Manaus, 10 de julho de 2026
×
Manaus, 10 de julho de 2026

Cenário

Chapas ‘puro-sangue’ são maioria na corrida eleitoral à Prefeitura de Manaus

Quatro das sete candidaturas formadas são compostas por candidatos a prefeitos e vice-prefeitos do mesmo partido, número corresponde a 57% do pleito. 

(Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)

Manaus (AM) – Chapas ‘puro-sangue’ são a maioria na corrida eleitoral à Prefeitura de Manaus. Conforme apurado pelo Portal AM1 na plataforma DivulgaCand, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), quatro das sete candidaturas formadas são compostas por candidatos a prefeito e vice-prefeito do mesmo partido, número corresponde a 57% do pleito.

Os candidatos quem compõem essa lista são: David Almeida e Renato Junior (Avante); Amom Mandel e Nancy Segadilha (Cidadania); Gilberto Vasconcelos e Damiana Amorim (PSTU); e Wilker Barreto e Professora Renata (Mobiliza).

O que significa chapa ‘puro-sangue’?

Ao Portal AM1, o antropólogo e cientista político da Universidade Federal do Amazonas (UFAM), Raimundo Nonato, explicou que as chapas ‘puro-sangue’ ocorrem quando determinado partido político, na construção da sua candidatura e escolha do vice, resolve não incluir outras siglas partidárias.

“Trata-se uma ação política em que as chapas concorrentes optam em suas estratégias políticas para a composição do executivo municipal a não formação de alianças com outras agremiações partidária”, explica o cientista político”, explica Nonato.

Nas eleições municipais de 2020 houveram 11 candidaturas concorrendo a uma cadeira no executivo municipal, 63,3% delas eram formadas por chapas ‘puro-sangue’.

Segundo o antropólogo, esse formato de candidatura revela uma divisão de interesses dos candidatos, além da entrada da direita e extrema-direita em modelos de candidaturas que, anteriormente, eram vinculadas aos partidos de esquerda.

“Revela a fragmentação de interesses e, de forma tímida, a entrada em cena de candidaturas de direita e de extrema-direita assumindo publicamente o seu campo ideológico. Antes, esse monopólio restringia-se a candidaturas ideologicamente vinculados aos partidos de esquerda”, ressalta Nonato.

Alianças

Segundo o cientista político, o mercado eleitoral se baseia em um jogo de xadrez, isso porque as próximas movimentações políticas são as mais importantes no cenário.

“No mercado eleitoral as alianças são bem-vindas. Todavia, essas alianças devem atender o interesse dos aliançados. O interesse imediato da maioria, ganhar a eleição, a vejo como segundo plano em virtude das projeções feitas pelos mandarins da política visam as eleições de 2026, 2028 e 2030. Colocam-se os nomes nas vitrines do mercado político. Uma aliança se pauta por acordos políticos para a próximo eleição”, pontua Nonato.

O Portal AM1 questionou o antropólogo se essa alta demanda de chapas ‘puro-sangue’ acontece devido à dificuldade de se aliar politicamente com outras siglas partidárias ou está mais atrelado à polarização política. Em resposta, Raimundo Nonato citou como exemplo a fragmentação da direita e a Frente Ampla de Esquerda.

“Em Manaus, os efeitos da polarização em decorrência fragmentação da direita e da convicção da chapa do PSTU em não aderir à Frente Ampla de Esquerda, contextualiza a mobilização dos “puro-sangue” para eleição de 2024; aposta-se em projeção para 2026 e para 2028”, explicou Raimundo Nonato.

A situação a qual o cientista político se refere é o racha entre o Capitão Alberto Neto (PL) e seu ex-colega de sigla, Coronel Menezes (Progressistas). Atualmente, as duas figuras da direita amazonense, disputam às eleições municipais em chapas contrárias. Enquanto o Capitão Alberto Neto (PL) se aliou junto ao Partido Novo, escolhendo como vice à Professora Maria do Carmo, e sustenta sua candidatura ao apadrinhamento de Jair Bolsonaro (PL), o Coronel Menezes caminha ao lado do executivo estadual, como vice do candidato à Prefeitura de Manaus e presidente da Assembleia Legislativa do Amazonas (Aleam), Roberto Cidade (União Brasil).

