaria primeiro.

“O Boca Rosa [traficante] estava ali perto de onde vende lanche, com um fuzil, um radinho e uma pistola na mão. Os policiais viram e deram um tiro, acertou o coco dele e ele caiu no chão. Eu quase chorei”, disse Mateus, 10, que naquela ocasião tinha ido à padaria comprar pão.

A morte faz parte da realidade das crianças, que, com naturalidade, citaram tios, primos e conhecidos que morreram vítimas de tiros.
“Eu me sinto acostumada já [com a violência]. Acontece praticamente todos os dias”, afirmou Beatriz.

Joana, 10, desenhou um menino morto na carta entregue ao juiz. Ela quer se mudar da Maré porque tem medo de morrer.  Enquanto vive por lá, a menina sabe qual protocolo seguir nos dias de operação: “Não meter a cara na janela, se não o caveirão pode passar e dar tiro… Pegar na cara e morrer”.

(*) Com informações da FolhaPress

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