Manaus, 6 de julho de 2026
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Manaus, 6 de julho de 2026

Cenário

Política de fachada nas aldeias: indígenas expõem atuação oportunista de políticos

Lideranças apontam que políticos recorrem à imagem indígena sem compromisso real e cobram respeito, consulta prévia e políticas públicas mais efetivas.

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(Foto: Divulgação/ Redes Sociais)

Manaus (AM) – Durante uma série de visitas ao interior do Amazonas, a pré-candidata ao governo do estado, Professora Maria do Carmo (PL), esteve recentemente na região do Alto Solimões, onde visitou comunidades indígenas. Em uma dessas agendas, a pré-candidata apareceu utilizando um cocar, gesto que provocou reflexões e críticas por parte de lideranças indígenas sobre o uso de símbolos culturais ancestrais por agentes políticos.

Para o líder indígena Marcos Apurinã, em entrevista exclusiva ao Portal AM1, o uso de adornos tradicionais por pessoas que não pertencem ao povo ou à etnia de origem exige extremo cuidado e respeito. Segundo ele, esses símbolos carregam significados espirituais profundos e não podem ser tratados como elementos decorativos ou meramente políticos.

“O cocar não é um enfeite comum. Ele representa ancestralidade, espiritualidade e liderança. Para que alguém use um adorno indígena, essa pessoa precisa ser conhecida pelo povo, respeitada, reconhecida como liderança e, acima de tudo, autorizada por meio de um ritual específico”, explica Apurinã. Ele ressalta que, em muitos casos, determinados adornos são exclusivos de guerreiros, líderes ou pessoas que exercem funções espirituais dentro da comunidade.

O líder também alerta que o uso indevido pode ser interpretado como uma violação cultural e espiritual. “Quando alguém usa um cocar sem permissão, está violando um direito do povo. Em nossa tradição, isso pode significar a transferência de forças espirituais, o que pode trazer consequências tanto para quem usa quanto para quem cede”, afirma. Para ele, a banalização desses símbolos por políticos durante visitas a comunidades indígenas demonstra desconhecimento e desrespeito à cultura ancestral.

Além da questão simbólica, a presença de políticos em territórios indígenas durante períodos eleitorais também é alvo de críticas. Marcos Apurinã avalia que, historicamente, os povos indígenas só são lembrados por candidatos durante campanhas.

“É uma forma de violência política. O político aparece na eleição, promete, mas depois desaparece. Educação, saúde, território e cultura continuam sendo ignorados”, denuncia.

Segundo ele, a falta de acesso e as dificuldades logísticas enfrentadas por comunidades indígenas tornam essas populações ainda mais vulneráveis à cooptação eleitoral.

“Muitas lideranças acabam cedendo a trocas injustas, como combustível, camisas ou pequenas quantias em dinheiro. Isso enfraquece a luta coletiva e não resolve os problemas estruturais das aldeias”, afirma.

Diante desse cenário, algumas comunidades já começaram a proibir a entrada de políticos em seus territórios, como forma de proteção contra práticas de politicagem. Para Apurinã, a saída está na conscientização, especialmente por meio da educação, e no fortalecimento da organização política indígena.

Em relação às expectativas para um futuro governo do Amazonas, o líder indígena relata frustração com gestões anteriores. Ele critica a atuação da Fundação Estadual dos Povos Indígenas, que, segundo ele, funciona mais como assistencialismo do que como promotora de políticas estruturantes.

“Não precisamos de favores. Precisamos de projetos de sustentabilidade, alternativas econômicas, valorização cultural e respeito ao nosso modo de vida”, destaca.

Apurinã reforça que a Constituição Federal garante aos povos indígenas o direito à consulta livre, prévia e informada sobre qualquer ação que afete seus territórios. “Enquanto o governo decidir por nós, sem nos ouvir, tudo continuará dando errado”, afirma.

Apesar das críticas, o líder demonstra esperança em mudanças. Ele defende maior representatividade indígena nos espaços de poder e afirma que os povos indígenas estão se organizando para disputar eleições e ocupar cargos legislativos.

“Nós existimos, pagamos impostos e somos parte da construção deste país. Não é possível governar o Amazonas ignorando a maior população indígena do Brasil”, conclui.

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