95 anos de Thiago de Mello: veja vídeos de escritores recitando versos do poeta da floresta

Considerado um ícone da literatura regional, Thiago de Mello se insere no Terceiro Tempo Modernista e os 21 anos, em 1947, lançou sua primeira obra literária nominada de “Coração da Terra” e desde então, os seus versos e poesias são lidos e declamados em todo o Brasil.
Edilânea Souza – Portal Amazonas1*
Publicado em 30/03/2021 16:12
Thiago de Mello, 95 anos dedicados ao amor pela Literatura

MANAUS – Há exatamente 95 anos, completados neste 30 de março, nascia na cidade de Porantim do Bom Socorro, em Barreirinha, interior do Amazonas, um homem que mudaria e influenciaria à cultura amazônica, quiçá do Brasil e no mundo, por meio de seus poemas e poesias, este homem é o escritor e tradutor, Amadeu Thiago de Mello.

Homem que tem nas suas narrativas, o repúdio ao autoritarismo, à repressão, a vivência do homem amazônida e do ribeirinho, além de ser um exímio defensor da Amazônia e das injustiças sociais.

Mello ainda criança saiu de sua cidade natal para a capital amazonense, Manaus. Estudou em escolas tradicionais da cidade, como o Grupo Escolar Barão do Rio Branco e Ginásio Pedro II.

Logo depois rumou para o Rio de Janeiro, onde mais tarde, até iniciou um curso de Medicina, mas não concluiu, pois era a literatura que corria em suas veias e falava mais alto em sua vida.

Considerado um ícone da literatura regional, Thiago de Mello se insere no Terceiro Tempo Modernista e os 21 anos, em 1947, lançou sua primeira obra literária nominada de “Coração da Terra” e desde então, os seus versos e poesias são lidos e declamados em todo o Brasil.

Logo depois de “Coração da Terra”, vieram as obras “Tenso Por Meus Olhos” (1950), “Silêncio e Palavra” (1951), “Narciso Cego” (1952) e “A Lenda da Rosa” em (1957). Com um talento sem igual e obras literárias se consagrando pela crítica da época, no país, Thiago de Mello foi convidado para dirigir o Departamento Cultural da Prefeitura do Rio de Janeiro.

Os Estatutos do Homem

Foi com o “Os Estatutos do Homem”, que o nome de Thiago ganhou mais visibilidade, após o Golpe Militar de 1964, quando o escritor renunciou o adido cultural no Peru e Bolívia, e, retornou ao Brasil. Ao ver como era empregada a força bruta na condução de interrogatórios, o poeta escreveu seus em forma de protesto e de liberdade os seus mais de  catorze “artigos”:

Artigo I
Fica decretado que agora vale a verdade.
agora vale a vida,
e de mãos dadas,
marcharemos todos pela vida verdadeira.

Artigo II
Fica decretado que todos os dias da semana,
inclusive as terças-feiras mais cinzentas,
têm direito a converter-se em manhãs de domingo.

Artigo III
Fica decretado que, a partir deste instante,
haverá girassóis em todas as janelas,
que os girassóis terão direito
a abrir-se dentro da sombra;
e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro,
abertas para o verde onde cresce a esperança…

Os manifestos de Thiago não pararam com os “Estatutos dos Homens”, que foi escolhido pela Unesco como um símbolo dos direitos humanos expressados em versos,  o escritor continuou em seus poemas “Faz escuro, mais eu canto”, “Quando a verdade for flama” e muitos outros.

Exílio de Thiago de Mello

Ir contra a ditadura à época, era sinônimo de rebeldia e para se manter vivo só saindo do país e se exilar em outro. Como no caso do poeta amazonense, que passou dez anos no Chile até acabar o Regime, entre o período de 1968 a 1978. Lá, exilado, conheceu o escritor Pablo Neruda, um dos poetas mais famosos na América Latina.

Em 75, o escritor recebeu o Prêmio de Poesia da Associação Paulista de Críticos de Arte, pelo livro “Poesia Comprometida Com a Minha e a Tua Vida”.

Homenagem do Portal AM1

Quem aceitou o desafio de declamar um dos poemas de Thiago de Mello, foi o também escritor, Zemaria Pinto, que conhece o poeta desde sua volta do exílio, há mais de 40 nos. Zemaria lembrou de um dos maiores e melhores conselhos dado pelo mestre e que traz consigo como uma verdade de vida. “A amizade é a mais alta forma de amor”, relembrou Zemaria.

Zemaria declamou um poema “Volto armado de amor”, do livro “Mormaço na Floresta” (1981), escrito por Thiago após a volta do exílio, linkando com o livro que o tirou do país em 1968, o livro “A canção do amor armado”.

“Venho armado de amor para trabalhar cantando na construção da manhã. Amor dá tudo o que tem. Reparto a minha esperança e planto a clara certeza da vida nova que vem.

Um dia, a cordilheira em fogo, quase calaram para sempre o meu coração de companheiro. Mas atravessei o incêndio e continuo a cantar. Ganhei sofrendo a certeza de que o mundo não é só meu.

Mais que viver, o que importa é trabalhar na mudança (antes que a vida apodreça) de que é preciso mudar. Cada um na sua vez, cada qual no seu lugar.”

O poeta Dori Carvalho também homenageou Thiago de Mello declamando a poesia “Cantiga quase de roda”.

