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ISMAEL BENIGNO Sobrevivam, meninos!

• Publicado em 26 de abril de 2017 – 06:30

Sim, é tentadora a ideia de concordar, ainda que intimamente, com as piadas em torno do tal jogo da Baleia Azul e da criação que nós, quarentões e até trintões, tivemos na época das fitas K-7. Sandálias azuis, galhos de goiabeira azuis, cinturões azuis. Mas se vale o conselho, sempre desconfie caso a piada – ou a solução que ela traz – seja fácil demais. O drama da adolescência tem a mesma idade das reações biológicas e combinações de hormônios que causam a confusão de sentimentos, sensações, desejos e o que poderia, na época das fitas K-7, ser definido como a mais pura, natural e simples bobagem. Mas não convém menosprezar séculos de história do comportamento humano apenas para fazer um “meme” de internet.

Fazer piada não vai diminuir o fato de que crianças continuam flertando com astros juvenis, com os desafios impostos pela babaquice que acompanha a idade e com a vontade de morrer porque a namorada vai embora do país ou porque os pais se separaram recentemente.

No último fim de semana, em que pese ainda a falta de maiores detalhes sobre o caso, Luis Fernando, de 19 anos, matou a namorada, Kaena, de 18, e depois se matou no apartamento 1509 do Maksoud Plaza, hotel na região da Avenida Paulista, em SP. Tudo leva a crer que o casal combinou de se matar juntos. A tragédia ocorre no meio do turbilhão opinativo das redes sociais. Há relação entre a tragédia e o tal jogo? Hannah Baker, a jovem que se mata em “13 Reasons Why” (seriado da Netflix) era mesmo uma espécie de modelo para Kaena?

Enquanto todos se perguntam o que houve, a série de TV – a mais comentada do ano segundo sites especializados – e as notícias desencontradas sobre o jogo de alguma forma acenderam as luzes do corredor que separa a sala de estar dos pais do quarto dos filhos. Críticas especializadas, doutores no assunto e um sem-número de “textões” de Facebook foram publicados para que nós, pais e mães, tentássemos entender como agir diante dos semideuses do Youtube, dos grupos de WhatsApp e do bom, velho e às vezes trágico bullying nas escolas e na vizinhança.

Sim, colegas da época dos carrinhos de rolemã: na nossa época já havia gente que se matava. Namorados já faziam pactos de morte, desilusões amorosas e cerveja barata já sussurravam maus conselhos nos nossos ouvidos; brigas de família causavam sofrimento e a pressão das convenções sociais já fazia estragos em meninos e meninas que podem, sim, ter sobrevivido, mas não sem traumas e rancores tão óbvios quanto ignorados nessa fase extrema da vida, a adolescência. Via de regra, todos os desvios de personalidade dos adultos nasceram décadas atrás, quando todos eram… crianças ou adolescentes. Por trás de adultos violentos houve crianças maltratadas. Por trás de adultos preconceituosos houve infâncias expostas ao preconceito. Por trás de adultos insensíveis houve crianças negligenciadas.

Para começo de conversa, é preciso conversar. Antes de com os filhos, entre nós mesmos, para buscar formas de evitar cair na tentação de achar que a adolescência de hoje é mais frívola e “mimimizenta” do que a nossa. Ela não é. Ceder a isso é permitir que a vida nos transforme nos velhos barrigudos e barbados que um dia acusamos de não nos entenderem. Nossas piadas e nosso pouco caso só irão confirmar o ciclo da natureza humana. E não queremos nos enquadrar nos estereótipos de sempre, queremos?

Uma conversa franca sobre quem nossos filhos podem ser, independente do que lhes ensinamos a ser. O mundo tem milhares de outros modelos de comportamento: professores, conselheiros e amigos. Com os mesmos medos e inseguranças, o mesmo linguajar, os mesmos interesses e o sentido de pertencimento à mesma tribo que não temos mais. Mas precisamos lutar.

Essa conversa pode nos ajudar a entender as hipocrisias e chicanas sociais em que nos enredamos, por exemplo, quando condenamos a escola pelas agressões sofridas por nossos filhos, sem cogitar que eles também podem ser agressores. Ou quando nos chocamos com meninas de 12 anos, num vídeo de internet, cantando em sala de aula um funk sobre como é bom “chupar piroca”. No mais das vezes, somos os mesmos que comentamos, com certa naturalidade, sobre como as festinhas de aniversário de hoje em dia estão cheias de músicas com duplo sentido, sendo um deles sempre o sexo, e o pior tipo de sexo. Não que Xuxa fosse particularmente um modelo infantil ou que alguém ainda aguentasse o Balão Mágico, mas trocar tudo isso por Anitta e MC Nandinho era realmente necessário?

É preciso também um tanto de coragem para, diante da mesa julgadora da internet e de seus modismos sociais e professores de comportamento, impor os limites necessários a uma idade que, nós sabemos por experiência própria, nos faz acreditar que somos sujeitos completamente formados e aptos às maiores decisões do Universo. Meninos e meninas de 12, 13 ou 17 anos não devem saber o que é sexo. E, para o bem deles próprios, é preciso ter em mente que adolescentes são, por definição, perfeitos idiotas. Idiotas que amamos, mas idiotas – como nós fomos um dia.

