Manaus, 7 de julho de 2026
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Manaus, 7 de julho de 2026

Menos mortes, mesma vítima: A face da violência em 2024

O mapa da violência brasileira continua pintado com cores fortes no Norte e Nordeste, enquanto o Sul e Sudeste ostentam tons mais suaves.

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(Foto: NewAfrica/Depositphotos)

Por Fabrício Paixão*

 O Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025 chegou às nossas mesas como um daqueles relatórios médicos que trazem boas e más notícias em doses equilibradas. A boa: o Brasil conseguiu reduzir em 5,4% suas mortes violentas intencionais, chegando a 44.127 casos em 2024. A má: ainda somos um país onde morrem violentamente 121 pessoas por dia, numa média que faria qualquer estatístico europeu perder o sono.

Para dimensionar essa conquista aparentemente modesta, é preciso olhar para trás. Em 2017, o país atingiu seu pico macabro de 64.079 mortes violentas, uma taxa de 31,2 por 100 mil habitantes que nos colocava entre os campeões mundiais de um ranking que ninguém quer liderar. Sete anos depois, com 20,8 mortes por 100 mil habitantes, ainda estamos longe do ideal, mas a trajetória descendente de 31% desde o pico sugere que algo mudou na equação brasileira da violência.

Se a violência brasileira fosse um filme, seria sempre o mesmo roteiro: homem, jovem, negro, morto por arma de fogo. Os dados de 2024 confirmam essa narrativa persistente com precisão cirúrgica. Dos que morreram violentamente, 91,1% eram homens, 79% eram negros, 48,5% tinham até 29 anos e 73,8% foram mortos por armas de fogo.

É um perfil que se mantém inalterado há anos, como se o país tivesse escolhido um grupo específico para concentrar sua violência. Quando olhamos as mortes decorrentes de intervenções policiais, o recorte fica ainda mais nítido: 99,2% homens, 82% negros, 39,5% na faixa dos 18 aos 24 anos. A violência letal no Brasil não é democrática, ela faz uma seleção cruel, que atinge principalmente os jovens negros, pobres e moradores das periferias, mostrando como as desigualdades continuam matando no país.

O mapa da violência brasileira continua pintado com cores fortes no Norte e Nordeste, enquanto o Sul e Sudeste ostentam tons mais suaves. O Amapá lidera o ranking com 45,1 mortes por 100 mil habitantes, seguido pela Bahia (40,6) e Ceará (37,5). Do outro lado, São Paulo (8,2), Santa Catarina (8,5) e o Distrito Federal (8,9) mantêm taxas que se aproximam de países desenvolvidos.

Um amapaense tem 5,5 vezes mais chances de morrer violentamente que um paulista. É como se vivêssemos em países diferentes dentro do mesmo território nacional. E talvez seja exatamente isso que acontece: Brasis distintos, com realidades socioeconômicas, estruturas de segurança e dinâmicas criminais completamente diferentes.

Os dados revelam surpresas que merecem atenção. O Ceará, que chegou a ser exemplo de redução da violência com uma queda espetacular para 26,1 mortes por 100 mil habitantes em 2019, viu seus números subirem 10,9% em 2024, chegando a 37,5. É um lembrete de que conquistas em segurança pública são frágeis e reversíveis, especialmente quando não se sustentam em políticas de Estado consistentes.

Do outro lado da equação, 170 policiais foram mortos em 2024, uma redução de 4,5% em relação a 2023. Mas há um dado ainda mais perturbador: 126 policiais se suicidaram no mesmo período. Isso significa que, para cada policial morto em confronto ou por ação criminosa, outros 0,74 tiraram a própria vida. É um indicador alarmante da saúde mental nas corporações policiais brasileiras.

O Rio de Janeiro concentra o drama policial: 55 mortes em serviço e fora de serviço, mais 13 suicídios, totalizando 68 policiais perdidos em 2024. A violência policial não atinge só quem está fora da corporação; ela também afeta os próprios policiais, que muitas vezes vivem desamparados, carregam estigmas e lidam com traumas sem o devido cuidado dentro da instituição.

Enquanto as mortes violentas caem, os desaparecimentos sobem. Em 2024, 81.873 pessoas foram reportadas como desaparecidas, um aumento de 4,9% em relação ao ano anterior. É um fenômeno que pode estar mascarando execuções e desaparecimentos forçados, como sugere o próprio anuário.

A taxa nacional de 38,5 desaparecimentos por 100 mil habitantes esconde disparidades regionais extremas. Roraima registra 73,7 por 100 mil, enquanto o Maranhão marca apenas 13,4. É uma diferença de mais de cinco vezes.

Das 81.873 pessoas desaparecidas, 57.568 foram localizadas, uma taxa de sucesso de 70,3%. Mas o que aconteceu com as outras 24.305? Algumas podem ter sido encontradas, outras podem ter migrado sem avisar, mas uma parcela certamente engrossou as estatísticas de violência fatal de formas que os números oficiais não capturam.

Se as mortes violentas representam o ápice da tragédia, os crimes patrimoniais mostram como a violência permeia o cotidiano brasileiro. O roubo e furto de celulares, por exemplo, atingiu 850.804 casos em 2024, uma redução de 12,6% que ainda assim representa mais de 2.300 aparelhos roubados ou furtados por dia. O Amazonas lidera esse ranking infeliz com 831,7 casos por 100 mil habitantes.

O que esses números nos ensinam sobre o Brasil de 2024? Primeiro, que é possível reduzir a violência quando há vontade política e políticas consistentes. A queda de 31% nas mortes violentas desde 2017 não aconteceu por acaso, é resultado de investimentos em inteligência policial, programas sociais e, em alguns casos, mudanças nas dinâmicas do crime organizado.

Segundo, que a violência brasileira tem endereço certo: jovens negros das periferias urbanas. Enquanto não enfrentarmos as desigualdades estruturais que alimentam essa concentração, continuaremos tratando sintomas em vez de causas.

Terceiro, que conquistas em segurança pública são frágeis. O retrocesso do Ceará mostra que não existe piloto automático em políticas de segurança. É preciso vigilância constante e adaptação às mudanças nas dinâmicas criminais.

Quarto, a saúde mental dos policiais é um problema grave. Quando o número de suicídios entre eles é igual ao de mortes no serviço, isso mostra que algo está muito errado no apoio que recebem.

Por fim, que os desaparecimentos podem estar escondendo uma violência que não aparece nas estatísticas oficiais. É um fenômeno que demanda investigação mais aprofundada e políticas específicas de prevenção e resposta.

Os 44.127 brasileiros que morreram violentamente em 2024 representam 44.127 histórias interrompidas, famílias destroçadas, potenciais não realizados. Mas também representam 2.314 vidas poupadas em relação ao ano anterior. É pouco? Sim. É irrelevante? Absolutamente não.

Cada vida salva é uma vitória contra a barbárie que, por muito tempo, pareceu ser nosso destino inevitável. O Brasil de 2024 é menos violento que o de 2017, mas ainda é inaceitavelmente violento. A diferença é que agora sabemos que é possível mudar essa realidade.

(*) Advogado, filósofo, psicólogo, mestre em Sociedade e Cultura e professor de direito na Wyden.

 

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