(Foto: Arquivo Pessoal)
Manaus (AM) – No Brasil, trabalhar em mais de uma ocupação deixou de ser exceção e se tornou realidade para grande parte da população. Uma pesquisa realizada pela Hostinger, entre agosto e setembro de 2024, revelou que 60% dos brasileiros mantêm dois ou mais empregos.
O levantamento mostra que as motivações são variadas. A principal delas é a busca por segurança financeira, apontada por 31% dos entrevistados. Em seguida aparecem o complemento de renda (26%), a realização de um sonho pessoal (25%) e o foco em quitar dívidas (6%).
Para entender melhor como isso se reflete na rotina dos amazonenses, o Portal AM1 ouviu pessoas que enfrentam múltiplas jornadas e afirmam que, nos dias atuais, é praticamente impossível sobreviver com apenas um emprego. O acúmulo de funções surge como uma forma de manter as contas em dia, planejar o futuro e, em muitos casos, conquistar mais estabilidade.
Apesar de compartilharem dessa necessidade comum, cada trabalhador lida de forma diferente com o desafio.
A maquiadora e acadêmica de biomedicina, Ana Paula Menezes Matos, de 22 anos, divide-se entre duas áreas de atuação, a de maquiadora e de empreendedora no ramos de doces. Embora reconheça que a rotina seja exigente, valoriza a possibilidade de organizar seus próprios horários, o que garante tempo de qualidade com a família. Para ela, o esforço adicional é motivado pelo desejo de construir uma vida estruturada e oferecer segurança a quem ama.
“Trabalhar em duas áreas diferentes não é fácil, exige dedicação e organização, mas também me permite alcançar meus objetivos, ter mais estabilidade e construir uma vida com mais qualidade”, destacou Ana Paula.
(Foto: Arquivo pessoal de Ana Paula)
A consultora de viagens Laura Karina Brandão aposta na diversificação de rendas como estratégia para enfrentar o alto custo de vida. Além da agência de turismo, ela gerencia duas lojas virtuais e ainda trabalha como motorista de aplicativo. Sua rotina é moldada conforme as oportunidades mais rentáveis, mas, sempre que possível, reserva um ou dois dias de descanso. O objetivo é claro: conquistar melhorias na qualidade de vida no futuro.
“O meu custo de vida ultimamente está elevado demais, e eu não ia conseguir me manter apenas com um dos nichos com o qual trabalho”, declarou a consultora de viagens.
(Foto: Arquivo pessoal de Laura Karina)
Já o produtor de TV Wendel Valente reforça que o salário principal não cobre nem mesmo as despesas básicas, o que o levou a buscar uma segunda fonte de renda como motorista de aplicativo. Ele encara essa fase como um “sacrifício momentâneo”, essencial para custear os estudos e investir em uma carreira sólida na área de comunicação. Embora precise abrir mão de parte do convívio familiar, acredita que os frutos desse esforço virão a médio e longo prazo.
“Atualmente me manter com o salário apenas do meu primeiro emprego é quase que impossível, pois existem gastos fixos que somam quase que o total do valor que eu recebo nesse salário”, afirmou Wendel.
(Foto: Arquivo pessoal de Wendel Valente)
Os depoimentos confirmam o que os números revelam: para muitos brasileiros, a dupla ou até tripla jornada de trabalho já não é apenas uma escolha, mas sim uma necessidade.
Custo de vida pesa, aponta especialista
O consultor financeiro Alon Hans avalia que o peso do custo de vida explica, em grande parte, por que um único emprego já não é suficiente para muitos brasileiros. Em Manaus, por exemplo, a cesta básica registrou em agosto o valor de R$ 657,22. Apesar da queda recente nos preços de alguns itens e até da redução na tarifa de energia elétrica, as despesas essenciais continuam elevadas, enquanto o salário necessário para cobrir o sustento de uma família segue muito acima do mínimo vigente. Na prática, mesmo com pequenas melhoras, a pressão sobre o orçamento permanece, obrigando trabalhadores a buscar rendas adicionais.
Outro fator determinante, segundo ele, é o endividamento. O Brasil atingiu um recorde em agosto de 2025, com quase um terço das famílias em atraso nas contas e mais de três quartos comprometidos com algum tipo de dívida, como cartões, carnês e financiamentos.
Para o consultor, esse cenário revela um descompasso entre renda e compromissos financeiros, que leva muitas famílias a ampliar jornadas de trabalho para evitar o acúmulo de juros e a perda do controle sobre o orçamento.
Alon Hans ressalta ainda que a motivação para multiplicar empregos varia: há quem o faça por pura necessidade de sobrevivência, cobrindo gastos básicos como aluguel e alimentação; e há quem busque regularizar dívidas, recuperar a capacidade de poupança ou renegociar compromissos.
Mesmo com certo avanço no rendimento médio nacional entre 2024 e 2025, a informalidade e a oscilação de ganhos em várias regiões tornam a renda instável. Para o consultor, essa combinação de custos elevados, dívidas caras e falta de estabilidade econômica cria um cenário em que ter dois ou mais trabalhos deixa de ser opção e se transforma em necessidade.
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