(Foto: Divulgação/Freepik)
Manaus (AM) – No Brasil, o sonho de ter o próprio negócio segue vivo, mas manter as portas abertas continua sendo um desafio para milhares de empreendedores. Dados do Relatório do Ministério do Empreendedorismo, da Microempresa e da Empresa de
Pequeno Porte mostram que, apenas no primeiro quadrimestre de 2025, foram abertas 1.815.912 empresas, um crescimento de 24,4% em relação ao mesmo período de 2024. No entanto, 973.330 empresas fecharam no mesmo intervalo, uma queda de 13,4% em comparação ao ano passado, mas ainda um número expressivo que revela a fragilidade do setor.

A realidade por trás desses números é vivida por pessoas como Eliane Feitosa, que contou ao Portal AM1 que atuou por quase uma década no segmento da beleza em Manaus. Manicure, esteticista e cabeleireira, ela iniciou sua carreira em salões terceirizados, juntando cada real para abrir o próprio espaço.
“Conforme eu ia trabalhando, comprava meu material, juntava dinheiro, e quando consegui o necessário, aluguei um ponto e montei meu salão. No começo é difícil fidelizar clientes, mas eu mesma fazia promoções, combos e descontos para conquistar meu público”, relembra Eliane.
A trajetória de crescimento, porém, foi interrompida pela pandemia de Covid-19. Com as restrições de funcionamento, ela viu as contas se acumularem, aluguel, água, luz e manutenção de equipamentos, enquanto era proibida de atender clientes, mesmo com horário marcado.
“Passei três meses pagando aluguel com o salão fechado. Quando tudo parecia melhorar, a proprietária ainda quis aumentar o valor do ponto. Eu não tinha como manter as contas básicas. Tive que vender equipamentos e, infelizmente, desistir do ramo da beleza”, lamenta.
Eliane conta que começou comprando móveis e equipamentos de segunda mão e, aos poucos, modernizou seu espaço. Mas sem apoio efetivo para microempreendedores, o sonho de continuar ficou inviável.

Eliane Feitosa, em seu salão de beleza (Foto: Divulgação/Arquivo pessoal)
As dificuldades não ficaram restritas apenas a empreendimentos físicos. A jornalista Ramillys Batista também sentiu o peso de empreender em um cenário instável. Para complementar a renda, ela criou uma lojinha virtual no Instagram para vender acessórios de celular.
“No começo não foi difícil, mas também não foi fácil. Consegui fornecedores, mas chegou um momento em que não tinha mais como repor os produtos. Isso contribuiu para que eu parasse. Se tivesse condições, eu teria continuado, porque foi uma experiência muito boa”, afirma Ramillys.
Mesmo sem ter dado continuidade, ela avalia que a vivência trouxe aprendizado.
“Eu já tinha trabalhado com vendas, mas administrar meu próprio negócio me deu uma nova visão de empreendedorismo”, destacou.
Cresce o número de MEIs e novas modalidades
Apesar dos obstáculos, a formalização de pequenos negócios segue em alta. Do total de empresas abertas no primeiro quadrimestre de 2025, 1.377.481 são Microempreendedores Individuais (MEIs), um aumento de 43,2% em relação ao último quadrimestre de 2024 e de 29% em comparação ao mesmo período do ano passado.
Outra alternativa que vem ganhando espaço é o Inova Simples, regime simplificado para formalização de empreendedores inovadores. Desde sua criação, em 2019, já foram abertas 8.776 Empresas Simples de Inovação, das quais 6.557 permanecem ativas até abril de 2025.
Desemprego e desafios econômicos
Mesmo com avanços na abertura de negócios, o cenário de trabalho ainda é desafiador. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Brasil registrou 6,3 milhões de desempregados no segundo trimestre de 2025, com taxa de desocupação de 5,8%. A taxa de subutilização da força de trabalho, que inclui pessoas que trabalham menos do que poderiam ou desistiram de procurar emprego, atingiu 14,4%, enquanto 2,8 milhões de brasileiros estão em situação de desalento.

Para quem tenta empreender, esses números refletem um mercado em que abrir um negócio pode ser mais viável do que encontrar emprego, mas mantê-lo é uma luta diária.
“Primeiro você tem que guardar dinheiro, ter um fundo de caixa para investir e se manter, mas pagar aluguel, água e luz sem apoio é muito difícil”, resume Eliane.
As histórias de Eliane e Ramillys mostram que, por trás das estatísticas, estão brasileiros que arriscam, inovam e persistem, mesmo quando o mercado impõe barreiras.
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