(Foto: Márcio Melo/Seminf)
Manaus (AM) – Calçadas estreitas, passeios obstruídos por anúncios comerciais e veículos estacionados irregularmente transformam as ruas de Manaus em um desafio diário para quem depende do deslocamento a pé. A infraestrutura urbana deficiente evidencia os obstáculos que comprometem a circulação e limita alternativas de transporte na capital amazonense.
Em termos demográficos, o Censo 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostra que mais de um quarto da população do Amazonas (25,73%) reside em locais sem calçadas ou passeios. Esse dado reforça a dimensão do problema estrutural enfrentado pelos moradores.
Obstáculos diários para pedestres
Os desafios de mobilidade urbana em Manaus não se resumem à inexistência de calçadas. Há localidades que representam a maioria, alcançando 66,29% da população, em que os moradores convivem com obstáculos que dificultam a circulação. Entre eles estão postes, lixeiras, placas de propaganda e até veículos, o que obriga pedestres a caminhar pela rua.
Em entrevista ao Portal AM1, o geógrafo e doutor em Engenharia dos Transportes, Geraldo Alves, afirmou: “Em Manaus, nunca se investiu em calçadas”. Ele reforçou que, apesar da importância da infraestrutura para pedestres, a cidade não recebeu políticas consistentes que priorizassem esse aspecto da mobilidade.
Além disso, Alves apontou contradições em relação ao uso de bicicletas. Manaus abriga uma das principais fábricas de bicicletas da América Latina, mas, segundo o especialista, não existem iniciativas públicas capazes de estimular de forma eficiente o uso desse modal como alternativa de transporte.
“E a bicicleta, quem usa, usa corajosamente e, às vezes, passa por alguns apuros. Contraditoriamente, é bom registrar: Manaus é sede das principais fábricas de bicicleta da América Latina. É daqui que saem as bicicletas que serão usadas no Brasil e no mundo afora, mas não existe nenhuma iniciativa que favoreça o uso desse modal na cidade. E não é por conta do clima, é bom lembrar. Parintins, por exemplo, foi conhecida como a cidade das bicicletas, e o calor lá é o mesmo de Manaus. Portanto, não se trata de condições climáticas, mas da falta de políticas públicas que estimulem o uso da bicicleta”, disse Alves.
Falta de ciclovias e acessibilidade
Ainda segundo o IBGE, Manaus apresenta uma quase inexistência de infraestrutura cicloviária. Aproximadamente 99% dos moradores vivem em locais sem vias sinalizadas para bicicletas. A ausência de ciclovias limita o transporte ativo e amplia a dependência do transporte motorizado.
Em termos de acessibilidade, a situação também é preocupante: 68,15% dos moradores do Amazonas residem em áreas sem rampas para cadeirantes. A falta desses recursos reforça as barreiras enfrentadas por pessoas com deficiência e limita sua inclusão nos espaços urbanos.
Transporte coletivo insuficiente
O professor Geraldo Alves destacou ainda que Manaus está distante do padrão de transporte coletivo previsto pela Lei da Política Nacional de Mobilidade Urbana, de 2012. A legislação orienta que municípios priorizem os deslocamentos por transporte público, mas, segundo o especialista, a capital não realizou os investimentos necessários para viabilizar essa estrutura.
Ele explicou que a ausência de investimentos anteriores comprometeu a implantação de um sistema de média capacidade, como corredores exclusivos ou metrô leve. Atualmente, a cidade depende majoritariamente do transporte individual, marcado pelo crescimento do uso de motocicletas, além do automóvel particular e do ônibus, que vem perdendo passageiros.
“O fato é que estamos muito aquém da infraestrutura de transporte coletivo necessária para apoiar a mobilidade urbana, priorizando as viagens por transporte público, como determina a Lei da Política Nacional de Mobilidade Urbana, de 2012. Manaus sofre porque, no passado, não fez os investimentos necessários para implantar um sistema de média capacidade. Hoje, a mobilidade urbana depende do transporte individual, com o crescimento do uso de motocicletas, que sabemos ser capaz de provocar inúmeros problemas, além do automóvel e do ônibus, que vêm perdendo passageiros”, afirmou Alves.
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