Manaus, 6 de julho de 2026
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Manaus, 6 de julho de 2026

Imagine o mundo moderno sem a psicologia

Imaginar um mundo moderno sem ela beiraria o absurdo, sem alguém que nos ajude a entender o que sentimos, a decifrar nossos medos.

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(Foto: Reprodução/Freepik)

Raimundo Fabrício Paixão Albuquerque*

Outro dia, no meio da noite, acordei com uma angústia danada. Fui até o espelho, olhei bem no fundo dos meus olhos e, com a voz mais firme que consegui impostar, decretei:

— Bom dia, campeão!

Do outro lado, o meu reflexo cansado, com olheiras profundas, pareceu sussurrar de volta:

— Cala a boca.

A sociedade de hoje não conseguiria sobreviver sem a dose de bom senso proporcionada pela psicologia. Posso imaginar como seriam os tempos modernos sem essa ciência tão jovem.

Duas pessoas se encontram:

— E então, como se sente hoje?

— Na verdade, não muito bem. Tenho tido umas crises de…

— Foco, campeão! Crises são oportunidades disfarçadas. Pense nisso como um degrau para o próximo nível. Qual é a sua meta para hoje? Já visualizou o seu sucesso?

— É que eu mal consegui sair da cama. Uma angústia, sabe? Uma coisa no peito. Lembrei da minha infância e…

— Passado é âncora, guerreiro! Jogue fora. O que importa é o agora, a sua mentalidade vencedora. Vamos lá, respire fundo e repita comigo: “Eu sou o arquiteto do meu destino!”.

— Eu sou o arquiteto… Mas a planta do prédio parece que veio com defeito de fábrica, entende?

Certo dia, numa aula de história, ouviu-se: antigamente, dizem os mais velhos, existiam lugares mais escuros, com poltronas confortáveis e um silêncio que não era constrangedor. Chamavam-se consultórios. E as pessoas que os frequentavam não eram “campeãs”, “guerreiras” ou “tubarões”. Eram apenas… pessoas.

Nesta nossa nova e otimizada sociedade, a psicologia foi gentilmente convidada a se retirar. Considerada um luxo pessimista, uma ruminação desnecessária sobre porquês e paraquês. Para que cavar o poço se você pode simplesmente construir um foguete para a lua? E quem melhor para construir foguetes do que um coach?

As ruas ecoam jargões. No café, em vez de “bom dia”, ouve-se um sonoro “que seu dia seja de alta performance!”. As discussões de relacionamento foram substituídas por “alinhamentos de equipe”. E ninguém mais tem “problemas”, e sim “desafios a serem escalados”. A tristeza? Foi rebatizada de “déficit de positividade”.

Um cidadão desta nova cidade, Zé Carlos, havia sido demitido. Abordou outro sujeito com um olhar que, em tempos antigos, seria descrito como “desolado”. Agora, no entanto, chamavam de “desalinhado com a frequência do sucesso”.

— Perdi o emprego, cara.

— Fantástico! — respondeu o outro, quase no piloto automático. — É a chance perfeita para você sair da zona de conforto e transformar seus talentos em renda. Já pensou em investir em um curso de marca pessoal? O mercado em Manaus está em alta.

Zé Carlos olhou para esse sujeito, moldado e contaminado por uma sociedade que expulsou a psicologia, como se ele estivesse falando em aramaico.

— Eu só… só queria conversar. Falar da minha raiva, do meu medo.

— Medo é uma métrica de baixa conversão, Zé. E raiva? Canalize essa energia para o seu novo empreendimento. Vamos marcar uma reunião? Posso te passar umas dicas de rede de contatos quântica.

Ele se afastou, cabisbaixo. Provavelmente foi procurar um “mentor de resiliência” ou um “guru de disrupção de carreira”.

Ah, que bom que existe a psicologia. Imaginar um mundo moderno sem ela beiraria o absurdo. Sem alguém que nos ajude a entender o que sentimos, a decifrar nossos medos, a nomear nossas angústias, acabaríamos todos como Zé Carlos, encarando a vida como se estivesse em aramaico. Por isso, neste dia, é tão importante relembrar sua importância: não para transformar a tristeza em produtividade ou a melancolia em startup, mas simplesmente para nos lembrar de que, no fundo, ser humano é sentir, refletir e, às vezes, apenas existir.

Ah, que alívio… ainda bem que a psicologia existe.

(*) Psicólogo, advogado, filósofo, mestre em sociedade e cultura e doutorando na UFAM.  

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