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15 de maio de 2021
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Manaus boêmia: em livro, escritor do AM fala sobre histórias de bares e bordéis

Os bordéis sempre fizeram parte da história de Manaus. Agora, a história deles será contada em livro pelo escritor Aguinaldo Nascimento

Manaus boêmia: em livro, escritor do AM fala sobre histórias de bares e bordéis
O Hotel Cassina era, primeiramente, um hotel de luxo. Mas com o declínio econômico da borracha, virou o Cabaré Chinelo. Foto: Instituto Durango Duarte

MANAUS, AM – Ao longo de quase 200 anos, não foram poucos os bares de Manaus que ouviram “centenas de casos de amor”. Os tempos passaram, alguns destes desapareceram, mas outros permaneceram na memória do manauara. Afinal, quem nunca ouviu falar em bordéis famosos como o Verônica, o Lá Hoje e o da Maria das Patas?

Para contar a história de alguns desses locais tão emblemáticos, o escritor e historiador Aguinaldo Nascimento, de 63 anos, lança o livro “Nos Caminhos da Alegria: Roteiro Histórico e Sentimental da Boemia de Manaus”. O lançamento será no dia 7 de maio de 2021, no entanto, o escritor já adiantou parte do conteúdo em entrevista à equipe do Amazonas1. Confira!

AM1: Como surgiu a ideia de escrever esse livro?

A.N – Eu já havia escrito algumas reminiscências dos bares e bordéis de Manaus em um livro sobre a sobre a história do bairro de Santa Luzia, em 2008. Tempos depois passei a fazer parte de uma confraria de intelectuais patrocinada pelo doutor Armando de Menezes, ex-presidente do Tribunal de Contas do Amazonas. Essa confraria era o Chá do Armando, onde se discutia, por exemplo, sobre literatura, história, música, poesia e muita conversa fiada.

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Entre os frequentadores, estavam escritores, músicos, poetas, jornalistas e gente da boemia raiz, como eu mesmo. Nela ouvi relatos do próprio Armando e do Dr. Almir Diniz, que contavam histórias do tempo em que trabalhavam para o Jornal do Comércio. Armando era chefe de redação, e Almir, repórter policial.

Com isso, me interessei em escrever sobre o assunto, que considerei interessante para uma pesquisa histórica. Assim nasceu esse trabalho, que é fruto de dez anos de pesquisa.

AM1: Para além dos locais já históricos, como os bares do Centro, e o Verônica, no Bilhares, que outros locais curiosos da capital abrigaram bares e bordéis? Quais foram os primeiros de Manaus?

A.N – Os bordeis mais famosos de Manaus se implantaram na década de 1950. Destaca-se, por exemplo, o emblemático Cabaré Chinelo, antigo Hotel Cassina, hoje restaurado para fins “não-profanos”. Outros não menos famosos estavam localizados na região do Educandos.

Talvez o mais boêmio desse bares era o Dancing Fortaleza, mas haviam outros, como o Nosso Bar, do Zá Félix, e o São Domingos, da Dona Misse. Ainda haviam outros no Santa Luzia, como o Bar do Orlando e o Big Bar, na Boca do Emboca, e o Bar da Bebé, no São Francisco.

Já entre os lupanares mais famosos do século 20, está o Bom Futuro, na Estrada de Flores (atual avenida Torquato Tapajós). Como ele, também existiram o Rosa de Maio, o Piscina, o Ângelus, o Shangri-lá, Lá Hoje e, mais recente, Selvagem e Saramandaia. Ainda dá pra se destacar o Maria das Patas, no Petrópolis.

AM1: Em uma entrevista recente, você comentou que boemia não é sinal de prostituição, mas que em Manaus, cada bordel tinha um bar. De onde surge essa associação dos bares com os bordéis, então?

A.N – A melhor definição da boemia está na frase de Arthur Ransome: “A boemia pode estar em toda parte: não é um lugar, mas uma atitude mental”. Ou seja, o prazer de viver bem a vida e seus momentos felizes não está nas conceituações meramente semânticas, mas sim no que, de fato, você busca para realizar seu prazer.

