(Fotos: Arquivo / Secom)
Manaus (AM) – A nova edição do estudo Cartografia da Violência na Amazônia, divulgado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, revela que três municípios amazonenses, Coari, Iranduba e Tabatinga, enfrentam avanços expressivos de facções criminosas e índices elevados de mortes violentas intencionais (MVI). A dinâmica territorial, a posição estratégica e a fragilidade do Estado no interior têm contribuído para a consolidação de grupos como PCC e Comando Vermelho nessas regiões.
Coari
Com taxa trienal de 60,5 MVI por 100 mil habitantes entre 2022 e 2024, Coari registra um dos cenários mais críticos. O município, situado no médio Solimões, funciona como corredor hidroviário para ilícitos provenientes do Peru e da Colômbia. O estudo aponta que a cidade deixou de ser apenas ponto de passagem e se transformou em base operacional de organizações criminosas dedicadas à pirataria, prática que envolve roubo de cargas de rivais ao longo da rota internacional.
Além das facções, grupos conhecidos como “ratos d’água” ampliam a sensação permanente de insegurança ribeirinha, atacando embarcações, residências e comércios flutuantes. Entre 2022 e 2024, Coari viu as MVI saltarem de 33 para 63 casos, alta de 91%, impulsionadas pela disputa entre PCC e Comando Vermelho, que vem absorvendo piratas de rio em sua estrutura criminosa.
Iranduba
Iranduba ocupa o terceiro lugar com população entre 50 e 100 mil habitantes. Integrado à Região Metropolitana de Manaus, o município sofre reflexos direto da criminalidade da capital e registra forte presença do Comando Vermelho.
Apesar da redução significativa de assassinatos em 2024 de 62 em 2022 para 15, o estudo aponta que o município permanece vulnerável devido à atuação de facções, crimes ambientais, conflitos fundiários e sua posição estratégica às margens do rio Solimões, funcionando como porta de entrada para Manaus.
Tabatinga
Na tríplice fronteira entre Brasil, Peru e Colômbia, Tabatinga apresentou taxa média de 57,6 MVI por 100 mil habitantes entre 2022 e 2024. A cidade é considerada uma das principais portas de entrada de drogas no país, servindo de origem para a Rota do Solimões, corredor que leva cocaína para Manaus e, de lá, para outros mercados.
Até meados de 2023, Tabatinga enfrentou confrontos intensos entre facções, até que o Comando Vermelho consolidou hegemonia, inclusive com apoio das Farc, segundo reportagens citadas no estudo. Após o domínio territorial, houve queda nos assassinatos: de 59 em 2023 para 31 em 2024.
Confira o estudo
Em entrevista ao Portal AM1, o especialista em segurança pública Cel Amadeu afirmou que os três municípios analisados têm relevância estratégica para as facções por estarem inseridos na calha do rio Solimões, eixo logístico natural para o tráfico de drogas na região.
“Iranduba fica entre as calhas do Rio Negro e Solimões, Coari é um dos pontos mais ricos do interior e Tabatinga é a porta da tríplice fronteira. O controle dessas áreas garante às facções circulação, arrecadação e domínio territorial”, explicou.
Segundo ele, uma vez instaladas nas áreas periféricas, as facções passam a interferir diretamente na segurança pública, impondo execuções, tráfico, extorsão e constrangimentos à população local. Amadeu critica a falta de ação do governo do Amazonas.
“É muito preocupante que o governo não tenha adotado providências. Falta efetivo da Polícia Civil e Militar, que foi reduzido demais. Sem presença policial, as facções se instalaram com facilidade”, afirmou.
Ações urgentes e planejamento de longo prazo
Para o especialista, a resposta imediata deveria envolver recomposição de efetivo, investigação integrada e ações coordenadas calha por calha, município por município. No longo prazo, ele afirma que será necessário um novo planejamento estadual de segurança.
“A estratégia de longo prazo depende de um novo governo, porque este já não tem tempo para fazer as mudanças que são necessárias. É preciso um plano estruturado, integrado e territorializado para que se tenha perspectiva de melhora”, concluiu.
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