Apesar do consenso sobre a gravidade da situação, o encontro terminou sem deliberações concretas, mais um indicativo de que o ritmo da burocracia segue descolado da velocidade das demandas econômicas.
Gargalo antigo, solução adiada
O superintendente da Suframa, Leopoldo Montenegro, foi direto ao apontar o problema: o modelo atual de concessão de lotes não responde mais à realidade. Baseado em licitações periódicas e atravessado por entraves fundiários, o sistema trava a ocupação de áreas e dificulta a chegada de novos investimentos.
A proposta de atualização da Resolução 102, que poderia destravar parte desse processo, sequer avançou. Um pedido de vista adiou a votação e, na prática, postergou também qualquer solução de curto prazo.
“Se a gente não adotar um procedimento mais dinâmico, mais célere, vamos perder áreas importantes”, alertou Montenegro, ao citar especialmente os Distritos 2 e 3.
Mercado pressionado e discurso otimista
Enquanto isso, o mercado já reage. O aumento no preço de galpões e terrenos evidencia a pressão sobre a oferta um movimento reconhecido pelo secretário da Sedecti, Serafim Corrêa, ainda que ele rejeite a ideia de colapso.
A explicação oficial para o aquecimento da demanda está no novo ambiente institucional, com maior segurança jurídica e os efeitos da reforma tributária. O problema é que, embora os investimentos estejam chegando, a estrutura territorial segue praticamente a mesma.
Na prática, o cenário revela um descompasso clássico: políticas de atração de investimentos avançam, mas o planejamento urbano-industrial não acompanha.
Expansão fora de Manaus entra no debate
Diante da limitação física da capital, cresce a pressão por alternativas. O presidente da Associação Amazonense de Municípios (AAM), Anderson Souza, defendeu a ampliação do modelo para além de Manaus, incluindo cidades do entorno como Rio Preto da Eva e Presidente Figueiredo.
A proposta, embora recorrente, esbarra em desafios logísticos e de infraestrutura que historicamente dificultam a descentralização da Zona Franca. Ainda assim, o dirigente municipalista trouxe um ponto sensível: a existência de áreas já destinadas que permanecem subutilizadas.
“Temos áreas que foram repassadas e nunca foram utilizadas. Precisamos destravar esses espaços”, afirmou.
Setor produtivo aponta impacto imediato
Se no campo institucional o debate ainda caminha, para o setor produtivo o problema já é concreto. Segundo o presidente da Eletros, Jorge Nascimento Júnior, empresas deixam de se instalar em Manaus por falta de terrenos disponíveis.
A fala explicita um risco que vai além da estagnação: a perda de investimentos para outras regiões do país.
“O ambiente melhorou, mas a infraestrutura territorial não acompanhou”, resumiu.
Crescimento sem planejamento cobra seu preço
A avaliação do presidente do Conselho Superior do Cieam, José Augusto Rocha, reforça a necessidade de planejamento estratégico, um ponto frequentemente citado, mas pouco executado ao longo das últimas décadas.
A Zona Franca de Manaus vive um momento de renovada atratividade, impulsionada por mudanças no cenário nacional. No entanto, sem uma resposta rápida para o gargalo fundiário, o modelo corre o risco de esbarrar em seus próprios limites.
Mais do que falta de espaço, o que está em jogo é a capacidade de coordenação entre governo e setor produtivo. Até aqui, os sinais indicam que essa engrenagem ainda gira abaixo do necessário.