Agência Folhapress
Pouco mais de três meses depois da assinatura do acordo que pôs fim à guerra entre Armênia e Azerbaijão, o primeiro-ministro armênio, Nikol Pashinian, protagoniza uma crise política em seu país. De um lado, o Exército somou-se às vozes que exigem a renúncia do premiê, em parte devido à sua conduta durante o conflito. De outro, o próprio Pashinian alega estar sendo vítima de uma tentativa de golpe de Estado orquestrado pelos militares.
“A gestão ineficaz das autoridades atuais e os graves erros na política externa colocaram o país à beira do colapso”, afirmou o Exército, por meio de um comunicado nesta quinta.
Os “graves erros” a que se referem os militares seriam a gestão considerada desastrosa do conflito que durou seis semanas com o vizinho Azerbaijão. O centro do embate foi o enclave de Nagorno-Karabakh, uma região internacionalmente reconhecida como parte do território azeri, mas habitada e controlada por grupos étnicos armênios.
Segundo levantamentos feitos pela Rússia, que mediou o acordo de paz entre os dois países, a guerra deixou mais de 5.000 mortes, mas os números ainda são imprecisos.
Apesar de prever que os armênios sigam controlando a maior parte de Nagorno-Karabakh, o cessar-fogo foi encarado por opositores do governo de Pashinian como uma derrota para o país e uma humilhação de âmbito nacional por permitir um ganho territorial significativo para o Azerbaijão, principalmente de cidades simbólicas como Shusha, conquistadas durante conflitos semelhantes nos anos 1990. Considerado por seus adversários um traidor, o premiê armênio afirma que foi compelido a concordar com o acordo de paz para evitar maiores perdas humanas e territoriais. Pashinian afirma que assume a responsabilidade pelo que aconteceu, mas que agora precisa seguir em frente e garantir a segurança do seu país.
O primeiro-ministro foi alvo de uma série de protestos após a assinatura do acordo. Milhares de pessoas tomaram as ruas de Ierevan, capital da Armênia, exigindo a renúncia de Pashinian, em um movimento que deu fôlego a opositores e agora ganhou o apoio dos militares.
Mais tarde, fez um discurso inflamado para a multidão que parou para ouvi-lo. “Como primeiro-ministro eleito, estou ordenando a todos os generais, oficiais e soldados: façam o seu trabalho de proteger as fronteiras do país e a integridade territorial”, afirmou. “O Exército não pode se envolver em processos políticos. O Exército deve obedecer ao povo e ao poder político eleito pelo povo.”
Em nota, o Ministério da Defesa armênio reiterou o posicionamento oficial do governo e afirmou que o Exército não é uma estrutura política, de modo que quaisquer tentativas de envolvê-lo na política são inadmissíveis.
Em outro ponto da capital, ao menos 10 mil armênios também se reuniram, mas em protesto contra Pashinian. Em algumas ruas, os manifestantes ergueram barricadas usando latas de lixo. Durante o ato, Vazgen Manukyan, ex-primeiro-ministro e um dos principais líderes da oposição, acusou o governo de tentar colocar o povo contra as Forças Armadas.
O partido Armênia Próspera, também contrário ao premiê, pediu que Pashinian “não leve o país a uma guerra civil e a um derramamento de sangue”. “Pashinian tem a última oportunidade de sair sem que aconteçam problemas”, disse a legenda, em comunicado.
Por telefone, Sergei Lavrov, ministro das Relações Exteriores da Rússia, disse a seu homólogo armênio que Moscou considera a crise política um assunto doméstico para a Armênia, mas que esperava que as divergências fossem resolvidas pacificamente. Já o presidente Vladimir Putin pediu, por meio de seu porta-voz, que ambos os lados ajam com moderação, segundo a agência de notícias Interfax.
Pashinian, um ex-jornalista de 45 anos, emergiu como o líder de uma onda de protestos contra o governo que se espalhou pelas ruas da Armênia em 2018.
Inicialmente estimuladas pela eleição do ex-presidente Sarskyan – o mesmo que agora pede a renúncia de Pashinian– como primeiro-ministro, as manifestações rapidamente tomaram o clientelismo político do governo como alvo. À época, o atual premiê, que já cumprira mandatos como congressista, cultivou sua imagem de político próximo do povo vestindo roupas casuais e bonés de beisebol em oposição aos ternos formais utilizados pelos membros do Partido Republicano, que governava o país.
Os protestos culminaram na renúncia de Sarskyan e, após uma união dos partidos de oposição em torno da figura de Pashinian, ele conquistou a maioria e garantiu seu cargo como primeiro-ministro em maio de 2018. Com um discurso reformista e de combate à corrupção, o premiê obteve grande apoio popular. Demitiu membros da elite política e processou ex-servidores públicos por desfalques nas verbas do Estado.
Como resultado de sua popularidade, a coalizão da qual fazia parte obteve uma confortável vitória nas eleições parlamentares daquele ano, conquistando 88 dos 132 assentos da Assembleia Nacional. Pashinian, porém, sempre foi alvo de críticas dos militares por, segundo eles, ser muito brando em determinadas questões. Pouco depois de assumir o cargo, por exemplo, armênios e azeris entraram em conflito no enclave de Nakhchivan. Os embates duraram pouco, mas o premiê foi criticado por não ter respondido de maneira mais agressiva.
*Com informações Folhapress





