(Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil)
Por Raimundo Fabrício Paixão Albuquerque
Percebo que hoje não se trata mais de classificar o amor como líquido ou sólido, mas de compreendê-lo como uma linha que pode se romper subitamente. Vivemos uma época em que questionamos sua suposta linearidade, testemunhando como afetos e desejos sofrem fraturas imprevistas. Alguém que conhecíamos – ou que achávamos conhecer – transforma-se num estranho diante de nossos olhos quando um novo desejo irrompe, reconfigurando sua identidade afetiva num clique. Essa ruptura não é um mero desvio; é um terremoto íntimo que revela a precariedade de qualquer mapa emocional. Alguém pode passar décadas sem desejar certas experiências ou tipos de relacionamento e, subitamente, diante de uma nova interação, visualização ou proposta, encontrar-se profundamente atraído por algo que antes não figurava em seu mapa afetivo. Essa mutabilidade radical gera uma insegurança afetiva, onde sabemos que o desejo – próprio e alheio – é volátil, podendo mudar num instante.
Alguns teóricos refletem sobre a instabilidade dos afetos. Zygmunt Bauman argumenta que, nas condições sociais atuais, os laços humanos, como todas as outras facetas da vida, tendem a se tornar frágeis e quebradiços. A fluidez não é mera metáfora; trata-se da experiência concreta da dissolução de estruturas estáveis, inclusive as do desejo. Bauman captura a angústia dessa precariedade: a dificuldade de construir algo duradouro sobre alicerces tão móveis.
Eva Illouz, ao analisar a interseção entre capitalismo e emoções, complementa essa visão ao demonstrar como as relações se transformaram em “commodities emocionais”, sujeitas a constante avaliação, comparação e potencial descarte. A lógica do mercado, amplificada pela tecnologia e pela cultura digital, incentiva essa substituição rápida, em que um novo estímulo pode instantaneamente reconfigurar o que é desejado, tornando o anterior obsoleto. Essa dinâmica fragmenta qualquer noção de linearidade afetiva.
Esta instabilidade é agravada por uma “desinstitucionalização” da vida pessoal e familiar. Tradicionais “mapas” sociais que guiavam os desejos e relacionamentos (como o casamento estável como norma) perderam sua força prescritiva. Vivemos sob a pressão da “individualização”, onde cada um é responsável por “escrever sua própria biografia”, inclusive afetiva, sem roteiros predefinidos.
Anthony Giddens aprofunda essa ideia ao falar do surgimento do “relacionamento puro”, onde muitos vínculos afetivos se estruturam com base em trocas percebidas como vantajosas. As pessoas se aproximam motivadas pelo que a relação pode oferecer e escolhem permanecer enquanto sentirem que a convivência continua a gerar benefícios emocionais mútuos. Trata-se de uma lógica em que o elo se sustenta mais pela expectativa de satisfação do que por compromissos duradouros. A consequência direta, como percebo, é uma insegurança afetiva profunda. Sabemos que o desejo do outro – e o nosso próprio – não é uma entidade estável. Ele pode evaporar ou transmutar-se radicalmente diante de uma nova imagem, conversa ou possibilidade. O “para sempre” romântico cede lugar ao “enquanto durar”, implícito, mas carregado de ansiedade.
Se, para Bauman, o gosto muda tão rapidamente, já não é possível confiar na solidez daquilo que se constrói hoje. Mas penso que a questão já não é mais entre amor líquido ou sólido. Vivemos numa época marcada pelos afetos, por formas de amar e desejar que não seguem uma linha reta. Os vínculos se preservam por um tempo, aparentando estabilidade — e então, de repente, vem a ruptura. Aquilo que antes era gosto, deixa de ser, quase instantaneamente. Não se trata de dizer que o amor não existia antes, mas sim que ele se rompeu de forma abrupta. Não é que a pessoa não gostava — ela gostava, e muito — mas, de uma hora para outra, deixou de gostar. E ali, diante de nós, surge alguém novo. Alguém estranho ao que antes era tão familiar.
Tenho a impressão de que isso está profundamente ligado ao modo como as interações foram multiplicadas pela tecnologia. A insegurança afetiva que nasce dessa dinâmica é uma queixa recorrente nos consultórios psicológicos — um sintoma do nosso tempo.
(*) Professor, advogado, filósofo, psicólogo e teólogo
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