Manaus (AM) – Durante tribuna popular realizada, na manhã de quarta-feira (8), na Câmara Municipal de Manaus (CMM), a vereadora Professora Jacqueline (União Brasil) discursou sobre a importância das Reservas Particulares do Patrimônio Natural (RPPN) e destacou a necessidade de corresponsabilidade na preservação ambiental. Entretanto, parte de sua fala sobre o investimento na gestão dos resíduos sólidos gerou controvérsias, ao afirmar que “dinheiro que vai para o lixo não tem retorno”.
Declaração polêmica expõe visão ultrapassada sobre resíduos
Ao afirmar que “o dinheiro que vai para o lixo é gasto”, a vereadora expressou uma visão considerada reducionista e ultrapassada por especialistas em sustentabilidade. A declaração ignora o papel estratégico da gestão de resíduos sólidos como política pública essencial à saúde, à economia circular e ao meio ambiente.
Em seu discurso, Jacqueline ressaltou que a responsabilidade pela limpeza urbana é compartilhada entre poder público e população, mas contradisse essa ideia ao classificar o investimento em saneamento e coleta de lixo como despesa.
“O dinheiro que vai para o lixo não tem retorno; o dinheiro que vai para a educação é investimento, o dinheiro que vai para o lixo é gasto”, afirmou a vereadora.
Especialistas contestam: lixo é investimento, não despesa
A fala foi criticada por ambientalistas e estudiosos da área. A ambientalista Fabiana Rocha destacou ao Portal AM1 que a visão da vereadora desconsidera o potencial econômico e social do lixo tratado de forma adequada.
“Tecnicamente, o lixo não é um gasto improdutivo. Ele é vetor de valor econômico e social quando o poder público estrutura a cadeia de gestão de resíduos”, afirmou Fabiana.
Segundo a ambientalista, há um equívoco conceitual em tratar os resíduos como um fim, e não como um recurso. De acordo com ela, dentro da lógica da gestão ambiental, os resíduos sólidos devem ser vistos como insumos secundários que, quando corretamente tratados, podem gerar emprego, renda e benefícios econômicos e sociais.
“O erro conceitual do que foi falado está em tratar o resíduo como fim, e não como recurso.
No que avaliamos como processo da gestão ambiental, resíduos sólidos são insumos secundários que, quando são corretamente tratados, geram empregos e renda”, declarou Fabiana.
Sobre os investimentos adequados, a ambientalista explicou que, um sistema eficiente de gestão de resíduos que envolva coleta seletiva, reciclagem, compostagem e destinação final apropriada, traz múltiplos retornos mensuráveis. Entre eles, estão os ganhos econômicos, como a movimentação de cooperativas, microempresas e indústrias a partir de cada tonelada reciclada, podendo gerar até R$ 8 bilhões por ano no Brasil, segundo dados do Instituto de Pesquisas Ecológicas (Ipea).
Além disso, Fabiana destacou a redução dos custos públicos, já que a separação e o reaproveitamento diminuem o volume de lixo encaminhado a aterros, aumentando sua vida útil. Também apontou a economia de matérias-primas, com a possibilidade de reciclar materiais como alumínio, vidro, plástico e papel, reduzindo significativamente o consumo de recursos naturais.
Fabiana Rocha destacou que, no campo social, a Política Nacional de Resíduos Sólidos (Lei 12.305/2010) permite a inclusão produtiva dos catadores, reconhecendo-os como agentes econômicos que, ao serem integrados à coleta seletiva, deixam a informalidade e passam a gerar riqueza formalizada.
Para os descarte irregular, Fabiana alertou que a prática contamina, solos e águas, aumenta doenças e eleva custos públicos, enquanto a gestão adequada reduz gastos hospitalares e melhora a qualidade de vida.
“O descarte irregular de resíduos contamina solos, águas e aumenta vetores de doenças. O investimento correto em gestão de resíduos pode auxiliar a reduzir custos hospitalares e melhora a qualidade de vida urbana”, alertou.
