Manaus, 8 de julho de 2026
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Entretenimento

De volta às novelas, Celulari vê ‘cultura parada’ e teatro ‘na penúria’

Aos 59 anos, o ator retoma a rotina de trabalho após seis meses de tratamento de um linfoma não-Hodgkin. (Foto: Reprodução/ Internet)

Edson Celulari está mais do que entusiasmado por voltar à televisão. No papel de Dantas, na novela A Força do Querer, de Glória Perez. Aos 59 anos, o ator retoma a rotina de trabalho após seis meses de tratamento de um linfoma não-Hodgkin. Como enfrentou a barra? “Não há outra opção, é enfrentar ou enfrentar. Tem que ter controle emocional, disciplina – e acho que sempre exercitei bem isso, seja no meu ofício ou em meu temperamento.” A seu favor, ele diz ter tido sempre apoio. “Da mulher, Karen, dos filhos, familiares, amigos, público em geral. As redes sociais derramando carinho”, diz, em entrevista à repórter Marilia Neustein.

O retorno também lhe deu um gás para se conectar com coisas interessantes. “Interpretar o Dantas está me deixando muito feliz. É um pai muito afetuoso, eu conheço um pouco dessa área. Estou podendo emprestar algumas coisas para ele… (risos)”.

Interessado em diferentes linguagens, Celulari se diz preocupado com o rumo que a política cultural tem tomado na crise do País. “É uma loucura o que estamos vivendo. É uma vergonha ver o País parado, a economia parada. E a cultura, nem se fale… A situação do teatro é a pior de todas, ele está vivendo uma penúria.” Abaixo, os principais trechos da entrevista.

Como foi voltar para TV?

É um parque de diversões. Ter o privilégio de fazer o que gosto há tanto tempo, e poder voltar depois do que eu passei, é muito bom. Retomar o trabalho logo de cara, entrar no estúdio, com as pessoas que eu conheço, fazendo uma novela da Glória… que é leve e está indo muito bem. Estou muito feliz. Estamos nos divertindo muito.

De que forma encara e entende o seu personagem?

Fazer o Dantas está me deixando muito feliz. É um personagem que se mostra um pai muito afetuoso. Como eu conheço um pouco dessa área, estou podendo emprestar algumas coisas para ele (risos). É com o “perfil bolero” e isso tem sido muito interessante. Porque ele gosta, mas sofre, quer sair, mas não consegue. É um bolero, quando você pega a parceira para dançar, coloca a cabeça no ombro e esquece o problema do mundo. Além disso, ele tem uma empatia com o público.

Essa familiaridade com a paternidade, como convive com ela?

Eu adoro. Fui pai maduro, com 38 anos. Você percebe que nascem esses seres que dependem de você e, ao mesmo tempo, têm uma individualidade que deve ser respeitada. Eu acho isso um processo lindo de se viver. Eu adoro ser pai. Esse foi meu maior temor com a doença: perder essa coisa linda.

O que pode contar da sua experiência de resiliência?

Saber lidar com o desafio é fundamental. Eu me assustei com a possibilidade de estar com câncer. Passei dois dias com medo, meditando sobre a finitude, sobre ser “o seu momento”. Eu pensava que lidava bem com a finitude na idade em que eu estava, 58 anos. Não me dei muito. Quando fiz todos os exames e a médica me disse que tinha 90% de bons resultados, fiquei tão seguro que quis começar logo o tratamento. E deu certo.

O que lhe deu mais coragem?

Não há outra opção. É enfrentar ou enfrentar. Tem que ter controle emocional, disciplina. E acho que sempre exercitei bem isso no meu ofício e no meu temperamento. Lidei com muita segurança, sempre com o apoio da minha mulher Karen meus filhos, meus familiares, amigos, público em geral. Gente nas redes sociais derramando carinho.

Teve algum apoio espiritual?

Sou uma pessoa de fé. Acredito na capacidade de termos algo dentro de nós que mobiliza, interfere nas coisas. O espiritual, se somado a outra força, vale mais. Não acredito em um Deus barbudinho… Acho que é com a gente. É dentro de nós que estão o mistério e a força. Tem que ter a coragem de enfrentar essa dificuldade como qualquer outra. Parece uma montanha intransponível, mas no dia a dia existem recursos para lidar com isso. Além disso, me considero muito privilegiado de poder fazer o tratamento que fiz, no hospital em que fiz, diante da realidade do meu País. Por isso não quero ser porta-voz de nada. Agora, qualquer pessoa que aparece com câncer querem a minha opinião. Não tenho opinião.

