(Foto: Antônio Lopes /Sema)
Manaus (AM) – O Amazonas desponta cada vez mais como peça estratégica no debate global sobre minerais críticos e terras raras, recursos essenciais para a produção de baterias, celulares, carros elétricos, turbinas e equipamentos de alta tecnologia.
Em ano eleitoral, o tema ganha peso político ao envolver desenvolvimento econômico, geração de empregos, preservação ambiental e soberania sobre riquezas naturais.
Com o estado apontado entre os principais detentores de reservas brasileiras, especialistas avaliam que os próximos governos terão papel decisivo para definir se essa riqueza mineral poderá se converter em benefícios concretos para a população ou repetir modelos históricos de exploração com pouco retorno social.
As chamadas terras raras correspondem a um grupo de 17 elementos químicos usados em tecnologias estratégicas e na transição energética mundial. Apesar do nome, não são necessariamente escassas na natureza. O principal desafio está em localizá-las em concentrações economicamente viáveis e transformá-las em produtos de alto valor agregado.
Hoje, o Brasil ocupa posição de destaque no cenário internacional por concentrar uma das maiores reservas conhecidas desses minerais, atrás apenas da China. No entanto, ainda participa pouco da cadeia industrial global, o que reacende discussões sobre industrialização, soberania mineral e protagonismo geopolítico.
Debate ultrapassa a mineração e entra no campo político
Para o cientista político Luiz Marques, em entrevista exclusiva ao Portal AM1, a discussão sobre terras raras no Amazonas precisa ser vista além do potencial econômico imediato. Segundo ele, o Brasil convive com uma contradição histórica: possui abundância de recursos naturais, mas ainda enfrenta dificuldades para transformar essa riqueza em qualidade de vida para a população.
O especialista observa que o Amazonas, assim como o Pará, está sobre áreas de grande interesse mineral internacional, o que coloca a região no centro de disputas estratégicas. No entanto, ele destaca que a trajetória amazônica revela um padrão persistente de extração em larga escala, baixa agregação de valor e distribuição limitada dos ganhos econômicos.
“O Amazonas, assim como o Pará, repousa sobre um subsolo que desperta interesse global. As terras raras, indispensáveis para tecnologias de ponta, colocam o Brasil na posição de segundo maior detentor dessas reservas, conferindo-lhe relevância estratégica no cenário geopolítico”, diz Luiz Marques.
Embora os recursos minerais pertençam à União, os estados têm responsabilidades diretas no processo, especialmente na fiscalização ambiental, no ordenamento territorial, na concessão de licenças e na articulação política necessária para converter exploração mineral em desenvolvimento regional.
Ao citar Presidente Figueiredo, conhecido por seu potencial mineral, o cientista político aponta um exemplo simbólico. Para ele, a existência de riquezas naturais não se traduziu automaticamente em melhorias estruturais compatíveis com o valor econômico existente no território.
“O caso de Presidente Figueiredo surge como emblemático. Uma região rica em minérios, situada a 105 km de Manaus, mas cuja população ainda enfrenta limitações estruturais incompatíveis com a riqueza que a cerca”, relata.
O especialista também chama atenção para a fragilidade da participação social nas decisões estratégicas e para a influência de grupos econômicos sobre parte da classe política. Na avaliação dele, esse cenário enfraquece a capacidade de fiscalização e de construção de políticas públicas voltadas ao interesse coletivo.
Outro ponto destacado por Luiz Marques é o modelo econômico adotado pelo país. Segundo ele, exportar matéria-prima bruta representa uma escolha limitada, enquanto a industrialização exige planejamento, investimento e vontade política. Ressalta que o verdadeiro dilema brasileiro não está apenas entre preservar ou explorar, mas em decidir como explorar e quem será beneficiado pelos resultados.
“No Brasil, o dilema assume contornos mais complexos. A questão não se limita a escolher entre preservar ou explorar, mas envolve definir como explorar e, sobretudo, a quem essa exploração deve beneficiar”, destaca.
Para o especialista, a instalação de grandes projetos minerais não garante, automaticamente, melhoria na qualidade de vida da população local. Segundo ele, “a presença de grandes projetos minerais, por si só, não assegura desenvolvimento local”.
Luiz Marques avalia que, sem políticas públicas eficientes de redistribuição de renda e investimentos sociais, o crescimento econômico pode ocorrer de forma isolada, aparecendo nos indicadores, mas sem impacto concreto no cotidiano da população.
Em sua análise, a discussão sobre terras raras no Amazonas ultrapassa as dimensões econômica e ambiental e passa a ocupar espaço central no campo político. O debate, segundo o cientista político, envolve uma escolha estratégica para o país: “decidir se o Brasil continuará sendo um exportador em potencial ou se assumirá, de fato, protagonismo na cadeia global de valor”.
Para Luiz Marques, esse é um dos principais dilemas que os próximos governantes terão de enfrentar.
Desafio técnico e ambiental exige rigor
A engenheira geóloga Fabíola Bento avalia que o Amazonas vive um dilema estratégico entre aproveitar seu potencial mineral e preservar a floresta e os direitos dos povos indígenas. Segundo ela, a questão exige soluções altamente técnicas e planejamento rigoroso.
A especialista explicou ao Portal AM1 que muitos desses minerais demandam processos complexos de separação e podem estar associados a elementos radioativos. Em um ambiente amazônico marcado por chuvas intensas e grande sensibilidade ecológica, o risco de contaminação e a necessidade de gestão segura de rejeitos elevam o grau de dificuldade de qualquer operação mineral.
Fabíola Bento destaca que transformar esse potencial em desenvolvimento real depende de romper com o modelo de simples extração e exportação. Para ela, o Amazonas precisa investir em tecnologia de processamento limpo e em industrialização local, agregando valor dentro do próprio estado.
“Para transformar esse potencial em desenvolvimento real, não podemos repetir o modelo de extrair e exportar matéria-prima bruta. Precisamos de tecnologia para um processamento limpo e, acima de tudo, de industrialização local, que agregue valor aqui mesmo, no Amazonas”.
Segundo a Fabíola, esse caminho só será viável se houver segurança jurídica e governança territorial sólida. Ela defende que eventuais projetos minerários respeitem integralmente terras indígenas, unidades de conservação e critérios ambientais rigorosos.
“A mineração, quando ocorrer, deve respeitar integralmente as terras indígenas e as unidades de conservação, sob critérios de ESG extremamente rígidos”, destaca.
Na avaliação da especialista, soberania mineral e preservação ambiental não são objetivos opostos. Ao contrário, representam duas frentes complementares de uma estratégia moderna de desenvolvimento baseada em tecnologia, responsabilidade ambiental e respeito aos povos tradicionais.
Pressão sobre próximos governos
Com o avanço da corrida global por minerais estratégicos, a tendência é que o tema entre de vez na agenda pública amazonense. Caberá aos próximos governos definir políticas capazes de equilibrar atração de investimentos, proteção ambiental, diálogo com comunidades tradicionais e geração de riqueza local.
Mais do que discutir mineração, o Amazonas se vê diante de uma decisão histórica: continuar como fornecedor de matéria-prima ou buscar espaço relevante na cadeia global de tecnologia e inovação.
Mapa sobre as terras raras no Brasil:

(Foto: Reprodução/TV Globo)
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