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7 de agosto de 2020
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Medo do vírus e perdas da quarentena acuam ribeirinhos no Amazonas

Depois de o sistema de saúde da capital, Manaus, colapsar em maio, os 61 municípios amazonenses concentram 60% dos 83 mil casos de Covid-19 do estado

Medo do vírus e perdas da quarentena acuam ribeirinhos no Amazonas
Foto: ANTONIO SCORZA /

Julielza Simões, 37, vê no silêncio que tomou conta de sua comunidade um sinal de preocupação. “A sensação é que estamos ainda mais esquecidos”, afirma.

A ribeirinha abre a porta de sua casa de madeira elevada a um metro do chão e só tem uma imensidão de rio a correr diante dos olhos. Eram nessas mesmas águas que, poucos meses antes, deslizavam as catraeiras, as pequenas canoas da Amazônia que levavam as crianças à escola rural e os adultos à cidade, onde vendiam seus produtos nas feiras livres.

Esse também era o caminho dos compradores de peixes e de insumos da floresta, como óleos naturais, coco, açaí e cupuaçu. Hoje tudo não passa de silêncio, relata a ribeirinha. Também nas partes mais remotas do Brasil, o novo coronavírus não apenas paralisou o movimento da vida. Ele aprofundou velhas desigualdades sociais.

Simões e as filhas Tainara, 2, e Ana Júlia, 7, receberam a Folha numa tarde quente de junho na pequena Boca do Jacaré, vilarejo de menos de dez casas às margens do rio Juruá, no Amazonas. Dois dias antes, a mulher tinha no balde onde guarda mantimentos apenas um pacote de café e outro de amido de milho para fazer mingau. Na geladeira, carne de anta e de pirarucu.

“Ôh, meu Deus, acabou o rancho [comida]. Só o senhor mesmo para nos ajudar”, disse ela ao percebeu que não teria como alimentar as filhas.

O marido de Simões, o catraeiro (piloto de canoa) Renato Ferreira de Lima, 27, também anda preocupado. Ele transportava crianças até uma escola rural, mas perdeu o emprego quando as aulas foram suspensas. “São R$ 800 a menos. Agora só resta esperar tudo isso passar”, diz.

Por alguns minutos, chegada de uma lancha carregada de cestas básicas para a comunidade encobriu o silêncio. Cerca de 700 kits deverão chegar a outras vilas nas margens do Juruá. E o projeto, que conta com o apoio do governo federal, empresas e ONGs, é ambicioso: quer levar mantimentos aos ribeirinhos do rio Solimões, quase 150 mil pessoas.

As entregas acompanhadas pela Folha estão sob a chancela do Instituto Missional, uma organização social com sede em Maringá (PR), que diz se orientar por preceitos bíblicos, mas busca se descolar das velhas práticas do movimento missionário evangélico.

Não se vê Bíblia ali. Os voluntários descarregam as cestas básicas nas comunidades e pesquisam a situação de cada família. “O critério é o da vulnerabilidade social. Não fazemos distinção de crença, gênero e raça”, diz Cassiano Luz, teólogo e diretor do instituto.

Quem define quais famílias serão beneficiadas, entretanto, são os pastores locais parceiros do projeto. “Eles conhecem a realidade e são orientados a ajudar quem mais precisa. As doações são registradas com fotos”, diz Luz.
O interior do Amazonas é uma das regiões do país mais afetadas na pandemia. Sem Unidades de Terapia Intensiva e com poucos médicos, está perdendo a batalha para o novo coronavírus. E, com isso, fica ainda mais isolada.

Depois de o sistema de saúde da capital, Manaus, colapsar em maio, os 61 municípios amazonenses concentram 60% dos 83 mil casos de Covid-19 do estado. Ali está a segunda maior taxa de óbitos da doença no país (72 casos para cada 100 mil habitantes), atrás somente da do Ceará.

Chegar até as comunidades do Juruá, um corredor hidroviário sinuoso de 3.000 km, exige tempo e disposição. Primeiro, é preciso viajar até a cidade que tem o mesmo nome do rio. De um avião monomotor, a partir de Manaus, o trajeto de 678 km dura pouco mais de 2 h. De barco, a viagem pode levar cinco dias.

Depois é pegar o barco no porto e percorrer o rio mais 1h até Boca do Jacaré. As casas da vila já são abastecidas com energia elétrica, mas estão numa região em que apenas 27% delas possuem banheiro adequado e água encanada.
Os casebres obrigam as famílias numerosas a fazer malabarismos na hora de dormir. Esta aí um problema crônico escancarado na pandemia: como cumprir o distanciamento social se falta espaço?

A cunhada de Julielza, a também ribeirinha Simone de Nazaré Ferreira, 52, tem 12 filhos e uma neta acabou de nascer. Não há armários para guardar as roupas da família, que ficam empilhadas sobre banquetas. “A gente dorme nas redes aqui bem perto um do outro”, diz, sobre o cômodo da casa que vale de sala, cozinha e quarto.

Com tantos improvisos, Simões é o anjo da guarda da vila. É ela quem faz os curativos e mantém o pequeno depósito de remédios da comunidade, por ser uma das poucas moradoras que sabe ler.
O vilarejo recebe a visita de uma agente de saúde apenas uma vez a cada três meses.

