Manaus, 7 de julho de 2026
×
Manaus, 7 de julho de 2026

Brasil

Desigualdade no Brasil sob a perspectiva do curto e do longo prazo

Indicadores recentes e estudos históricos analisam diferentes temporalidades do fenômeno.

desigualdade-no-brasil-sob-a-p

(Foto: Divulgação)

Manaus (AM) – Indicadores recentes sobre desigualdade no Brasil têm revelado um quadro complexo. De um lado, dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) apontam redução da pobreza e queda da desigualdade de renda medida pelo coeficiente de Gini.

De outro, estudos internacionais, como o World Inequality Report 2026, indicam que a concentração de renda e riqueza entre os estratos mais ricos permanece praticamente inalterada. A coexistência desses resultados sugere que mudanças recentes ocorreram sobretudo na base da distribuição, enquanto estruturas históricas de concentração seguem atuantes.

De acordo com o Ipea, o Brasil registrou em 2024 os melhores indicadores sociais desde 1995, com crescimento da renda domiciliar per capita e redução expressiva da pobreza e da extrema pobreza.

O instituto atribui esse movimento principalmente à recuperação do mercado de trabalho e à ampliação das políticas de transferência de renda. O coeficiente de Gini, sensível às variações entre os grupos de menor e médio rendimento, atingiu o menor nível da série histórica.

Em contraste, o World Inequality Lab adota uma metodologia que incorpora dados fiscais e patrimoniais, permitindo uma análise mais detalhada do topo da distribuição.

Segundo o relatório, os 10% mais ricos concentram cerca de 59% da renda total do país, enquanto os 50% mais pobres detêm pouco mais de 9%. No caso da riqueza acumulada, a concentração é ainda maior: aproximadamente 70% do patrimônio nacional está nas mãos dos 10% mais ricos.

Esses dados indicam que a melhora nos indicadores médios não foi acompanhada por alterações significativas na participação dos grupos de maior renda.

A permanência desse padrão tem estimulado novas investigações sobre as origens históricas da desigualdade no país.

Nesse contexto, a Universidade Federal da Paraíba (UFPB) passou a integrar um projeto nacional que busca compreender como essas assimetrias foram construídas ao longo do tempo. Intitulado “INCT Regiões: história social das desigualdades no Brasil”, o projeto reúne 206 pesquisadores brasileiros e estrangeiros e recebeu cerca de R$ 20 milhões do Programa Institutos Nacionais de Ciência, Tecnologia e Inovação (INCTs/CNPq).

A pesquisa prevê o levantamento, análise e digitalização de documentos históricos que vão do século 18 ao início do século 20, incluindo registros de terras, tombos de pessoas escravizadas, inventários patrimoniais e registros de imóveis.

Os documentos serão coletados em arquivos paroquiais, judiciários e arquivos públicos municipais, formando uma base de dados nacional sobre a formação das desigualdades regionais no Brasil.

Na Paraíba, os trabalhos serão conduzidos por pesquisadores do Departamento de História da UFPB, vinculados ao Núcleo de Documentação e Informação Histórica Regional (NDIHR).

Segundo o professor Martinho Guedes, coordenador do projeto no estado, há diferentes interpretações sobre quando a desigualdade brasileira se consolidou.

Uma corrente sustenta que suas bases foram estabelecidas no período colonial, enquanto outra aponta o século 20, marcado pela industrialização e pela inserção do país no capitalismo internacional, como momento de intensificação. O objetivo do projeto é testar essas hipóteses a partir de evidências documentais sistematizadas.

Com duração prevista de cinco anos, a iniciativa também envolve investimentos em infraestrutura para preservação e digitalização do acervo histórico, como scanners especializados e equipamentos de higienização de documentos.

A expectativa é que o material reunido contribua para análises mais precisas sobre a formação de padrões de concentração de renda, terra e patrimônio no Brasil.

Ao articular dados contemporâneos e investigações históricas, os diferentes estudos indicam que a desigualdade no país não pode ser compreendida apenas a partir de indicadores recentes.

A redução da pobreza observada nos últimos anos ocorre em paralelo a estruturas de concentração que se formaram ao longo de séculos, reforçando a necessidade de abordagens que considerem tanto o curto quanto o longo prazo na análise do fenômeno.