Mário Adolfo. (Foto: Arquivo pessoal)
Augusto Bernardo Cecílio*
Há jornalistas que passam pelas redações e há os que as transformam. Mário Adolfo Aryce de Castro pertence ao segundo grupo. Aos 15 anos, quando a maioria dos adolescentes ainda decide o que fazer da vida, ele já fazia jornalismo em Manaus: desenhava histórias em quadrinhos para A Noticiazinha, suplemento infantil do jornal A Notícia.
Formado pela Universidade Federal do Amazonas, foi contratado em 1976 por A Crítica, onde foi repórter especial e cartunista. Em 1983, criou e passou a editar o suplemento infantil “Curumim, o Último Herói da Amazônia”. Dali nasceu a Turma do Curumim, que fez de milhares de crianças amazonenses leitoras fiéis e, sem que percebessem, aprendizes da defesa do meio ambiente e da cultura regional.
Em 1987, Mário mudou-se para o Amazonas em Tempo, exercendo o cargo de diretor de Redação até 2016. Foram quase três décadas à frente da redação, formando profissionais e fazendo jornalismo de qualidade.
Os prêmios confirmam a sua trajetória. Mário Adolfo ganhou duas vezes o Prêmio Esso, a maior honraria do jornalismo brasileiro: em 1984, com “A corrida do ouro no Amazonas”, e em 1997, com “Expedição Quilombo”. Recebeu ainda o Prêmio Caixa Econômica de Jornalismo Social (1995), menção honrosa no Prêmio Ayrton Senna (2000), o Prêmio CNI (2014) e o Massey Ferguson de Jornalismo (2016).
Sua obra, porém, transborda o jornal. São oito livros, de “O Dia da Abertura” (1979), com suas charges irreverentes publicadas em plena ditadura militar, a “Arthur Virgílio Filho – Perfil Parlamentar” (2014), passando por “Curumim, o Último Herói da Amazônia” (1992), “Meu Bloco na Rua” e “Meu Amigo Livro”.
Há também o compositor, três vezes vencedor do Festival de Marchinhas do Manaus Plaza Shopping, autor de seis sambas-de-enredo para a Andanças de Ciganos e de 14 marchinhas para a tradicional banda carnavalesca da BICA. É raro um intelectual que faz a cidade pensar, rir e cantar.
Desde 2020, mantém o Blog do Mário Adolfo, um dos mais lidos do Amazonas, e se dedica a livros e atividades com o Curumim e sua turma.
Foi essa história que o plenário Ruy Araújo, da Assembleia Legislativa do Amazonas, reconheceu em agosto deste ano, na sessão especial em homenagem ao programa Mania de Ler. Mário Adolfo esteve entre os homenageados, e o Curumim foi lembrado como grande incentivador da leitura entre as crianças do Estado. O deputado Sinésio Campos, idealizador da homenagem, destacou que, nas décadas de 1980 e 1990, quando ninguém falava em aquecimento global, poluição ou preservação ambiental, o personagem já tratava desses temas.
Na mesma sessão, soube-se que Manaus é a terceira capital com mais leitores do país, com cerca de 62% da população. Não é exagero supor que parte desse resultado começou nas páginas coloridas de um suplemento infantil e na imaginação de um menino da floresta.
A homenagem é justa porque reconhece que o jornalismo vai além de noticiar: ele também forma leitores, desperta consciências e deixa legado. Para o Amazonas, o “último herói da Amazônia” nunca foi o último, porque continua inspirando e ensinando novas crianças a ler.
(*) Auditor fiscal e professor
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