Manaus, 7 de julho de 2026
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Manaus, 7 de julho de 2026

Brasil

Janeiro Branco alerta: cuidar da saúde mental exige escuta e políticas eficazes

Enquanto especialistas defendem a quebra do silêncio, estudo aponta falhas estruturais no atendimento em saúde mental no Brasil.

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(Foto: Divulgação/ Ascom Uncisal)

Manaus (AM) – O cuidado com a saúde mental tem ganhado maior visibilidade nos últimos anos, impulsionado por campanhas de conscientização como o Janeiro Branco, no Brasil, e o Dia Mundial da Saúde Mental, celebrado em 10 de outubro.

Mais do que datas simbólicas, essas iniciativas cumprem um papel fundamental na quebra de preconceitos, no estímulo ao autocuidado e na ampliação do debate público sobre sofrimento psíquico.

Segundo a Terapeuta Psicanalista, Samiza Soares, em entrevista exclusiva ao Portal AM1, quando a saúde mental ocupa espaço na mídia, nas escolas e nas instituições, ela deixa de ser vista como sinal de fraqueza ou “falta de fé”.

“Essas campanhas legitimam o cuidado emocional como parte da saúde integral. Ao ganhar visibilidade, o sofrimento psíquico passa a ser reconhecido como uma necessidade humana, e não como drama ou exagero”, explica Samiza.

A profissional destaca que muitas pessoas só percebem que precisam de ajuda ao entrarem em contato com informações promovidas por essas campanhas.

“Elas ajudam a romper o silêncio, normalizam conversas difíceis e mostram que aquilo que a pessoa sente tem nome, tratamento e acolhimento. É um convite coletivo para refletir sobre limites, hábitos emocionais e buscar ajuda sem culpa ou vergonha”, afirma.

Sinais ignorados e o risco da normalização do sofrimento

Apesar dos avanços no debate, muitos sinais de alerta ainda são ignorados no cotidiano. Entre os mais comuns estão a exaustão emocional constante, alterações no sono e no apetite, irritabilidade frequente, isolamento social, perda de interesse por atividades antes prazerosas e uma sensação persistente de vazio ou inadequação.

“No consultório, esses sintomas costumam aparecer disfarçados de ‘cansaço normal’ ou ‘fase difícil’, quando, na verdade, já indicam um sofrimento psíquico em curso”, alerta a psicóloga.

Do ponto de vista psicanalítico, Samiza chama atenção para a repetição de padrões de sofrimento, quando a pessoa se mantém em situações que adoecem sem compreender o motivo, além da dificuldade de nomear o que sente. Segundo ela, frases como “não sei o que tenho, só sei que não estou bem” são muito frequentes.

Para a especialista a normalização do sofrimento também preocupa. Expressões como “todo mundo está assim” ou “eu dou conta” funcionam como mecanismos de defesa que adiam o cuidado. Quando ignorados, esses sinais podem evoluir para quadros mais graves, como ansiedade intensa, depressão, burnout e manifestações psicossomáticas.

Ao final, Samiza reforça que o cuidado com a saúde mental começa pela escuta de si mesmo.

“Permitir-se entender o que o sintoma está tentando dizer e buscar ajuda não é fraqueza, mas um gesto de responsabilidade, consciência e cuidado com a própria história”, conclui.

Políticas públicas: avanços e lacunas

O debate sobre saúde mental não se limita ao campo individual. O artigo “Saúde mental no Brasil: desafios para as políticas públicas e legislação”, publicado em janeiro de 2025 na revista Debates em Psiquiatria, da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), aponta que, embora o país tenha avançado com a Reforma Psiquiátrica e a desinstitucionalização, ainda enfrenta sérias limitações estruturais.

A Reforma Psiquiátrica representou um marco ao substituir o modelo hospitalocêntrico por uma atenção de base comunitária. No entanto, o artigo destaca que esse processo não foi acompanhado de investimentos suficientes em infraestrutura, financiamento e ampliação da rede de cuidados.

A falta de leitos especializados e de serviços comunitários robustos ainda compromete o atendimento adequado, especialmente para a população mais vulnerável.

Outro ponto crítico é a descontinuidade das políticas públicas. Historicamente, a saúde mental no Brasil tem sido marcada pela priorização de abordagens ideológicas em detrimento de evidências científicas. A desospitalização, quando não acompanhada por uma rede de suporte eficaz, pode resultar em marginalização ainda maior de pessoas com transtornos mentais graves.

Caminhos possíveis

Tanto a prática clínica quanto os estudos apontam para a mesma direção: cuidar da saúde mental exige escuta, investimento e responsabilidade coletiva.

No campo das políticas públicas, especialistas defendem uma abordagem científica e pragmática, com fortalecimento da rede de cuidados, financiamento adequado e integração equilibrada entre internação e cuidado comunitário.

Campanhas como o Janeiro Branco ajudam a ampliar a consciência social, mas a garantia de atendimento digno e de qualidade depende de ações estruturais e contínuas do poder público.

Em um país onde milhões de brasileiros convivem com sofrimento psíquico, falar sobre saúde mental não é apenas necessário, é urgente.

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