(Foto: Celso Maia/ Portal AM1)
Manaus (AM) – No Amazonas, onde os índices de desigualdade social se somam às dificuldades de acesso a serviços básicos, como saúde e transporte, cresce o número de idosos que buscam no empreendedorismo uma forma de complementar a renda e, sobretudo, de manter a autonomia. Dados do Sebrae, com base na Pnad Contínua, apontam que mais de 4 milhões de brasileiros com 60 anos já comandam o próprio negócio 13,5% do total de empreendedores do país.
O protagonismo dos 60+
No bairro do Coroado, na zona leste de Manaus, a Associação dos Idosos do Coroado (ASSIC) funciona há 26 anos como um espaço de ressignificação, com atividades voltadas especialmente para pessoas a partir de 60 anos.
O presidente da instituição, Raimundo Nonato da Silva, ressaltou que o objetivo principal é proporcionar uma vida mais ativa aos idosos, evitando o isolamento e o comodismo que muitas vezes levam ao adoecimento e à sobrecarga familiar.
“O idoso não é o coitadinho, não é porque já está velhinho que deixou de ser útil. Ele é uma pessoa normal, igualmente às outras. O que queremos é respeito. Sempre dizemos: valorize o idoso, porque amanhã você será um deles”, afirma o presidente da ASSIC.
(Foto: Celso Maia/ Portal AM1)
Segundo ele, a Associação oferece diversas atividades, como educação física, natação, hidroginástica, atendimento fisioterapêutico, psicológico e social, além de momentos de lazer e convivência. O trabalho é conduzido por membros voluntários que dedicam parte do seu tempo livre ao fortalecimento das ações da instituição.
Raimundo Nonato também destacou a importância de conscientizar os idosos sobre seus direitos, conforme previsto no Estatuto, reforçando que eles devem ser respeitados e tratados como cidadãos comuns, sem estigmas de fragilidade ou incapacidade. A frase que norteia a Associação “valorize o idoso, porque amanhã você será um deles”, reflete essa visão de valorização e respeito.
Um dos ponto importantes e mencionado foi o incentivo a iniciativas de geração de renda para complementar a aposentadoria ou o Benefício de Prestação Continuada (BPC). Ele citou atividades como o artesanato e a criação de brechós, que permitem aos idosos obter uma renda extra e contribuir também para suas famílias.
O presidente enfatizou, por fim, que a participação da família é essencial nesse processo, funcionando como apoio fundamental para que os idosos se mantenham ativos e integrados na comunidade.
O empreendedorismo na terceira idade não é apenas escolha, mas muitas vezes necessidade, diante de aposentadorias insuficientes ou do Benefício de Prestação Continuada (BPC), cujo valor pouco cobre os custos de vida.
Vozes da experiência: autonomia e obstáculos
Entre linhas de crochê, costuras e pequenos negócios caseiros, mulheres como Leci Calvário de Souza de 91 anos e Antônia dos Santos Matos de 61 anos, veem no artesanato e no comércio informal um caminho para manter a dignidade financeira.
“Eu faço artesanato, vendo din-din, e assim vou levando a vida”, diz dona Leci, que aponta a lentidão dos serviços de saúde como uma das principais fontes de sofrimento na terceira idade.
(Foto: Celso Maia/ Portal AM1)
Já dona Antônia reconhece que o artesanato é mais que um hobby, é complemento necessário.
“Quanto mais renda, melhor. Só o salário não basta. O que falta, para mim, são materiais, tecido, enchimento.”
(Foto: Celso Maia/ Portal AM1)
A fala de Raimunda dos Anjos, 66 anos, revela outra face da desigualdade: a perda de fôlego físico e as barreiras do transporte público.
“A gente já não tem a mesma garra. Quer vender, mas é devagar. Para chegar até a associação, é uma luta grande. Do Aleixo até aqui, cansa muito.”
(Foto: Celso Maia/ Portal AM1)
Políticas públicas ainda engatinham
Apesar do potencial desse segmento para a economia, políticas públicas específicas para apoiar empreendedores idosos ainda são tímidas. No Amazonas, as falas colhidas expõem duas carências estruturais: saúde e incentivo produtivo. Se por um lado os idosos encontram força coletiva em associações comunitárias, por outro esbarram em filas de anos por exames médicos, falta de insumos para a produção artesanal e ausência de crédito orientado para negócios de pequeno porte nessa faixa etária.
O empreendedorismo após os 60 poderia ser, de fato, uma escolha de reinvenção. Mas, na prática, acaba sendo mais um mecanismo de sobrevivência. É nesse ponto que a discussão deixa de ser apenas econômica e se torna política: envelhecer com dignidade exige mais do que criatividade individual, depende de redes de apoio sólidas e de políticas estatais efetivas.

Leci Calvário de Souza, de aposentada 91 anos (Foto Celso Maia Portal AM1)
Reinvenção ou sobrevivência?
A geração que hoje ocupa a chamada “terceira idade” foi, em grande parte, formada por trabalhadores informais e de baixa renda. Ao chegar à aposentadoria, muitos descobrem que o benefício não cobre nem os custos básicos, como remédios e alimentação.
Marilene Vieira Carmim, assistente social da ASSIC, destaca que a participação dos idosos em atividades produtivas, mesmo de caráter artesanal, vai além do aspecto financeiro. Ela observa que esses trabalhos proporcionam autonomia, sensação de utilidade e valorização pessoal, permitindo que continuem contribuindo com a família e, de certa forma, com a economia local.
“Eles estarem ainda trabalhando, é uma forma de eles melhorarem a condição financeira, para contribuir com a família, para eles se sentirem também úteis, se sentem valorizados”, destacou a assistente social.
Segundo ela, a participação dos idosos nessas atividades depende de interesse próprio e prazer, e não apenas de oportunidades externas, sendo que muitos buscam essa prática por satisfação pessoal. A instituição, por sua vez, apoia esses esforços oferecendo espaço para exposição e comercialização dos produtos, ampliando a visibilidade e o potencial de renda dos participantes.
No Amazonas, o exemplo da ASSIC mostra que, quando há organização comunitária, é possível transformar a narrativa sobre envelhecer. Mas a conta não pode continuar recaindo apenas sobre os ombros dos idosos e das associações voluntárias. A longevidade brasileira exige mais: respeito, investimento e políticas públicas que reconheçam o valor dos 60+.
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