Além desse exemplo, o cientista político citou a decisão da chapa do Partido Socialista dos Trabalhadores Unificados (PSTU) de não aderir à Frente Ampla de Esquerda. A candidatura de Marcelo Ramos (PT) tem em seu arco de alianças a Federação PSoL-Rede, o Solidariedade, Partido Democrático Trabalhista (PDT), Federação Brasil da Esperança, com o Partido dos Trabalhadores (PT), Partido Comunista do Brasil (PC do B) e o Partido Verde (PV).

O PSTU Amazonas criticou a decisão do Partido Socialismo e Liberdade (PSoL) de retirar a candidatura majoritária de Natália Demes e descreveu que a ação seria uma ‘munição à ultra direita’.

“Não fazemos um sinal de igualdade entre um ou outro desses polos. Temos muita clareza sobre suas diferenças. Mas também não se pode negar que tanto um quanto o outro representam frações burguesas em disputa – e não tem nada a ver com os interesses da classe trabalhadora e suas camadas oprimidas”, afirma em publicação.

(Foto: Reprodução/Redes Sociais)

‘Cada caso é um caso’

O Portal AM1 também conversou com o cientista político Helso Ribeiro sobre a disposição das chapas puro-sangue nas eleições municipais de Manaus. Em resposta, Ribeiro fez ressalvas e pontuou a particularidade das candidaturas.

Por exemplo, a chapa do PSTU é muito peculiar, pois caminha mais ao lado ideológico, devido às raízes do partido. Um ‘grito contra o sistema capitalista’, classifica Ribeiro.

“O PSTU é um partido extremamente ideológico, nada fisiológico. É um partido de extrema-esquerda, trotskista. Eu vejo que o que existe é quase uma impossibilidade de fechar com outros partidos, porque o PSTU, se você notar, não tem nenhum deputado nem senador no Congresso Nacional. Os representantes políticos eleitos deles são mínimos, pelo Brasil afora. Acredito que eles participam das eleições mais para marcar presença e gritar contra o sistema capitalista, falar sobre as mazelas brasileiras” , analisa Ribeiro.

Com relação à candidatura de Wilker Barreto e a Professora Renata, ambos filiados ao Mobiliza, o cientista político entende que a decisão de ocupar esse espaço com uma chapa ‘puro-sangue’ se deu por conta da falta de ‘grupo’ e uma suposta falta de ‘interesse’ das demais figuras políticas. A vontade de se lançar em âmbito estadual é apontada por Helso Ribeiro como uma das razões para uma coligação enxuta.

Na percepção do cientista, o caminho político que se desenha é de que, caso conquiste a reeleição, o atual prefeito de Manaus, David Almeida, concorrerá às Eleições de 2026, buscando o cargo de governador. Por isso, a decisão de optar pelo caminho ‘seguro’: a construção de uma chapa ‘puro-sangue’ onde haja confiança entre ambas as figuras, levando, portanto, a escolha do ex-secretário municipal de infraestrutura, Renato Junior, como vice.

“A coligação envolvendo eles [David Almeida e Renato Júnior], que ainda tem o MDB e o PSD, foi fechada nos últimos minutos da prorrogação. Ainda assim, você não vê nenhuma atitude de vanguarda dos líderes de MDB e PSD — leia-se, Eduardo Braga e Omar Aziz — na campanha. O que tudo indica é bem simples, né? O prefeito vai para a reeleição e deixa um fiel escudeiro, alguém de plena confiança dele, que é o Renato Júnior, para substituí-lo em 2026. Para mim, isso aí é bem claro, tá? Se ele ganhar as eleições, ele é candidato a governador em 2026”, delineia Ribeiro.

Perfil do Eleitorado

O Portal AM1 quis saber se esse maior número de chapas puro-sangue revelam algo sobre a dinâmica e perfil do eleitorado amazonense, o cientista político, Raimundo Nonato, classificou o perfil manauara como ‘fluído’.

Segundo o especialista, algumas áreas da cidade, que antes costumavam votar em candidatos progressistas, agora mudaram. Cada eleição mostra um panorama político diferente.

“Certas regiões da cidade eram territórios políticos com tendência a votar em candidaturas progressistas, hoje não. Com a expansão da cidade, outros territórios e atores políticos surgiram e dinamizaram a fluidez eleitoral. Cada eleição revela um quadro político. Todavia, há uma parcela significativa do eleitorado que mantém firmemente umas tendências mais progressistas”, explicou Nonato.

 

LEIA MAIS: