(Foto: Vaclavhroch/Depositphotos)
Por Fabrício Paixão*
Existe algo profundamente irônico no fato de que, justamente quando finalmente conseguimos aquelas férias tão sonhadas, nossa mente decide fazer uma greve não autorizada. É como se ela dissesse: “Ah, agora que você tem tempo livre, vou te mostrar todas as preocupações que eu estava guardando para você.” O antropólogo francês David Le Breton, em sua obra sobre o “desaparecer de si”, nos oferece pistas valiosas para entender esse fenômeno e, mais importante, para transformar nossas férias em um verdadeiro refúgio mental.
Le Breton fala sobre o “branco”, esse estado de ausência de si que buscamos quando a pressão da vida cotidiana se torna insuportável. Nas férias, paradoxalmente, muitos de nós experimentamos justamente o oposto: uma hipervigilância mental que nos impede de relaxar. É como se nossa mente, acostumada ao ritmo frenético do trabalho, não soubesse mais como funcionar no modo “descanso”.
O primeiro cuidado essencial é aceitar o tempo de transição. Nosso cérebro não é um interruptor que podemos simplesmente desligar. Ele precisa de alguns dias para entender que realmente pode baixar a guarda. Durante esse período, é normal sentir ansiedade, inquietação ou até mesmo uma estranha sensação de vazio. Le Breton descreve isso como a dificuldade de “abdicar de si” quando estamos acostumados a estar sempre em alerta.
A segunda dica é criar rituais de desconexão. Não apenas do celular, embora isso seja aconselhável, mas de boa parte da identidade profissional que carregamos. Suspender alguns vínculos sociais por algum tempo. Isso pode significar vestir roupas diferentes, mudar a rotina de sono, ou simplesmente permitir-se não ter uma agenda estruturada.
O terceiro ponto é abraçar o que Le Breton chama de “exercício lúdico de desaparecimento”. Isso não significa fugir da realidade, mas sim permitir-se momentos de verdadeira ausência mental. Pode ser através de caminhadas sem destino, leituras que não tenham nada a ver com trabalho, ou simplesmente observar o movimento das nuvens. O objetivo é experimentar o que o autor descreve como “uma reapropriação feliz da existência”.
A quarta estratégia é aprender a aceitar a improdutividade. A gente vive em um mundo que nos ensina que precisamos estar sempre fazendo algo, sendo úteis o tempo todo. Mas, nas férias, talvez a coisa mais útil que a gente possa fazer seja justamente descansar, sem culpa. Descansar de verdade também exige prática, não é só “não fazer nada”, é permitir que a mente desacelere. Assim como o corpo precisa de treino para se fortalecer, nossa capacidade de relaxar também pode (e deve) ser exercitada. Isso pode incluir respiração profunda, meditação leve ou até o que o antropólogo David Le Breton chama de “momentos de sono” conscientes, aqueles cochilos curtos que ajudam a renovar a mente e o corpo.
Talvez o grande insight seja perceber que, na nossa sociedade hiperconectada, a capacidade de descansar não é um luxo, mas uma necessidade. Durante as férias, não estamos apenas recuperando o corpo; estamos oferecendo à mente um tempo precioso para se reorganizar, digerir experiências acumuladas e se preparar, com mais leveza, para o que vem pela frente.
Lembre-se: suas férias não precisam ser produtivas, nem render fotos incríveis ou histórias transformadoras. Elas só precisam ser suas. E se, ao final, você sentir que “não fez nada”, parabéns, provavelmente você fez exatamente o que mais precisava.
(*) Advogado, psicólogo e filósofo, mestre em Sociedade e Cultura, e doutorando em Ciências Ambientais.





