(Foto: Divulgação/Asprom/Sindical)
Manaus (AM) – Neste 15 de outubro, Dia do Professor, a data – que deveria ser de celebração e reconhecimento – se transforma em um momento de alerta sobre a situação crítica enfrentada pelos profissionais da educação no Amazonas.
Professores do estado vivem uma rotina marcada pela desvalorização, excesso de trabalho e condições precárias, fatores que têm contribuído para o adoecimento de muitos docentes. O alerta é do Sindicato de Professores e Pedagogos de Manaus (Asprom/Sindical).
Em entrevista ao Portal AM1, Lambert Mello, coordenador jurídico da Asprom, disse que a data – que deveria ser de alegria e comemoração – é infelizmente de tristeza, de lamento e, principalmente, de protesto e reivindicação. Ele reforça que o sindicato aproveita o dia para denunciar os desafios enfrentados diariamente pelos professores nas escolas públicas.
Desafios e adoecimento
Lambert afirma que a realidade das escolas públicas no Amazonas é dura. Professores enfrentam jornadas exaustivas, muitas vezes em três turnos de trabalho, sem apoio da gestão, sem materiais adequados e sem estrutura mínima para dar aulas de qualidade. Essa sobrecarga tem impactos diretos na saúde: afastamentos por atestados médicos são frequentes.
“Nós temos uma grande quantidade de professores adoecidos, justamente por todos esses desgastes de ter que trabalhar em três turnos de trabalho, sem apoio nenhum, sem condições, sem estrutura, e isso faz com que a gente adoeça e tenha que estar se afastando das escolas com atestados médicos e outros tipos de situações. É situação muito precária e infelizmente nós não temos motivo nenhum para comemorar”, frisa.
Além do desgaste físico e emocional, conforme o professor e sindicalistas, os docentes lidam com problemas estruturais recorrentes: violência de alunos e até de pais, falta de materiais didáticos e equipamentos, e principalmente salários que não garantem dignidade.
“O professor, por ganhar um salário miserável, acaba não tendo tempo para viver. Ele vive para trabalhar e, com isso, também não consegue mais se qualificar, porque não consegue mais ler, estudar ou se atualizar nos avanços da ciência, da sua disciplina”, lamenta.
Reajustes salariais atrasados e defasagem
A situação financeira também é grave. De acordo com coordenador jurídico do sindicato, o governo estadual ainda não pagou as datas-bases de 2023 e 2025, além de parcelas anteriores incompletas. Segundo Mello, a defasagem salarial chega a 13,22%, representando perdas de cerca de R$ 400 para quem trabalha 20 horas semanais e quase R$ 800 para quem cumpre 40 horas. Além disso, progressões por tempo de serviço e por titularidade estão atrasadas há mais de cinco anos.
Ameaças da reforma da Previdência
Além dos problemas estruturais e salariais, professores da Prefeitura de Manaus enfrentam a ameaça da reforma da Previdência, que pode dificultar aposentadorias e reduzir benefícios futuros. Mello alerta que, se aprovada, a reforma poderá fazer com que muitos professores “morram trabalhando” ou se aposentem recebendo até 30% a menos do que ganham atualmente.
“São problemas gravíssimos e, se fossem resolvidos através de políticas públicas decentes dos governantes, teríamos condições bem mais favoráveis de trabalho e não estaríamos hoje em situação de total adoecimento”, reforça.
Vivência
Quem enfrenta de perto os desafios da educação pública no Amazonas é a professora do ensino fundamental Maria Aurivania Oliveira, de 48 anos. Viúva há cinco anos, ela precisa conciliar dois horários de trabalho para conseguir uma renda mínima, além de vender cosméticos para complementar o orçamento familiar.
“Eu trabalho de manhã em uma escola e à tarde em outra, e ainda faço vendas de cosméticos para conseguir pagar minhas contas. É cansativo, mas não tenho outra opção. O professor é muito desvalorizado, com salário baixo, e a categoria vem sofrendo ataques diretos. Situações como a questão da reforma da Previdência nos deixam tristes e revoltados. Não sabemos se estaremos amparados quando nos aposentarmos, isso se conseguirmos”, disse.
Para ela, o problema vai além do salário e da carga horária. É também uma questão de reconhecimento e respeito pelo trabalho do professor.
“A gente ama o que faz, mas precisa de condições para trabalhar com dignidade. Não adianta querer ensinar se estamos exaustos, sem tempo para preparar as aulas ou nos qualificar. A educação só vai melhorar quando o professor for realmente valorizado”, afirma.
Além disso, Maria Aurivania critica a postura de políticos locais, principalmente vereadores que são favoráveis à reforma.
“Ano que vem é ano de eleição. A maioria desses vereadores já é pré-candidato. Mas, espero, que aqueles que votarem a favor da reforma, que prejudica os servidores da educação, serão lembrados pela história”, completa.
Desvalorização
O sociólogo e professor da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), Luiz Antônio, reforça que a educação pública no Amazonas enfrenta graves problemas, principalmente nas condições de trabalho e na falta de interesse da sociedade. Segundo ele, a população sofre as consequências de uma educação debilitada, mas não percebe a necessidade de agir para enfrentar esses problemas.
O sociólogo ressalta que, muitas vezes, parte dos próprios professores contribui para perpetuar o problema, votando em candidatos que não têm compromisso com a educação.
“Parte importante dos professores acaba votando sistematicamente em candidaturas que corrompem e conspiram contra a própria escola e contra a própria educação. Isso não é de hoje. Em São Paulo, por exemplo, Paulo Maluf, que era inimigo da escola pública e do serviço público, tinha muitos votos entre professores. Outros nomes, como o Tarcísio de Freitas, também receberam milhares de votos de colegas professores. No Amazonas não é diferente. Professores sofrem ataques cruéis e, quando abrem as urnas, percebem que contribuem para eleger quem não tem compromisso com a educação”, pontua.
O professor destaca que é fundamental ter uma política de cargos e salários que assegure que a progressão dos professores seja automática. Ele também frisa na questão que é essencial garantir um salário decente para que o professor permaneça em sua carga horária integral na mesma escola, tendo tempo para estudar, preparar aulas e se qualificar.
Críticas a políticos
O professor critica a postura de políticos em relação ao dinheiro público. No Brasil, segundo ele, todo parlamentar, ao assumir, quer “meter a mão no dinheiro público”.
“Um exemplo recente é a votação da PEC que pretendia tributar grandes empresas e bilionários: os nossos deputados federais se posicionaram contra, e em vez de cobrar de quem deve, querem cortar recursos da saúde e da educação”, finaliza.
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