Segundo a ambientalista, resíduos descartados no meio ambiente perdem valor econômico e geram passivos, como poluição, degradação ambiental e prejuízos ao turismo e à imagem urbana. Já os resíduos inseridos em sistemas de gestão promovem economia circular e retornos contínuos.
Fabiana concluiu lamentando a falta de investimentos públicos e o baixo engajamento da população. E destaca que não é possível separar educação e gestão de resíduos se tratando de sustentabilidade, que são partes independentes do mesmo sistema
“Sem educação, não há gestão eficiente do lixo; sem gestão do lixo, não há educação ambiental que se sustente na prática”, conclui Fabiana.
Professor aponta retrocesso em políticas públicas
O professor Welton Oda, da Universidade Federal do Amazonas (UFAM), também criticou a atual situação da limpeza pública em Manaus e a ausência de políticas eficazes para resíduos sólidos.
Ressaltou que, embora a educação ambiental seja importante, ela não é suficiente sem fiscalização. Welton apontou problemas como o descarte irregular de lixo, a coleta seletiva limitada e o acúmulo de resíduos não recicláveis pela cidade.
“A limpeza de uma cidade reflete o grau de civilidade do seu povo. Manaus vive um grande retrocesso. Falta fiscalização, coleta seletiva e logística reversa”, afirmou.
Para Welton é necessário que as indústrias adotem a logística reversa e que políticas públicas mais eficazes sejam implementadas para garantir o destino correto dos resíduos. Também destacou o papel dos catadores, mas lembrou que a reciclagem precisa ir além do que tem valor econômico para manter a cidade limpa.
Diante da situação, o professor fez críticas aos governos de Michel Temer (MDB) e Jair Bolsonaro (PL) por não implementarem um plano voltado para a causa dos resíduos, que somente agora com o atual governo está tendo uma atenção ainda que tímida.
“Teme e Bolsonaro foram atrasados porque o Plano Nacional de Resíduos Sólidos foi abandonado. E agora foi retornado pelo governo Lula, mas em uma velocidade ainda que é menor que o necessário”, declarou.
Nos níveis estadual e municipal, o professor afirma que o problema é maior, que o atraso na gestão dos resíduos sólidos reflete na ineficiência e na ausência de políticas efetivas na área e dá como exemplo a falta de reciclagem de vidro na cidade de Manaus.
“Nós não temos, por exemplo, reciclagem de vidro em Manaus. Então, imagina 2 milhões de habitantes e a quantidade de vidro que é gerada por ano”, afirmou.
Por fim, Welton Oda concluiu ao Portal AM1 que não há muitas indústrias de reciclagem no geral, e que o investimento público é essencial,
“Sem política pública e investimento, não há avanço. O país está atrasado na execução do Plano Nacional de Resíduos Sólidos”, concluiu o professor.
O lixo como parte da economia circular
Estudos acadêmicos reforçam que a gestão moderna de resíduos deve priorizar a redução, reutilização e reaproveitamento de materiais. O pesquisador Jacques Demajorovic, em artigo publicado na Revista de Administração de Empresas (RAE) em 1995, já defendia que “antes de reduzir a produção de bens, é prioritário que eles não sejam sequer gerados; antes de reciclá-los, é prioritário reutilizá-los”.
Essas práticas, hoje ampliadas pela economia circular, têm como meta minimizar a degradação ambiental e otimizar o uso de recursos naturais.
Contradições e agradecimentos
Apesar das declarações polêmicas, a vereadora elogiou ações da Prefeitura de Manaus, como o serviço de recolhimento de grandes volumes via WhatsApp, e agradeceu a presença dos colegas vereadores e especialistas que participaram da tribuna.
“Essa temática não pode ser esquecida. Precisamos incentivar outras pessoas a criar suas RPPNs e despertar o sentimento de proteger a natureza”, afirmou Jacqueline.
A polêmica em torno da fala da vereadora evidencia a falta de compreensão, ainda comum entre representantes públicos, sobre o papel estratégico da gestão de resíduos sólidos. Investir em lixo é investir em saúde, educação e qualidade de vida. Tratar o lixo como gasto é manter uma lógica de atraso e ignorar o potencial transformador de uma política ambiental moderna e sustentável.
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