Adail Filho. (Foto: Mario Agra/Câmara dos Deputados)
Manaus (AM) – O MDB entra na disputa pelas oito cadeiras do Amazonas na Câmara dos Deputados com dois nomes que carregam trajetórias políticas marcadas por diferentes episódios de controvérsia: Adail Filho, apontado como favorito absoluto da legenda na projeção do analista Durango Duarte, e Saullo Vianna, que tenta alcançar uma segunda vaga do partido pelo cálculo das sobras.
O cenário eleitoral coloca Adail na liderança interna, mas ocorre justamente quando o deputado enfrenta uma nova frente judicial. Em setembro, ele foi alvo de busca e apreensão na Operação Dinastia do Lago, deflagrada pela Polícia Federal para investigar suspeitas de fraudes em licitações, desvio de recursos públicos, corrupção e lavagem de dinheiro relacionadas à Prefeitura de Coari.
Saullo, por sua vez, tenta transformar sua votação e sua estrutura política em uma segunda cadeira do MDB, mas chega à eleição carregando um histórico que inclui uma prisão temporária em 2018 e operações do Ministério Público envolvendo contratos públicos.
Adail Filho volta ao centro de uma investigação federal
A situação mais recente envolve diretamente Adail Filho. Em 16 de setembro de 2026, a Polícia Federal deflagrou a Operação Dinastia do Lago, com apoio da Controladoria-Geral da União. Foram cumpridos 29 mandados de busca e apreensão em Manaus e Coari, por determinação do Supremo Tribunal Federal.
O deputado foi um dos alvos das buscas. A investigação apura a possível atuação de uma organização criminosa em fraudes licitatórias, desvio de recursos públicos, corrupção e lavagem de dinheiro na administração municipal de Coari. A investigação começou após a apreensão de aproximadamente R$ 1,25 milhão em espécie, transportados por três empresários em um voo entre Manaus e Brasília, em maio de 2025.
O pai do deputado, Adail Pinheiro, então prefeito de Coari, também foi afastado do cargo por decisão do STF durante a operação. O afastamento, porém, foi posteriormente revogado pelo ministro Gilmar Mendes, e Adail Pinheiro retornou à Prefeitura.
A operação ainda está em andamento. Portanto, as suspeitas investigadas pela PF não representam condenação ou comprovação definitiva de irregularidades contra Adail Filho.
O caso não começou em setembro
A operação mais recente não é o primeiro episódio judicial de grande repercussão envolvendo Adail Filho. Em abril de 2026, o ministro Alexandre de Moraes determinou a abertura de inquérito no STF para investigar suspeitas de corrupção e lavagem de dinheiro envolvendo o deputado. Segundo a decisão divulgada à época, a apuração envolvia possíveis desvios de recursos públicos destinados a Coari, incluindo valores relacionados a emendas parlamentares.
Antes disso, quando era prefeito de Coari, Adail Filho foi preso temporariamente em setembro de 2019 durante a Operação Patrinus, deflagrada pelo Ministério Público do Amazonas, CGU e Polícia Civil.
A operação investigava um suposto esquema de fraudes em licitações e desvio de recursos públicos. Segundo os investigadores à época, o esquema poderia ter movimentado até R$ 100 milhões entre 2017 e 2018. Adail negou as acusações. Ele permaneceu preso temporariamente e posteriormente obteve liberdade.
Apesar do histórico, Adail mantém força eleitoral
O histórico judicial não impediu a trajetória eleitoral do político. Adail Filho foi eleito prefeito de Coari em 2016, com 21.360 votos, e reeleito em 2020, com 22.220 votos.
Em 2022, deixou a Prefeitura para disputar uma cadeira na Câmara dos Deputados e recebeu 90.028 votos, sendo eleito. Agora, em 2026, aparece na projeção de Durango Duarte como o principal nome do MDB para garantir a primeira cadeira da legenda.
É justamente esse contraste que chama atenção: o candidato apontado como líder interno do partido chega à eleição enquanto é alvo de uma investigação federal de grande repercussão.
Saullo também carrega um histórico de investigações
Do outro lado da disputa está Saullo Vianna. A trajetória política do deputado federal também possui episódios judiciais relevantes.
Em dezembro de 2018, poucos meses depois de ser eleito deputado estadual, Saullo foi preso temporariamente pela Polícia Federal por determinação da Justiça Federal. Na ocasião, ele era investigado por suspeitas de corrupção e associação criminosa relacionadas a um esquema envolvendo informações privilegiadas dentro do Tribunal Regional Eleitoral do Amazonas.
Saullo permaneceu preso por cinco dias e foi solto depois que a Justiça não prorrogou a prisão temporária. No mesmo período, o Tribunal Regional Eleitoral do Amazonas desaprovou, por unanimidade, as contas da campanha que o havia elegido deputado estadual. O tribunal apontou quatro irregularidades, entre elas problemas na contabilização de doações e na prestação de informações financeiras.
Operação Cachoeira Limpa voltou a colocar Saullo no radar
Em fevereiro de 2021, Saullo voltou a ser alvo de uma operação. A Operação Cachoeira Limpa, do Ministério Público do Amazonas, investigava suspeitas de fraude em licitações, peculato e lavagem de dinheiro envolvendo contratos da Prefeitura de Presidente Figueiredo.
O deputado estadual estava entre os alvos de busca e apreensão. Segundo o Ministério Público, o possível prejuízo investigado chegava a R$ 23 milhões. Mais uma vez, trata-se de investigação e suspeitas apresentadas pelas autoridades, e não de condenação definitiva.
Agora, os dois estão no mesmo partido
O curioso da eleição de 2026 é que Adail Filho e Saullo Vianna não são apenas adversários na disputa pelas vagas do Amazonas. Eles estão na mesma chapa proporcional. Isso transforma a disputa em uma equação interna. A projeção de Durango Duarte indica que o MDB tem força para eleger pelo menos um deputado federal. Adail Filho aparece como o nome que ocuparia essa primeira vaga.
A segunda cadeira dependeria do desempenho coletivo da chapa e do cálculo das sobras. Nesse cenário, Saullo é apontado como o candidato com melhores condições de ocupar a eventual segunda vaga.
Para que o MDB consiga ampliar sua bancada, entretanto, não basta a votação individual de Saullo. O partido precisa somar votos suficientes para conquistar uma segunda cadeira no cálculo das sobras. É aí que entram outros nomes da nominata, como Arthur Neto e Vando, cuja votação também poderá influenciar o desempenho coletivo da legenda.
Caso o MDB consiga atingir o patamar necessário, Saullo aparece na projeção como o nome que assumiria a segunda cadeira. Se isso não ocorrer, a disputa interna pode terminar com Adail Filho como titular e Saullo fora da Câmara ou dependendo de uma movimentação posterior de suplência.
A disputa coloca, portanto, dois históricos políticos diferentes diante do mesmo eleitorado. Adail Filho chega com uma estrutura eleitoral construída no interior e uma posição de liderança dentro do MDB, mas enfrenta uma nova investigação federal que atingiu também seu pai e a Prefeitura de Coari.
Saullo Vianna chega com experiência parlamentar e uma trajetória eleitoral consolidada, mas carrega episódios judiciais que remontam à sua primeira eleição para deputado estadual. Nenhum dos dois episódios, isoladamente, determina o resultado eleitoral.
Mas os fatos passam a fazer parte do contexto em que o eleitor avaliará os candidatos. E, dentro do MDB, a disputa não será apenas para saber quem consegue uma cadeira em Brasília. Será também para definir se o partido terá uma ou duas vagas e qual dos dois nomes ocupará a eventual segunda cadeira.
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