Diante da atual realidade, acha que o público está buscando narrativas mais leves?

Sim, o folhetim. Alguém me falou que estávamos vindo de uma onda como a Avenida Brasil com temas pesados e que essa novela começou com uma sereia… E acho que a Glória Perez conta de maneira muito inteligente as tramas, sempre pontuando no humano, nas histórias. Sem essa coisa do grande vilão, a grande revelação… É prosaico, o cotidiano. E gosto muito, também, de ver que ela não poupa, ela vai resolvendo as histórias.

Você citou o carinho do público nas rede sociais. Como se relaciona com essa tecnologia?

Se intensificou mais depois da minha doença. Acho que é um caminho irreversível, esse fenômeno da comunicação. Como pessoa pública, é interessante que eu passo a ter um canal meu. Sou um produtor de um conteúdo meu. Seja o que eu quiser dividir. Ainda estou tentando entender um pouco melhor… Eu, por exemplo, não abro o diálogo. Não tenho Facebook nem Twitter. Só Instagram. Mas, como eu disse, ser porta-voz de algo é muita responsabilidade e eu não quero essa responsabilidade. Eu sou um ator, quero me comunicar de outra forma, o que quero é realizar o meu trabalho.

Acredita que a dramaturgia brasileira vive hoje um bom momento?

Vejo muito as séries. As coisas estão muito criativas na TV. Vejo conteúdo com a minha filha. House of Cards, Game of Thrones… Estou esperando as novas temporadas.

E no Brasil?

Não tem outro caminho. É o streaming… O que não inviabiliza a telenovela. Além de termos uma cultura disso, ainda vende, ainda tem público para isso. Acertando e errando, porque esse público também está em mutação. O que eu acho que é a maior carência nossa é o roteiro. Profissionais que pensem a linguagem da série que conceituem a história, a imagem, a intenção. Enfim, que pense o todo do conteúdo. Meio produtor também. Mas eu sempre fico bobo de ver como o brasileiro se adapta. O que aconteceu com a mão de obra para teatro musical, por exemplo? Em menos de dez anos o que aconteceu foi incrível. Até eu fiz (risos) o Hairspray. Formamos um casting em pouquíssimo tempo. Isso vai acontecer com as séries também.

Com​​o ​​encara o momento político atual? E, nesse contexto, qual é o papel da arte e do artista?

Cada vez mais a gente constata o desprestígio que a arte a cultura têm diante do poder político. E acho que isso é pouco inteligente. Nos países desenvolvidos a cultura tem um espaço nobre e chega a ser comercialmente interessante. Eu nunca fui um crente partidário. É uma loucura o que estamos vivendo, historicamente. É uma vergonha ver o País parado. A economia parada e a cultura, nem se fale… A situação do teatro é a pior de todas, o teatro vive uma penúria. Isso desestabiliza todos nós. Até pode surgir um movimento dessa crise e espero que surja e que frutifique em alguma coisa, no teatro, especificamente, que é uma linhagem de forte de impacto. Sempre foi a primeira linguagem a ser censurada, porque é muito impacto, é muito forte.

E como cidadão?

Da vida política eu não sei o que esperar. Quando penso nos meus filhos, não sei como será para eles este País. Eu que peguei o final da repressão, quando cheguei de Bauru em São Paulo para fazer a EAD. E 1977 estava no finalzinho, até consegui ser preso pelos soldados do DOPS. Cheguei na USP e não tinha aula, aí fui para PUC e acabei sendo preso com outras mil e tantas pessoas. Até tenho uma foto da qual me orgulho muito (risos). Foi mais um charme do que uma participação ativa. Mas hoje eu estou assustado, chocado, de ver o impasse, de governo transitório, quem imaginar poderá vir nesse lugar.

Nesse cenário, o que diz da atuação da classe artística?

A classe artística não tem uma força coletiva, falta união no setor. Eu nunca participei de campanha política porque sempre foi minha opção não participar, diferentemente de outros colegas. Mas o que eu acho é que mesmo os que participam, nunca os candidatos ajudam a classe, o movimento. E acho que falta união nisso. Para cobrar os candidatos quem apoiam a arte. É muito fácil a classe ser usada. Dizem que política e arte se atraem, mas não combinam.

E como vê o crescimento do movimento feminista na TV?

Acho maravilhoso. É um movimento que não é só aqui. A desigualdade e o desequilíbrio são horríveis em qualquer lugar e todos nós participamos disso de alguma forma. O tempo é de mudança.

Fonte: Estadão