Manaus, 6 de julho de 2026
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Cidades

Amazonas registra 4.417 focos de queimadas e ecólogo alerta para impacto político e ambiental

Especialista relaciona avanço das queimadas à fragilização da fiscalização e a decisões do governo estadual.

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(Foto: Divulgação/Freepik)

Manaus (AM) – Um levantamento do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) revela que o Amazonas acumula 4.417 focos de queimadas entre 1º de janeiro e 26 de novembro deste ano, colocando o estado na décima posição entre os mais afetados do país.

Dados gerados a partir de monitoramento por satélite, mostram que o mês de novembro já contabiliza 261 focos ativos, com destaque para o dia 8, quando foram registrados 60 focos, o maior número diário do mês até o dia 25.

O pico anual de queimadas no Amazonas ocorreu em agosto deste ano, quando foram registrados 1.842 focos. Apesar de expressivo, o número representa uma redução significativa em relação ao mesmo período do ano passado, quando o estado contabilizou 10.328 focos de queimadas.

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Decisões políticas

Para o ecólogo Welton Oda, em entrevista ao Portal AM1, o elevado número de queimadas no Amazonas não é um acaso climático, mas resultado direto de decisões políticas que fragilizam a legislação ambiental e incentivam práticas irregulares. Segundo ele, o contexto atual é reflexo de uma “clara escolha do grupo político do governador do Estado de ‘ir passando a boiada’ nas normas ambientais”.

De acordo com Oda, o alinhamento do governador Wilson Lima a essa política é perceptível tanto em discursos quanto nas ações governamentais.

O especialista relembra que, nos últimos anos, o Governo do Amazonas esteve envolvido em diversas denúncias relacionadas a crimes ambientais e grilagem.

“Recordemos ainda que, em diversas investigações, setores do Governo do Amazonas foram diretamente arrolados em ‘falcatruas’, como a grilagem de terras e o acobertamento de crimes ambientais como desmatamento e queimadas. Em 2021, na Operação Gleba, da Delegacia Especializada em Combate à Corrupção (DECCA), um grande esquema de venda de títulos de terra foi desbaratado, envolvendo desde servidores do alto escalão até funcionários do protocolo”, disse.

(Foto: Divulgação/Arquivo pessoal)

Oda também citou irregularidades mais recentes. Segundo ele, no fim de 2024, a Polícia Federal identificou graves crimes ambientais dentro do próprio órgão de proteção ambiental do Estado, o Instituto De Proteção Ambiental Do Amazonas (IPAAM).

“Wilson Lima foi obrigado a exonerar seu diretor-presidente, Juliano Valente. Os ‘criminosos’ no IPAAM lucraram R$ 1 bilhão vendendo créditos de carbono ilegalmente, fraudando licenças ambientais, suspendendo multas e autorizando desmatamento. Enquanto os desmatadores cometem enormes crimes no sul do Amazonas, o governo, ao invés de coibir, se alia aos criminosos. Esta tem sido a tônica da gestão ambiental no governo Wilson Lima”, criticou.

Impactos ecológicos imediatos e de longo prazo

Questionado sobre os efeitos da concentração de queimadas no fim do ano, Oda explica que os impactos vão muito além da destruição direta da vegetação.

“Enquanto no restante do mundo o grande vilão da crise climática é o petróleo, no Brasil os gases de efeito estufa vêm principalmente do desmatamento. A natureza levou milhares de anos para sincronizar ciclos de floração, frutificação e polinização. Hoje, esses ciclos estão profundamente prejudicados, reduzindo a floração e, consequentemente, a produção de frutos”, explica.

O especialista destaca que essa ruptura atinge toda a cadeia ecológica: “menos frutos significam menos alimento para populações humanas e animais, impactando a biodiversidade”. Além disso, ele alerta para os danos diretos da fumaça.

“A fumaça é extremamente nociva para todas as espécies. Afugenta animais importantes e causa doenças respiratórias em humanos. Crianças podem desenvolver alergias crônicas, e a mortalidade entre idosos aumenta consideravelmente”, afirmou.

O que o Estado deveria fazer?

Oda avalia que a redução dos focos de queimadas depende, antes de tudo, de uma mudança de postura governamental.

“É essencial ser eficiente na fiscalização, investir muito mais do que atualmente e dar condições para que os servidores trabalhem com segurança e dignidade”, defende.

Ele também aponta que o combate ao desmatamento e às queimadas deve ser feito em parceria com povos indígenas e populações tradicionais, fundamentais para a conservação da floresta.

Por fim, o ecólogo sugere que o Amazonas precisa abandonar o atual modelo desenvolvimentista.

“É preciso mudar essa lógica predatória, buscando outro modelo de desenvolvimento ou até mesmo o de decrescimento, reduzindo o extrativismo e criando mecanismos de distribuição de renda, que hoje é extremamente concentrada e desigual”, concluiu.

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