No último encontro, a profissional deixou só remédios para vermes. “Se a gente pegar esse coronavírus tem que entregar nas mãos de Deus porque aqui não tem recurso nenhum”, diz Simões.
Na falta de fármacos, os ribeirinhos improvisam na floresta.

Eles têm feito chás e xaropes com folhas de mastruz, jambu e pedaços de gengibre, alho e limão para potencializar o sistema respiratório.
Pesquisadores da UFAM (Universidade Federal do Amazonas) buscam saber se o mastruz tem mesmo a capacidade de mitigar a Covid-19, mas alertam: o consumo da planta crua pode intoxicar e causar complicações em mulheres grávidas.

Boca do Jacaré sobrevive, no momento, com o repasse emergencial de R$ 600 do governo federal. Ir à cidade para sacar a ajuda é a maior preocupação dos ribeirinhos. “Eles acabam se contaminando nesses deslocamentos”, diz a enfermeira Luzia Gomes Alves, secretária de Saúde de Juruá.

Ao menos 263 pessoas na cidade estavam contaminadas pelo coronavírus até quarta-feira (8). A prefeitura diz que o número também engloba as comunidades ribeirinhas. Numa cidade de quase 15 mil habitantes, onde metade da população vive às margens de rios, córregos e igarapés, três mortes por Covid-19 assustam. “Eu tenho medo que ela chegue aqui, contamine meus filhos e meu marido”, diz Raimunda Nonato, 28, moradora da Vila Bacuri, outra comunidade do Juruá.

“Quando vou na cidade, coloco a máscara antes de subir no barco”, completa Nonato.
Todo o Juruá padece, diz Manoel da Cunha, ribeirinho e único gestor do ICMBio (Instituto Chico Mendes) na região.
“O pessoal produzia e vendia ou no regatão [comerciante do rio] ou na sede do município. Agora, como não há feira, não há nada, o pessoal não tem condição de vender seu produto. Estão com a produção estragando nas comunidades e não tem para quem vender”, afirma Cunha.

A doença pegou também o único médico-cirurgião da cidade. A suspeita é que Emílio Chavez, 52, tenha sido contaminado pelo coronavírus enquanto trabalhava.
Assim que soube de seu diagnóstico, Chavez, que é peruano mas vive no Amazonas há muitos anos, ficou isolado em sua casa. Ele recebeu remédios e ervas buscados na cidade de Tefé em um voo da ONG Missão do Céu, mesma entidade que levou em seu avião a reportagem Folha para Juruá.

Mas o quadro de saúde do médico piorou, e ele precisou ser transferido no final do mês de junho por uma UTI aérea pública até um hospital de Manaus. Sem Chavez, os quase 15 mil juruaenses terão de contar com a sorte se precisarem passar por uma cirurgia emergencial.

Neste momento, a cidade dispõe de quatro clínicos recém-formados do programa federal Mais Médicos que chegaram à cidade no ano passado. Também fica sob a responsabilidade deles o funcionamento do hospital de campanha com 12 leitos montado às pressas para atender casos de Covid-19.

Um dos médicos do programa federal, que atua na linha de frente contra a Covid-19, é Lucas Durski, 28. Ele se formou na Bolívia e aguarda edital para revalidar seu diploma numa instituição brasileira.

Durski afirma que o hospital de campanha só tem condições de atender casos leves de Covid-19. “Casos graves ainda não conseguimos. Uma UTI, para funcionar, precisa de laboratórios, remédios e equipamentos.”

O médico diz que a prefeitura adquiriu um respirador e se organiza para colocar em operação o primeiro leito de UTI da história de Juruá, com 65 anos de fundação.

Os dois primeiros óbitos ocorreram no hospital de campanha. As pacientes, de 76 e 84 anos, foram mantidas vivas em aparelhos de ventilação não invasiva –não foram intubadas por falta de estrutura da unidade emergencial.
O terceiro a morrer foi o dono de um hotel local alugado pela prefeitura para colocar em quarentena moradores sem condições de se isolarem em casa. O empresário foi transferido no mesmo avião que Chavez, para Manaus, mas não resistiu.

Juruá tenta, com a pouca estrutura disponível, barrar o avanço da doença. Todos os passageiros que desembarcam no aeroporto têm a temperatural corporal medida e só saem ao apresentar testes negativos de Covid-19.
Para a enfermeira Luzia Gomes Alves, secretária de saúde em exercício, as mortes assustaram a pequena cidade que, afirma ela, “estava levando a pandemia na brincadeira”.

A reportagem encontrou a maior parte da população usando máscara, mas pecando em outra recomendação: o distanciamento social. Famílias inteiras se aglomeravam nas ruas e nas portas de casa. Uma delas, sem proteção, desossava uma vaca inteira na garagem de casa.

Para Renan Albuquerque, especialista da UFAM (Federal do Amazonas) em populações vulneráveis da Amazônia, a atenção básica de saúde precisa ser reforçada nas cidades isoladas da região.

“As gestões deveriam investir no médico da família. É esse profissional que poderia traçar os diagnósticos e ir testando e isolando, de casa em casa, os doentes. Só testamos –e mal– quem já está ruim. Não tem como nenhuma estratégia dar certo.”Mas ele pondera: “É necessário investimento, e a situação financeira das cidades é muito difícil”.

 

*Com informações Folhapress

Amazonas1 TV

Publicado por Amazonas1

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