'Viviam nas sombras', diz sociólogo sobre eleitorado de Bolsonaro

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‘Viviam nas sombras’, diz sociólogo sobre eleitorado de Bolsonaro

Pesquisa mostra que um terço dos eleitores do presidente da República admite as frases polêmicas dele

Todos os dias o presidente da República dá declarações polêmicas (Foto: Divulgação)

Declarações munidas de desconhecimento, intolerância aos direitos humanos e até criminosas encontram refúgio em um grupo cativo de admiradores do chefe do Poder Executivo do Brasil. Segundo pesquisa do Data-Folha, publicada no dia 6 deste mês, 33% dos eleitores do presidente Jair Messias Bolsonaro concordam em gênero, número e grau com as afirmações dele, mesmo aquelas mais controversas.

Entre as afirmações estudadas está: “O erro da ditadura foi torturar e não matar”. Para o eleitor de Bolsonaro, o universitário Matheus Dias, 21, nesse período o Brasil estava em “guerra”. “Se via ameaçado por forças de guerrilhas armadas que tinham como objetivo implantar uma ditadura do proletariado, não sou fã de tortura, mas se estamos numa guerra e nossos inimigos querem acabar com nossa soberania, que mecanismo deveríamos utilizar para retirar deles informações cruciais afim de manter a ordem e impedir que criminosos ferissem à cidadãos de bem?”, diz.

Quando o assunto é a questão ambiental, o presidente disse que só interessa “aos veganos, que comem só vegetais”. O universitário interpreta a frase como uma crítica às políticas ambientais adotadas no Brasil. “Os governos anteriores falharam na preservação da Amazônia e agora tentam jogar toda a responsabilidade dos anos anteriores de incompetência no novo governo”,  alega Dias.

O Amazonas 1 foi às ruas conversar com mais eleitores do presidente Bolsonaro para saber se, como Matheus, eles concordam com as frases utilizadas na pesquisa realizada pelo Data-Folha.

Não houve unanimidade, mas os pensamentos dos eleitores vão ao encontro das palavras proferidas por Jair. Welinton Nunez, por exemplo, outro eleitor e defensor ferrenho do presidente, entende que Bolsonaro é mal interpretado na maioria das vezes.

Ele também ressalta que votou nessa opção porque não aguentavam mais a “roubalheira que tomou conta do país”. “Muitas pessoas também votaram nele pelo fato de ser direto e dizer as coisas ‘na cara’, o que é bom mas às vezes parece exagerado, dependendo do ponto de vista”, pondera.

Apesar do presidente ser político há 30 anos, ele desvinculou a própria imagem da dos partidos e emplacou uma ideia de “novo”, o que acendeu a esperança de parte da população.

‘Capacidade crítica’

A psicóloga Thays Aguiar adverte que os fiéis de Bolsonaro “perdem um pouco da capacidade crítica” por acreditarem que ele é a figura que rompe com a corrupção.

“Para os fãs, a situação política do Brasil relacionada a corrupção é total responsabilidade dos partidos que estavam no poder anteriormente, então, acabam o ‘pintando’ como um herói, um deus, que irá acabar com ‘tudo isso que está aí’ e isso as deixa ‘cegas'”, explica.

Sempre existiram

“Viviam nas sombras, limitados pelo sistema de freios e contrapesos éticos, característicos dos regimes minimamente democráticos”, é como  o sociólogo Francinézio Amaral analisa esse grupo de um terço de fanáticos pelo presidente que, segundo ele, “se orientou pela ignorância, pelo ódio e pela má-fé e, assim, elegeu um total desqualificado”.

E Aguiar concorda que as pessoas já possuíam “esses pensamentos e acabaram encontrando um “porta-voz” (Bolsonaro) pra legitimar os preconceitos”. Dessa forma, destilar certos tipos de comentários passou de abominável para autêntico, opina a psicóloga.

O porta-voz foi resultado do “abalo das estruturas democráticas do país”, observa Amaral. “Essa parcela triste e vazia de sentido da população encontrou eco e a oportunidade de legitimação a partir do estímulo midiático de uma figura nefasta”, critica o sociólogo, que assume o papel de professor e convida o leitor a pensar: “Resta saber, até quando os outros dois terços da população, ou seja, a maioria, continuará admitindo que esse estado de insanidade continue agindo indiscriminadamente e espalhando ódio na sociedade brasileira.”

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