Homens negros morrem 4 vezes mais por armas de fogo (Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil)
Manaus (AM) – Um estudo do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS) e do Instituto Çarê revela que, em uma década, os homens negros morreram quatro vezes mais por disparos de armas de fogo em comparação aos brancos.
O levantamento usou como base as taxas de internações e mortalidade por agressões entre 2012 e 2022 a partir do recorte raça e cor.
Segundo a análise, 10.764 homens negros foram mortos por disparos de armas de fogo em vias públicas em 2022, ante 2.406 homens brancos na mesma situação.
Para o advogado criminalista Rômulo Vieira, esse número se dá pela “conhecida” desigualdade social. O advogado de movimentos de negritude e classes de minoria diz que a população negra, frequentemente, ocupa esses dados.
“Esse dado, apesar de não ser surpresa, é alarmante e assustador. Entretanto, na minha visão, se dá pela já exaustivamente falada e conhecida desigualdade social. Dentro da minha resposta. A população negra está sempre ocupando a maioria, na faixa da pobreza, na faixa da falta de oportunidades, na faixa da exposição da injustiça social, etc. E com os homens negros, não é diferente”, disse em entrevista ao Portal AM1.
Rony Coelho, pesquisador do instituto, compartilha do mesmo pensamento de Rômulo. Segundo ele, o levantamento expõe as desigualdades estruturais no país. “A população negra sofre mais violência, não apenas a violência letal, aquela que leva ao óbito, mas também a violência generalizada, que leva a mais internações do que a população branca”, ressalta.
Rômulo é incisivo ao avaliar que o preconceito racial é a maior lacuna para que negros estejam no topo de taxas como a revelada pelo Instituto Çarê.
“A maior lacuna para que nós, homens negros, estejamos ocupando essas taxas é principalmente o preconceito, racismo, sim. Não adianta dizer: Ah, isso não tem nada a ver. Pergunto: Como não tem a ver? Os próprios dados da pesquisa apresentados indicam a discrepância entre o homem negro e o homem branco!”, denunciou.
O especialista ainda esclarece que o seu ponto de vista não quer colocar homens brancos como alvo. Argumento usado na maioria das vezes por pessoas que não reconhecem o racismo.
“E não estou dizendo que deveriam morrer mais homens brancos em decorrência de disparos de armas de fogo. Não deveriam nem homem negro, nem homem branco, nem mulher, nem ninguém…”, completou o advogado.
O pesquisador, que é membro de movimentos por igualdade racial, considera que um dos pontos mais importantes para diminuir a mortalidade de negros passa pelas políticas afirmativas, além de educação e punições mais rigorosas para o crime racial.
“Para tentar diminuir ou até mesmo extinguir essa mortalidade (o que parece utopia), deve-se continuar transmitindo as informações necessárias, por meio de inserção nas escolas; políticas afirmativas; punição mais rigorosa contra os responsáveis por essas mortes; a conscientização da sociedade de que nosso país é racista, sim. E só com muita luta e resistência é que podemos, pelo menos, tentar mudar”, afirmou Vieira.
Racismo
“Os negros são a grande parcela dos mortos pelos policiais. Quando se comparam essas cifras com o perfil da população, nota-se que tem muito mais negros entre os mortos pela polícia do que existe na população. Esse fator é facilmente explicado pelo racismo estrutural e pela anuência que a sociedade tem em relação à violência que é praticada contra o povo negro”. A fala é de Pablo Nunes, coordenador do estudo Pele Alvo: a Bala não Erra o Negro, da Rede de Observatórios da Segurança, do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (Cesec).
Faixa etária
Quando o recorte é faixa etária, os jovens negros de 18 a 24 anos foram as principais vítimas, entre 2010 a 2021. Segundo o estudo do IEPS, a discrepância racial ocorre na maioria das faixas etárias, e passa a cair a partir dos 45 anos.
Conforme os pesquisadores, a queda do número de vítimas da violência entre negros e brancos depende de acesso igualitário à educação, saúde, justiça social e segurança pública.
LEIA MAIS:
- Estudo mostra que a cada 100 mortos pela polícia em 2022, 65 eram negros
- Negros representam maioria dos empreendedores no Brasil
- Senhor das Armas é preso com oito armas de fogo e 30 mil munições em Manaus





