(Foto: Reprodução /Redes Sociais)
Manaus (AM) – O deputado federal Nikolas Ferreira anunciou neste sábado (9) a nova marca de chinelos “Pé Direito”, apresentada como uma resposta direta à polêmica envolvendo a campanha publicitária da Havaianas lançada no fim de 2025.
Em vídeo divulgado nas redes sociais, o parlamentar afirmou ser embaixador da empresa e associou o consumo da marca à defesa de valores conservadores, religiosos e patrióticos.
“Hoje, uma das formas mais poderosas de defender aquilo em que acreditamos é escolher de quem a gente compra”, declarou o deputado. “Cada real que você gasta ou fortalece os seus valores ou financia quem quer te destruir”.
A iniciativa reforça um fenômeno cada vez mais presente no debate público brasileiro: a transformação do consumo em instrumento de disputa política e ideológica. Mais do que vender chinelos, a “Pé Direito” se apresenta como um movimento cultural alinhado à direita conservadora brasileira.
A origem da controvérsia remonta a dezembro do ano passado, quando a atriz Fernanda Torres estrelou uma campanha da Havaianas em que dizia: “Desculpe, mas não quero que você entre em 2026 com o pé direito”. A peça publicitária defendia a ideia de começar o novo ano “com os dois pés”, em tom simbólico e descontraído.
Apesar da linguagem publicitária comum ao mercado, políticos e influenciadores conservadores interpretaram a campanha como uma mensagem subliminar de cunho político. O senador Cleitinho Azevedo acusou a marca de promover “propaganda subliminar”, enquanto nomes da direita, como Flávio Bolsonaro e Nikolas Ferreira, passaram a incentivar boicotes à empresa.
Agora, meses depois, a reação deixa de ser apenas discursiva e ganha um braço comercial. O site da “Pé Direito” define a marca como uma resposta à campanha da Havaianas e utiliza termos como “linha de frente”, “transformação cultural” e “movimento” para construir sua identidade. A empresa, sediada em Vila Velha, afirma valorizar “família, fé, trabalho e amor à pátria” e sustenta que “toda compra é um posicionamento”.
A estratégia evidencia um modelo de negócio baseado na identidade política do consumidor. A lógica é semelhante à adotada por marcas e influenciadores nos Estados Unidos ligados ao conservadorismo, que transformaram o boicote cultural em oportunidade comercial. Nesse cenário, produtos deixam de ser apenas bens de consumo e passam a funcionar como símbolos de pertencimento ideológico.
O discurso de Nikolas Ferreira reforça essa lógica ao sugerir que escolhas de mercado podem “construir um Brasil melhor”. A narrativa aproxima o ato de comprar de uma militância política permanente. “Não é sobre chinelo, é sobre pequenas escolhas que vão mudar o nosso país”, afirmou o deputado.
A iniciativa levanta questionamentos sobre os limites entre posicionamento político e oportunismo comercial. Embora a marca se apresente como defensora de valores conservadores, o discurso mobiliza emoções políticas como ferramenta de mercado — um movimento que pode ser interpretado tanto como ativismo econômico quanto como monetização da polarização.
Outro aspecto relevante é a adoção de linguagem mobilizadora típica de campanhas políticas. Expressões como “linha de frente”, “movimento” e “transformação cultural” ajudam a construir senso de comunidade e urgência entre consumidores. O lançamento limitado, acompanhado de grupos exclusivos de WhatsApp e mensagens de escassez (“quem não está vai precisar torcer para sobrar algum par”), segue estratégias comuns do marketing digital contemporâneo.
A “Pé Direito” também informou a imprensa que pretende expandir sua atuação para roupas e outros produtos, sinalizando a intenção de consolidar uma marca associada à identidade conservadora brasileira. O lançamento oficial está previsto para o dia 14 de maio.
A movimentação ocorre em um contexto em que a polarização política ultrapassa o debate institucional e alcança empresas, artistas, publicidade e hábitos de consumo. Se antes campanhas publicitárias buscavam evitar divisões políticas explícitas, hoje parte do mercado parece apostar justamente no contrário: transformar identidade ideológica em ativo comercial.
Confira o vídeo:
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