(Foto: TÂNIA RÊGO/AGÊNCIA BRASIL)
Fabrício Paixão
Já houve, no Brasil, muitas terras sem cercas. Homens, em sua maioria imigrantes pobres, adentravam a mata fechada, enfrentando onças, flechas e feitiços, apenas para fincar um marco num pedaço de chão. Esses posseiros do século XVI sabiam que a terra era “sem dono”; suas ocupações, no entanto, não eram reconhecidas pela Coroa, que as considerava uma violação da propriedade real. Só era legítimo, aos olhos do poder, o domínio concedido pela própria Coroa aos capitães das capitanias.
Esses capitães tinham carta branca para escravizar indígenas, arrendar sesmarias e decidir quem merecia um lugar ao sol. Acumulavam extensas porções de terra, que acabavam sendo negociadas com colonos humildes. Muitos desses colonos, pobres e sonhadores, pagavam para cuidar das terras dos poderosos. O cenário lembrava o sistema feudal europeu, em que os mais ricos, muitos deles vivendo na Europa, pouco trabalhavam, enquanto exploravam o homem do campo, que via na terra a chance de um futuro melhor.
Enquanto isso, os verdadeiros donos daquelas matas, os povos originários, resistiam. Eram considerados incapazes para o trabalho, mas viviam de sua relação com a terra. Não acumulavam; produziam para sobreviver. Tampouco compreendiam por que os invasores trocavam quinquilharias por madeira. Muitos dos imigrantes pobres, que inicialmente eram pequenos proprietários, deixaram-se levar pelo desejo de possuir mais e mais terras, avançando sobre novas áreas e fincando marcos cada vez mais distantes.
Pule 500 anos. A mata agora é digital. O território não se mede em léguas, mas em likes. O produto principal não é o pau-brasil: é a atenção. Produzimos selfies, tweets e reelscomo quem plantava mandioca — só que a colheita é efêmera e o dono do solo não somos nós. Os novos capitães do pedaço chamam-se Meta, Google, TikTok. Eles nos concedem “sesmarias digitais”: um perfil, um cantinho para postar. Em troca, arrendamos nossa vida. Cada foto, cada busca, cada desabafo vira madeira nobre para seus algoritmos. Lavramos dados dia e noite. Eles devoram.
No passado, a Coroa dizia aos colonos: “Esta terra não é sua.” Hoje, as plataformas sussurram: “Você é o dono do seu conteúdo.” Mentira igual. Somos lavradores das terras alheias. Trabalhamos de graça para os novos capitães, enquanto eles monopolizam o direito de venda — não mais de indígenas, mas do nosso tempo, dos nossos desejos e medos. Sentimo-nos livres, mesmo sendo completamente explorados, monitorados e controlados.
As mentes mais brilhantes do mundo trabalham para nos manter na posse de seus territórios, criando interfaces de smartphones cada vez mais atraentes. Mesmo estando na escola, na universidade ou à mesa de jantar, a pessoa encontra-se presente-ausente, com foco no território digital, trabalhando para os capitães que lucram com a nossa atenção. O mundo físico torna-se secundário, pois o principal é o digital. Pessoas se tornam fotos. Lugares só são realmente visitados se compartilhados. Assim como os colonos pobres, plantamos em terra alheia e esquecemos da nossa própria vida, das pessoas físicas ao nosso redor.
Os indígenas resistiram no passado. A resistência, agora, não se faz com arcos e flechas. Mas talvez ainda sobreviva onde menos se espera: no gesto de apagar um aplicativo, no silêncio de uma foto não postada, no cultivo de um quintal real onde o Wi-Fi não chega.
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