Manaus, 6 de julho de 2026
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O prazer no desprazer

Um paradoxo intrigante é o fato de a pessoa encontrar prazer no que a faz sofrer, transformando o desprazer em algo familiar e até desejado.

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(Foto: Reprodução/Freepik)

Por André Paiva*

A experiência humana é atravessada por paradoxos. Entre eles, um dos mais intrigantes é a capacidade de o sujeito encontrar prazer justamente naquilo que o faz sofrer. O desprazer, longe de ser apenas evitado, pode tornar-se familiar, buscado e até defendido. Esse fenômeno, observado clinicamente e refletido filosoficamente desde a Antiguidade, revela que o prazer não se restringe ao conforto ou à satisfação imediata, mas pode emergir de estados de tensão, dor e privação.

Já na Grécia Antiga, pensadores como Platão e Aristóteles refletiram sobre a natureza do prazer, do desejo e da dor, lançando bases conceituais que ainda hoje ajudam a compreender por que o ser humano, muitas vezes, se mantém preso a experiências que lhe causam sofrimento.

Platão: o prazer misturado à dor

Em diálogos como Fílebo e A República, Platão questiona a ideia de que o prazer seja um bem em si mesmo. Para ele, muitos prazeres são, na verdade, misturas de dor e alívio. O exemplo clássico é o do corpo que sente fome (dor) e, ao comer, experimenta prazer — prazer esse inseparável da carência que o precedeu.

Platão observa que certos prazeres só existem porque há uma tensão anterior. O alívio é sentido como prazer justamente porque houve desprazer. Esse raciocínio permite compreender por que o sujeito pode se apegar a estados de falta, conflito ou sofrimento: eles criam a condição para um prazer posterior, ainda que precário e repetitivo.

Além disso, Platão alerta para os prazeres ilusórios, aqueles que não conduzem à harmonia da alma (psiqué), mas a aprisionam em ciclos de desejo e frustração. O prazer no desprazer, nesse sentido, seria um prazer inferior, ligado à parte apetitiva da alma.

Aristóteles: hábito, afeto e familiaridade

Aristóteles, na Ética a Nicômaco, oferece outra chave fundamental. Para ele, o prazer acompanha a atividade conforme o hábito e a disposição do caráter. Aquilo que se repete tende a tornar-se familiar, e o familiar tende a ser vivido como “bom”, mesmo quando é objetivamente nocivo.

Assim, se um indivíduo se habitua a relações dolorosas, a estados de autodepreciação ou a padrões de sofrimento, esses contextos passam a carregar uma forma de prazer secundário: o prazer da coerência interna, da previsibilidade, do reconhecimento de si.

O prazer no desprazer não é um fenômeno moderno, nem exclusivamente patológico. Ele atravessa a história do pensamento e da clínica, revelando que o ser humano não busca apenas prazer, mas sentido, repetição e familiaridade. Platão nos mostra que muitos prazeres nascem da dor; Aristóteles nos ensina que o hábito molda aquilo que sentimos como prazeroso.

(*) Psicólogo clínico cognitivo comportamental

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