Foto: Márcio Silva - Portal AM1
O cheiro acre dos corpos entrando em decomposição chegou devagar. Primeiro, um leve desconforto.
Logo toda a tenda erguida às margens da vala comum no cemitério do Tarumã para proteger vivos e mortos do sol amazônico foi tomada pelo odor forte e nauseante de seres humanos apodrecendo.
O odor vinha dos sete caixões enfileirados lado a lado aguardando a vez de irem para a vala comum aberta poucas horas antes.
Ganhava mais intensidade quando um parente decidia por conta própria abrir as urnas funerárias para checar se o corpo que estava prestes a sepultar era mesmo do seu familiar.
“Depois do que aconteceu o pessoal quer ter certeza de que está enterrando a pessoa certa”, conta um dos funcionários do cemitério que tentam organizar os enterros coletivos. “Não é o certo, mas do jeito que está a coisa, estamos deixando para evitar problema”, contava ele enquanto urubus sobrevoavam a área destinada aos enterros em vala comum.
Muitas vezes os corpos não conseguem ficar na temperatura ideal e entram em processo de decomposição. Com um sistema de identificação rudimentar – em geral uma folha de papel colada ao caixão ou nos sacos plásticos que envolvem os corpos com fita crepe -, as chances de trocas de cadáveres crescem na mesma proporção que aumentam as mortes.
No último fim de semana, o caso de uma família que precisou peregrinar por hospitais, necrotérios e câmaras frias para encontrar o corpo da matriarca ganhou os jornais e programas de televisão.
“Eu não vi meu pai desde que ele entrou no hospital, precisávamos conferir para não correr o risco de enterrar outra pessoa”, contava Dilce Ferreira dos Santos, de 47 anos, logo após abrir a tampa do caixão de seu pai com a ajuda de um irmão e de uma sobrinha. Vítima da Covid-19, Álvaro Silva dos Santos, de 77 anos, ficou internado em um hospital de Manaus por duas semanas, até que faleceu no último sábado.
Por conta da burocracia e da sobrecarga no sistema funerário, a família só conseguiu fazer seu sepultamento no final da manhã da terça-feira.
“O corpo do meu pai ficou andando de um lado pro outro, parece que agora estava aqui no caminhão frigorífico que instalaram ali em cima, mas a gente não sabe direito, por isso decidimos abrir pra ter certeza de que era ele”, contava Dilce, protegida apenas por uma simples máscara de pano.
“É tudo uma tristeza e agora vou ter que enterrar meu pai como se ele fosse um cachorro”.
Ao seu lado, uma outra família checava se o corpo que estava depositado no caixão enrolado apenas com lençóis – ao contrário do que determina a Anvisa nesses casos – era mesmo de seu parente. Sem o acondicionamento correto, o cadáver, que já estava guardado nas câmaras frigoríficas há dias, exalava um cheiro extremamente forte.