Na roda do mundo lá vai o menino.
O mundo é tão grande e os homens tão sós.
De pena, o menino começa a cantar.
(Cantigas afastam as coisas escuras.)
Mãos dadas aos homens, lá vai o menino,
na roda da vida rodando e cantando.
A seu lado, há muitos que cantam também:
cantigas de escárnio e de maldizer.
Mas como ele sabe que os homens, embora
se façam de fortes, se façam de grandes,
no fundo carecem de aurora e de infância
— então ele canta cantigas de roda
e às vezes inventa algumas — mas sempre
de amor ou de amigo.

Cantigas que tornem a vida mais doce
e mais brando o peso das sombras que o tempo
derrama, derrama na fronte dos homens.
Na roda do mundo lá vai o menino,
rodando e cantando seu canto de infância.

Pois sabe que os homens embora se façam
de graves, de fortes, no fundo carecem
de claras cantigas — senão ficam ocos,
senão endoidecem.

E então ele segue cantando de bosques,
de rosas e de anjos, de anéis e cirandas,
de nuvens e pássaros, de sanchas senhoras

cobertas de prata, de barcas celestes caídas no mar.

Na roda do mundo, mãos dadas aos homens,
lá vai o menino rodando e cantando
cantigas que façam o mundo mais manso,
cantigas que façam a vida mais doce,
cantigas que façam os homens mais crianças

Thiago de Mello nas margens do rio - foto: Acervo Prefeitura de Manaus
Thiago de Mello nas margens do rio – foto: Acervo Prefeitura de Manaus

O escritor Tenório Telles, amigo de longa data do poeta, falou sobre a poesia na vida do ser humano e que as obras de Thiago de Mello é tecida com as experiências, com a coragem e amor pelo próximo do poeta. O escritor disse ainda, que nesse momento de pandemia se torna uma esperança na vida de todos os amazonenses.

“Neste momento trista que vivemos, que a humanidade vive, falar de poesia e sobretudo falar de esperança é um verdadeiro  remédio para a alma, de modo que  poesia de Thiago de Melo é mais que necessária, é mais que um necessidade par todos nós. Nesse momento a sua faloa, sua poética e sua lirica são capazes de nos ajudar a atravessar essa fase cinza que estamos passando”, comentou Tenório, enaltecendo  poesia e o poeta amazonense.

 

 

Ao final do vídeo, Tenório declamou o poema “Como um rio” de seu amigo, Thiago, que fala de como as águas de um rio são capazes de mudar histórias, percursos e carregar impurezas deixadas em seu curso, mas sem mudar sua essência e características.

Ser capaz, como um rio
que leva sozinho
a canoa que se cansa,
de servir de caminho
para a esperança.

E de levar do límpido
a mágoa da mancha,
como o rio que leva
e lava.

Crescer para entregar
na distância calada
um poder de canção,
como o rio decifra
o segredo do chão.

Se tempo é de descer,
reter o dom da força
sem deixar de seguir.
E até mesmo sumir
para, subterrâneo,
aprender a voltar
e cumprir, no seu curso,
o ofício de amar.

Como um rio, aceitar
essas súbitas ondas
feitas de águas impuras
que afloram a escondida
verdade das funduras.

Como um rio, que nasce
de outros, sabe seguir
junto com outros sendo
e noutros se prolongando
e construir o encontro
com as águas grandes
do oceano sem fim.

Mudar em movimento,
mas sem deixar de ser
o mesmo ser que muda.
Como um rio

Thiago de Melo - Foto: Acervo Prefeitura de Manaus
Thiago de Melo – Foto: Acervo Prefeitura de Manaus

Mais homenagens

O poeta renomado já ganhou diversas homenagens em reconhecimento ao seu talento, as mais recentes , uma exposição e um selo nominados de “Thiago de Mello 95 anos de vida, poesia e amor por Manaus“, com um compêndio de suas obras, biografia, homenagens de demais poetas publicadas em um site exclusivo produzido pela Prefeitura de Manaus

Nesta terça-feira (30), a Câmara Municipal de Manaus (CMM), também vai realizar uma sessão híbrida em homenagem aos 95 anos, do poeta de Barreirinha, a partir das 10h.

Thiago tem seu nome também em um Centro Cultural localizado na zona Leste de Manaus, onde são oferecidos cursos voltados às artes, bem como para cursos de qualificação  profissional.

Em seus 80 anos, completados em 2006, Thiago ganhou uma homenagem do irmão mais novo Gudêncio, com o lançamento de um CD Comemorativo, pela Karmim, chamado de “A Criação do Mundo”, contendo poemas que o autor produziu nos últimos 56 anos. Os poemas do CD eram declamados pelo próprio escritor e musicados pelo irmão.

Obras

Entre as poesias e prosas escritas por Thiago de Mello, estão:

Poesia

Silêncio e Palavra, 1951; Narciso Cego, 1952; A Lenda da Rosa, 1956; Faz Escuro, mas eu Canto: porque a manhã vai chegar, 1966; Poesia comprometida com a minha e a tua vida, 1975; Os Estatutos do Homem, 1964; Horóscopo para os que estão vivos, 1984; Mormaço na Floresta, 1984; Vento Geral – Poesia, 1981; Num Campo de Margaridas, 1986; De uma vez por todas, 1996 e Cantídio, André Provérbios, 1999.

Prosa

A Estrela da Manhã, 1968; Arte e Ciência de Empinar Papagaio, 1983; Manaus, Amor e Memória, 1984; Amazonas, Pátria da Água, 1991; Amazônia — A Menina dos Olhos do Mundo, 1992; O Povo sabe o que Diz, 1993; Borges na Luz de Borges, 1993; e Vamos festejar de novo, 2000.

Obras do poeta Thiago de Mello / Acervo Prefeitura de Manaus

 

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