Se cabe aqui proteger o que pode ser considerado conservadorismo, apelemos pelo menos ao que é lei. E se por lei meninos e meninas não devem praticar sexo, tanto pior que seu primeiro contato com o assunto seja patrocinado por músicas que fazem apologia clara ao crime, à exploração sexual, ao machismo e à violência que, de tempos em tempos, rende notícias como a da menina estuprada por 30 homens numa favela carioca. Salvo engano, na época em que a música número 1 do país de Tom Jobim era “Malandramente”. Sabedoria, companheirismo, empatia e solidariedade fazem muita falta, mas um tanto de cuidado dos pais também cai bem.

Acredite, eles não vão decidir sempre usando o juízo.

Pode sim, haver uma diferença brutal entre ser adolescente nos anos 80 ou nos anos 2010, e não é a quantidade de hormônios, e sim de informação. Nesse sentido, a internet possibilitou que soubéssemos que há mais idiotas no mundo, mas também que há idiotas que se tornaram modelos de comportamento. Veja, a mídia usada pode mudar, mas as besteiras que a adolescência já assinaram, não.

Em 1983 ou 84, não me lembro, apenas eu e o Henrique*, da rua Colômbia, sabíamos que brincávamos de atravessar de bicicleta a rua Uruguai, a mais movimentada do conjunto, sem olhar para os lados, numa roleta russa imbecil que durou alguns dias. Hoje youtubers famosos brincam de fazer desafios na internet. Meu filho contou que um deles foi assaltado numa praia carioca, depois de aceitar o desafio de dormir uma noite na areia. Assim, apenas para que o canal do grupo alcançasse mais alguns milhares de cliques.

É preciso saber que o arquivo de áudio deu lugar às fitas K-7 e que é possível se criar blogs secretos, perfis falsos e grupos online com qualquer pessoa do mundo, mas a essência não mudou. Um adolescente solitário com uma bicicleta corre os mesmos riscos que um adolescente solitário com 5 mil amigos no Facebook. Nesse aspecto, a vaidade só adiciona combustível à mistura explosiva entre ansiedade, necessidade de afirmação social e exposição.

Sim, é preciso conversar. Mas não prioritariamente com eles, os meninos que, por força da natureza, estão loucos para fazer merda assim que acordam. É preciso antes conversar sobre como enfrentar os desafios do acesso à informação, muito maiores do que o de dormir na praia ou prender a respiração até desfalecer – sim, há esse desafio na internet também.

O desafio dos pais é o de ignorar a patrulha fútil e arrogante de desconhecidos sem filhos e simplesmente cuidar para que nossos filhos sobrevivam. A ideia não é impor regras desesperadas, mas de alguma forma aplicar o aprendizado da nossa adolescência à deles. E, se isso não for suficiente, já terá ajudado apenas deixar mais claros os limites que o mundo, louco pelas tragédias “mais lidas do G1”, tem tentado tornar suaves. Ou queremos mesmo que nossas filhas sejam chamadas de “ai, safada!”, que meteram o pé pra casa na hora de levar “madeirada”? Pois é isso o que os DJs das festinhas chiques estão pondo para a criançada dançar.

Conversar, mas vigiar. Incentivar, orientar, mas repreender e dizer “não” também. É um exercício diário e cansativo em busca da humildade de aprender com o mundo, mas acima de tudo é o compromisso de manter vivos os meninos e meninas que pusemos no mundo para serem livres e felizes, mas acima de tudo para continuar vivos. Ninguém é feliz ou livre depois de morto. E nenhum influenciador digital ou guru sentimental da internet vai preencher o vazio que a imaturidade emocional e psíquica podem transformar em tragédia.

Tive dois amigos de infância que se mataram. Por tristeza, aflição, escolhas erradas ou maus conselheiros… o que adianta saber agora? Nossos corações não querem as explicações para o que nos separou dos nossos filhos. Eles querem apenas que nossos filhos sobrevivam.

Não posso ignorar que, naquela bicicleta em 1983, de alguma forma eu também tentei morrer. Mas fico mais tranquilo ao saber que era apenas idiotice. Talvez o grande desafio da atual geração de pais, mais do que a geração dos seus filhos, seja entender que ninguém realmente quer morrer e, acima de tudo, que ainda há cuidados que precisam ser tomados dentro de casa. O mundo nunca foi um bom conselheiro, e nossos meninos e meninas querem apenas fazer parte de algo. Cuidemos para que não seja de algo como as notícias “mais lidas do G1”, como a de Luis e Kaena.

A adolescência, segundo a maior parte de seus inquilinos, é mais conhecida como “o inferno”.

Bem, alguém disse, em algum lugar da vasta história humana, que, se você está atravessando o inferno, simplesmente não pare de atravessá-lo.

* Henrique é o nome fictício de um companheiro de idiotice da minha adolescência.

Ismael Benigno Neto é administrador de empresas e assinou o blog O Malfazejo entre 2004 e 
2015, criou o extinto site O Avesso, escreveu nos jornais O Estado do Amazonas e Diário do Amazonas. Hoje é funcionário público.

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