Atrito Macron-Bolsonaro não afeta acordo Mercosul-UE, diz ex-consultor

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Atrito Macron-Bolsonaro não afeta acordo Mercosul-UE, diz ex-consultor

Para o ex-consultor do Movimento das Empresas da França, Stéphane Witkowski, o relacionamento entre os dois países não depende exclusivamente dos canais políticos

Embora as relações diplomáticas entre França e Brasil enfrentem seu pior momento, a troca de farpas entre os presidentes Jair Bolsonaro e Emmanuel Macron não deve afetar a ratificação do acordo entre a UE (União Europeia) e o Mercosul.

Essa é a avaliação de Stéphane Witkowski, conselheiro do Instituto de Altos Estudos da América Latina da Universidade Sorbonne Nouvelle, em Paris. Para o ex-consultor do Movimento das Empresas da França (Medef), o maior sindicato patronal do país, o relacionamento entre os dois países não depende exclusivamente dos canais políticos.

“Atualmente, há intercâmbios entre chefes de Estado que são realizados por meio de redes sociais. A consequência direta disso é certamente a rapidez da reação, o reforço da dimensão pessoal e emocional e o enfraquecimento da substância da mensagem” diz ele, para quem as críticas mútuas entre Macron e Bolsonaro são exemplo disso.

“Entre a França e o Brasil, há relações firmes, parcerias estratégicas em várias áreas. Os dois países estabelecem relações diretamente sem passar pelo canal político”.

Ele cita o Plano de Ação da Parceria Estratégica Brasil-França, assinado em 2008 pelos então presidentes Lula e Nicolas Sarkozy, que prevê cooperação em setores como defesa, desenvolvimento sustentável, ciência e tecnologia.

Pesa também a favor do acordo o extenso período de negociação (mais de 20 anos), que indica que ele tem uma perspectiva de longo prazo e transcende os atuais governos, afirma Witkowski.

No entanto, o especialista reconhece que há desafios para a aprovação interna na França.

“Os desafios da política interna francesa são uma realidade, como o peso do lobby agrícola e a influência dos dos ambientalistas”, diz.

No início do mês, a ministra do Meio Ambiente, Elisabeth Borne, afirmou que os franceses não assinariam um tratado com “um país que não respeita a floresta amazônica nem o Acordo de Paris”.

Os partidos ditos ecológicos têm ganhado espaço na política francesa nos últimos anos –a legenda Europa Ecologia-Os Verdes foi a terceira mais votada nas eleições para o Parlamento europeu de maio, se consolidando como o maior partido francês de esquerda.

A questão dos subsídios foi um dos pontos mais problemáticos das negociações.

Os produtores rurais franceses temem uma invasão de commodities latino-americanas com o afrouxamento da política de incentivos da UE previsto no acordo. O setor depende fortemente desses recursos, especialmente na França, o que o torna menos competitivo. Brasil e Argentina, por exemplo, são capazes de produzir mais e com preços mais baixos.

A CNC (Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo) estima que o acordo entre Mercosul e UE terá um impacto de US$ 79 bilhões na economia brasileira até 2035.

“Mas essas questões não são exclusivas da França, e por isso devem ser abordadas a nível europeu e ser objeto de um consenso entre todos os países da UE”, afirma o especialista, acrescentando que o acordo deve passar ainda por um longo processo de ratificação pelos Legislativos de todos os países-membros do bloco.

 

(*) Com informações da Folha Press

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