Servidores denunciaram maternidade em que mãe e bebê morreram

Publicado em 17/02/2019 22:59

A equipe de médicos, enfermeiros e técnicos auxiliares da Maternidade Estadual Balbina Mestrinho, na zona Centro-Sul, denunciou à imprensa, a falta de condições de trabalho e péssima estrutura do local, dezesseis dias antes de uma mãe e sua filha, recém-nascida, morreram neste domingo, 17.  

O funcionário da maternidade Balbina Mestrinho mostrou a falta de estrutura no trabalho no início deste mês (Reprodução)

Além dos funcionários, pais também reclamaram, principalmente, da situação da Unidade de Tratamento Intenso (UTI) Neonatal da maternidade, onde, segundo eles, equipamentos estavam despencando em cima das crianças e funcionários.

O espaço é reservado ao tratamento de prematuros e de bebês que apresentam algum tipo de problema de saúde ao nascer. As denúncias vieram à tona em meio ao atraso no pagamento de prestadores de serviços de manutenção e de funcionários terceirizados da Secretaria de Estado de Saúde (Susam).   

Neste fim de semana, familiares de Ila Arantes Fernandes, de 35 anos, registraram um Boletim de Ocorrência (BO) para relatar a negligência da maternidade e dos funcionários na morte da jovem e da filha,  na madrugada de hoje, na Balbina.

Ila Parente tinha 35 anos e deixou três filhos (Reprodução/Família)

Segundo parentes, a gestante e o bebê, que ainda estava na barriga, morreram por falta do atendimento urgência, no local. A jovem estava no oitavo mês de gravidez, e foi levada até a maternidade na ultima quinta, 14, com hemorragia e reclamando de dores.

À imprensa, a família relatou como foi feito o atendimento inicial a Ila Arantes. “Mesmo passando mal quando chegou (à maternidade), ela recebeu atendimento só na sexta à tarde, 24 horas depois”, lamentou um dos parentes.

De acordo com ele, a falta de leito para a grávida pode ter piorado a situação do bebê. “Falaram que não tinha leito. Demoram muito e ainda queriam que ela tivesse o bebê normal. Só ontem ela foi para a sala de cesárea e aí não teve mais jeito.”

Desespero

Ila deixa três filhos e era casada. Abalado e revoltado com a perda repentina da esposa e do filho, o marido dela revoltou-se e cobrou, aos gritos, explicações dos funcionários que a atenderam.  Ele foi levado por seguranças para fora da maternidade, segundo os familiares. Veja o vídeo.

Os parentes disseram ainda que a maternidade não prestou atendimento psicológico à família no Serviço Social, como prevê o protocolo médico nesses casos.

Mãe e criança serão velados no bairro Parque São Pedro, na zona Norte, nesta segunda-feira, 18, e depois levados para o município de Fonte Boa (a 680 quilômetros de Manaus), de onde a família é natural.

Antes da morte de Ila Arantes, outros pais já se mostravam preocupados com a falta de leitos, profissionais em número suficiente para os atendimentos e as péssimas condições de equipamento da maternidade Balbina Mestrinho.

No dia 1º deste mês, um pai conversou com a reportagem para dizer que “ampolas” que ficam acima das incubadoras por pouco não feriu um recém-nascido após ter caído próximo ao médico que ele realizava um procedimento em um bebê.  

Risco iminente

“A ampola ficou exposta e existem outras nesta situação nas unidades de tratamento intensivo da maternidade (Balbina Mestrinho). A informação que nos passaram é que a Susam não pagou a empresa que faz manutenção dos equipamentos e não há previsão”, explicou, na ocasião, a esposa do homem que fez a denúncia.

Equipamento para exames em mães e bebês está sem manutenção no Balbina, segundo funcionários (Reprodução)

Ela informou que os servidores fizeram, por conta própria, uma espécie de remendo nas ampolas que correm risco de cair em cima das incubadoras. “É uma irresponsabilidade sem tamanho do governo. Os funcionários estão fazendo o que podem, mas esse tipo de manutenção deveria ser feito pelas empresas contratadas pela Susam”, apontou. 

Resposta da Susam

Sobre a morte de Ila Arantes e sua filha, recém-nascida, a Susam emitiu uma nota neste domingo, 17. Abaixo, o texto na íntegra:

“A paciente I.A.F entrou na maternidade Balbina Mestrinho aos 0:12 de sexta-feira, 15/02, queixando-se de dor no baixo ventre e febre de seis dias Foi imediatamente internada para acompanhamento clínico em enfermaria de alto risco. 

Em nenhum momento houve falta de leito ou de assistência à gestante. Uma vez que o exame apontou gravidez de 34 semanas e frequência de 127 batimentos cardíacos fetais, sem sinais de gravidade presentes, preservou-se o bebê, aguardando a maturidade fetal.

O tratamento inicial à paciente seguiu protocolo, focando na infecção do trato urinário e no monitoramento por ameaça de parto prematuro. 

No dia seguinte, o quadro evoluiu com descolamento prematuro de placenta e, durante a cesariana, por volta das 15h, foi constatada a morte do bebê.

A mãe teve forte hemorragia, tendo sido submetida a transfusão de sangue. Em seguida, a paciente foi encaminha à UTI, mas não resistiu, indo a óbito após três paradas cardíacas.

Desespero – No momento em que recebeu a notícia das perdas da mãe e do bebê, o pai da criança ficou transtornado e tentou quebrar a máquina de lanche e outros objetos da recepção da maternidade.

Os seguranças foram chamados para conter o pai. O serviço social prestou assistência à família, incluindo locomoção para a resolutividade dos trâmites póstumos.

A Secretaria de Estado de Saúde (Susam) lamenta a perda para a família e abrirá sindicância para apurar as circunstâncias do atendimento e as responsabilidades, caso seja constata falhas nos procedimentos.”

 

 

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