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Eterno problema: paradas de ônibus continuam abandonadas em Manaus

Manaus conta com mais de três mil paradas de ônibus, segundo o IMMU; a realidade, entretanto, está bem longe do que é considerado 'bom'
• Publicado em 03 de maio de 2021 – 08:00
paradas de ônibus
Em Manaus, alguns lugares tem sofás no lugar de bancos de concreto. Foto: Márcio Silva/Amazonas1

MANAUS, AM – Sem telhas, sem cobertura, sem vidros, sem nada. Assim são algumas paradas de ônibus na capital amazonense. Nos mais diversos padrões arquitetônicos, alguns já estão deteriorados, e não oferecem mais a mesma proteção que um dia ofereceram.

Ao todo, Manaus conta com 3.535 pontos de ônibus, que estão espalhados por todas as zonas. Em uma rápida volta pelas principais avenidas da cidade, é possível encontrar pelo menos três padrões de abrigos.

Alguns são de um modelo mais antigo, com telhas de cerâmica. Outros, com as paredes de vidro, estilo “caixa”. O terceiro modelo, mais recente, é o com teto de “casca-de-ovo”. Finalmente, um quarto modelo que pode ser encontrado é o do Complexo Turístico da Ponta Negra, diferente de todos os encontrados na cidade.

Leia mais: Reforma de 16 paradas de ônibus vai custar R$ 6,2 milhões aos cofres de Manaus

Por que tantas paradas de ônibus?

De acordo com o Instituto Municipal de Mobilidade Urbana (IMMU), o motivo de tantos modelos diferentes tem a ver com gestão. Segundo a assessoria de comunicação da pasta, em gestões passadas, o órgão fazia parte da estrutura de outras secretarias municipais. Por isso, não há um modelo padrão.

Outro ponto é que a construção dos abrigos e pontos de ônibus, em alguns casos, são propostos por outras secretarias. Esse modelo é analisado pelo Instituto para se adequar à localidade. Ainda assim, o IMMU é o responsável pela avaliação, projetos e implantação dos abrigos.

Ainda segundo a assessoria de comunicação, o Setor de Engenharia do IMMU tem organizado cronogramas para verificar projetos de harmonização dos abrigos. Com a pandemia, no entanto, o andamento ficou inviabilizado.

“A implantação de novos abrigos em ponto de parada depende de análise técnica. Entre os pontos analisados, estão a disponibilidade de espaço na calçada, deixar faixa livre para circulação, anuência de proprietários dos lotes, existência de impedimento físico, entre outros fatores. Nesse sentido, é muito difícil que seja possível instalar abrigos 100% dos pontos de parada da cidade. As placas de sinalização acabam sendo o elemento de comunicação visual destinado à identificação da parada de ônibus, quando houver impedimento para instalação de abrigos”, informou a pasta.

Paradas com teto casca-de-ovo foram construídas há menos de 10 anos e persistem. Foto: Márcio Silva/Amazonas1

Problema

Em um dos pontos de ônibus localizados na avenida Constantino Nery, o telhado já está deteriorado. As vigas de ferro que o sustentam já estão enferrujadas, e até mesmo a pintura está descascada. Esse, em específico, fica próximo ao Ginásio Renné Monteiro, na Chapada, zona Centro-Sul. A mesma realidade se aplica a muitos outros em toda a capital.

Ainda há locais que só têm a placa de ponto de ônibus, sem qualquer abrigo ou teto para proteger a população. Infelizmente, são estes os que proliferam pela cidade, em todas as zonas possíveis. Nos dias de chuva ou sol forte, quem sofre é a população.

Na avenida Brasil, fronteira entre os bairros Presidente Vargas e São Jorge, outro ponto de ônibus leva só uma árvore como referência. A placa indicativa está ali, mas um abrigo, de fato, não existe. À noite, não há qualquer indício de iluminação pública. Ou seja, prato cheio para a insegurança pública, segundo o videomaker Hitalo Kleto. Ele mora no Tarumã, zona Oeste da capital, e trabalha no São Jorge, a mais de 10 quilômetros de distância.

“Quando eu chego aqui, tenho que descer rápido. Já no fim da tarde, fico com medo de ficar aqui por muito tempo. Infelizmente, é o que tem. Às vezes, o ônibus nem passa porque não vê a parada à noite. A gente leva na esportiva, mas é uma situação complicada”, afirma.