A boemia responde por parte dessa busca. Ela não se restringe apenas à questão da prostituição, que também é uma forma de buscar prazer. Inclusive, a própria prostituição é condenada por muitos e adorada por outros tantos, justamente pela relação que tem com outros tipos de diversões.

O “Verônica” funcionou até 1974, e era localizado onde hoje está o Millenium Shopping, na avenida Djalma Batista.

Eu conheci vários desses bares e bordéis de Manaus e em outros lugares do Brasil. Posso dizer que os bares são, em determinadas situações, complementos do lenocínio, e vice-versa. Em todo bordel tem um bar, mas todos os bares não são bordeis. Essa divisória de definições fica bem expressa no conteúdo do trabalho.

Em Manaus, havia bares exclusivamente boêmios, como o Bar do Quintino, o Bar Avenida e o Bar Sibéria, no Educandos. Ainda havia os bares da orla fluvial (Cidade Flutuante), que serviam apenas como ponto de referência para a prática do sexo pago. Estes, por sua vez, eram realizados em outros locais, como o Hotel Jesus, por exemplo.

AM1: No seu livro, você conta algumas situações curiosas que ocorreram em alguns desses lupanares. Pode contar um deles?

A.N – Um fato curioso, que eu mesmo presenciei, aconteceu no lupanar da Maria das Patas, em Petrópolis. Havia um rapaz muito bonito, chefe de linha de montagem no Distrito Industrial, cargo considerado muito importante na estrutura das fábricas.

Esse rapaz foi convencido por um grupo de subordinados a “dar uma relaxada” no lupanar e esquecer um pouco as tribulações do trabalho estafante que vivia. Disposto a agradar o grupo e ficar ainda mais respeitado como chefe, sem preconceitos, ele aceitou e foi até lá.

Lupanar “Maria das Patas” funcionava nas proximidades de onde está localizado o atual 3° Distrito Integrado de Polícia, em Petrópolis. Foto: Divulgação

Num determinado momento, ele começou a chorar copiosamente, soluçando e até se babando todo, passando mal com uma crise de hipotensão e diabetes. Os amigos, em pânico, tentaram saber o que estava acontecendo para resolverem. Foi aí que ele apontou para um casal que estava dançando com os corpos “coladinhos”, como naqueles tempos em que só mexia a cabeça e bem devagar para não perder a pegada. O casal, vale ressaltar, já estava fazendo movimentos quase que de lascividade explícita.

Enfim, perguntado sobre qual mesmo era o problema, o rapaz respondeu: “é a minha esposa e o cara é meu vizinho, meu melhor amigo”. Inconsolável, o cidadão pagou a conta geral, saiu discretamente do bordel e sumiu num táxi, rumo ao desconhecido. Soube-se depois que ele continuou a viver com a cidadã e com o vizinho até sair da fábrica, sem nunca ter explicado o motivo de sua desilusão matrimonial.

AM1: Bares e bordéis de Manaus, de alguma forma, acabaram fazendo parte da história recente. Você pode falar um pouco sobre a importância do seu livro para a História da capital e a cultura do Amazonas?

Meu livro é um livro de memórias, portanto fragmentos da história baseada na tradição oral das pessoas que viveram esse momento impar da nossa cidade, uma história humanística, que fala de pessoas e lugares emblemáticos de Manaus de um tempo marcado por cruezas sociais e muita alegria e esbornia mundana.

Esse trabalho não tem qualquer pretensão acadêmica, mas visa somente informar, em forma de resgate histórico, os acontecimentos do cotidiano do nosso povo. Esse povo sim, viveu momentos surpreendentes na história da sua cidade, e quer mesmo é ler e conhecer.

Se ele vai contribuir com a cultura da cidade, ótimo! Mas penso que isso vai ficar a critério dos leitores e admiradores da História como mecanismo disseminador da cultura. Além disso, creio que esse trabalho vai valorizar não só o meu, mas todos os trabalhos de História, Sociologia, Antropologia e Artes, produzidos por nosso povo em prol da grandeza do conhecimento. Eu sei que eu fiz minha parte ao relembrar a histórias desses bordéis de Manaus.

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