Manaus, 10 de julho de 2026
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Manaus, 10 de julho de 2026

Cidades

Enquanto obras seguem sendo prioridades, igarapés continuam abandonados

Enquanto o poder público foca em visibilidade, os rios e bairros pagam o preço do descaso, afirma especialista ambiental.

Enquanto obras seguem sendo prioridades, igarapés continuam abandonados

(Foto: Celso Maia / Portal AM1)

Manaus (AM) – Em Manaus, os igarapés, pequenas veias de água que cruzam bairros e ligam comunidades, se transformaram em retratos silenciosos de abandono. Escondidos entre casas e ruas, o que deveria ser fonte de vida tornou-se depósito de lixo, esgoto e poluição tóxica, revelando décadas de descaso com a população e o meio ambiente.

O Portal AM1 conversou com moradores do bairro Aleixo, zona centro-sul da capital, Marcondes Ricardo, conferente de depósito, relata que a população enfrenta diariamente os impactos da falta de saneamento. Ele descreve como ratos, cobras e jacarés se aproximam das casas, atraídos pelo lixo acumulado nos igarapés.

“O que está faltando é olhar para a população”, lembrou, destacando que os postos de saúde já estão sobrecarregados por causa das doenças provocadas pelo descaso, destacou o morador.

Enquanto obras seguem sendo prioridades, igarapés continuam abandonados

(Foto: Celso Maia/ Portal AM1)

Kildere Andrade, pedreiro e morador há 54 anos do Aleixo, descreve a precariedade da infraestrutura do bairro, como ruas esburacadas, lixo a céu aberto e descaso do poder público. Ele destaca que mesmo com a proximidade de órgãos como a Secretaria Municipal de Infraestrutura (Seminf) e cobertura da mídia, nada muda efetivamente.

Apesar da frustração, ele reforça a importância da mobilização comunitária, da educação ambiental e da participação consciente nas eleições, mostrando esperança de que a população possa, com iniciativa própria, melhorar a situação local diante da inação do governo.

“A gente vai tentar ver se a gente consegue resolver, já que o governo nem a prefeitura não fazem nada pela gente”, declarou Kildere Andrade.

Enquanto obras seguem sendo prioridades, igarapés continuam abandonados

(Foto: Celso Maia/ Portal AM1)

As condições precárias dos igarapés refletem também a ausência de políticas públicas eficazes, é o que revela a ambientalista Fabiana Rocha ao Portal AM1.

Segundo ela, esses corpos d’água “se tornaram o retrato cruel das falências das políticas públicas de saneamento e de gestão ambiental”. Ela observa que, apesar de ações emergenciais em períodos de crise, no dia seguinte “o esgoto continua escorrendo pelos igarapés, o lixo volta a se acumular e o problema segue sem solução”

A ambientalista também aponta que há responsabilidade compartilhada: tanto a população que convive com a degradação quanto as empresas que despejam resíduos contribuem para a situação. Ela critica a prioridade dada a obras visíveis, que geram retorno político imediato, enquanto o saneamento básico, essencial e silencioso, continua negligenciado.

Para ela, o caminho passa por ações consistentes: sistemas de tratamento de esgoto que funcionem de verdade, fiscalização rigorosa, responsabilização de quem polui e programas educativos duradouros para as comunidades.

Os igarapés, segundo a ambientalista, são parte da identidade da cidade e da saúde coletiva da população; perdê-los significaria renunciar a uma vida urbana digna e equilibrada.

Entre lixo, doenças e promessas não cumpridas, os igarapés de Manaus permanecem invisíveis para muitos, mas o grito de quem depende deles é evidente. É um alerta de que a sobrevivência das águas e das pessoas está diretamente ligada à ação, ou à omissão do poder público e da sociedade.

“Os igarapés não gritam, mas a gente grita por eles”, conclui a ambientalista, resumindo o clamor por justiça ambiental e dignidade humana.

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