Não tem o básico…

De acordo com a professora Kattylinne Barbosa, da Universidade do Estado do Amazonas (UEA), boa parte dos pontos de ônibus não atende requisitos básicos para operarem. Ela salienta que existem vários fatores que se devem levar em conta na construção dos abrigos.

“Quando a gente pensa em paradas de ônibus, devemos levar em conta principalmente se esses locais atendem as necessidades mínimas da população. Essas necessidades são a proteção contra intempéries, conforto e o principal: a acessibilidade. E olhando no âmbito de Manaus, as paradas não atendem tais requisitos de adequabilidade para a população”, aponta.

Parada de ônibus “pra inglês ver”

No Complexo Turístico da Ponta Negra, os pontos de ônibus diferem – e muito – da realidade encontrada em toda a cidade. Mas para construir a parada de “primeiro mundo”, a Prefeitura de Manaus gastou R$ 207 mil. Na ocasião, o então prefeito Arthur Neto (PSDB), em entrevista a veículos de imprensa da capital, chegou a dizer que “a frescura aqui é enorme! E frescura custa dinheiro”.

O ponto de ônibus do complexo, chamado Estação 1, tem diversas benesses que não são encontradas nos outros pontos da cidade. Conexão Wi-Fi, som ambiente, pedras portuguesas, climatização e até uma estrutura e iluminação especial. A justificativa era que o Complexo era parte de um dos principais cartões postais da cidade.

Ponto de ônibus no Alvorada só tem a placa indicativa. Foto: Márcio Silva/Amazonas1

Na Justiça

O abrigo, entretanto, foi parar na Justiça. Em março de 2020, o Ministério Público do Amazonas instaurou um Inquérito Civil para investigar um suposto superfaturamento na construção da estação. O processo corre na 70ª Promotoria de Justiça Especializada na Defesa e Proteção do Patrimônio Público.

Mas esse não foi o único gasto considerado exorbitante. Em setembro de 2020, Arthur Neto autorizou um gasto de R$ 6,2 milhões para reformar 16 paradas de ônibus na capital. O valor serviria para reformar estações de embarque e desembarque nas avenidas Constantino Nery, Max Teixeira e Torquato Tapajós. Estas estações servem, atualmente, ao sistema Bus Rapid System (BRS), da Prefeitura de Manaus.

Kattylinne Barbosa aponta que, entre os modelos já existentes, o com menos problemas seria o das paradas com cobertura de barro. “Elas possuem uma área de cobertura maior. Além disso, com a inclinação das telhas em duas águas, a proteção contra chuva e raios solares é maior, além de os assentos serem maiores”, completa.

É o tipo certo?

Com tantos tipos de paradas de ônibus pela cidade, será mesmo que algum deles é o certo e mais adequado à realidade da cidade? Em 2017, um aluno do curso de Engenharia Civil da Universidade do Estado do Amazonas (UEA) apresentou um projeto de ponto de ônibus sustentável em um congresso da área. O projeto do acadêmico Izandro Guedes custaria, inclusive, bem menos do que o valor de uma parada de ônibus, à época.

O projeto prevê a construção de um ponto de ônibus sustentável, levando em conta a acessibilidade, o conforto e as intempéries. Ela teria estrutura metálica e um sistema fotovoltaico, com seis painéis solares, para suprir seu consumo e gerar energia excedente, além de ter iluminação em LED e tomada para carregar celular. O abrigo ainda teria telhado verde, para reduzir a temperatura e dar um melhor escoamento à água. Em conclusão, o custo total: R$ 29.707,61.

Custo-benefício

Kattylinne Barbosa, que foi orientadora de Izandro, diz que o projeto traria um custo benefício muito melhor do que o observado atualmente. Segundo ela, o projeto traria um excelente custo benefício, além de contemplar a acessibilidade para deficientes.

“Na área de acessibilidade, um ponto de ônibus como esse ainda teria piso local e piso tátil. Só com energia elétrica, se utilizados os painéis fotovoltaicos, teríamos uma economia de R$ 150 mil. É verdade que, de 2017 pra [sic] cá, muitas coisas ficaram mais caras, mas se colocarmos na ponta do lápis, os pontos de ônibus sustentáveis teriam um custo-benefício muito melhor”, ressalta.

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