‘O senhor está bem? Está precisando de alguma coisa?’. Essa foi a frase que o ex-governador do Amazonas José Melo (PROS) ouviu todas as manhãs e noites no Centro de Detenção Provisória (CDP) 2, em Manaus, segundo relato dele ao juiz federal Ricardo Augusto Sales, em audiência de custódia no dia 26 de dezembro. Durante o interrogatório, o magistrado insistiu nas questões acerca do estado de saúde e de acompanhamento médico de Melo e comentou as perguntas que faziam ao governador na prisão: “Eles não mudar nada, né?”.

Durante 14 minutos e 30 segundos de gravação, o ex-governador falou sobre os dias que ficou sem comer, a que atribuiu à questão emocional, ao estado crítico do ex-secretário de Saúde, Wilson Alecrim, de como foi tratado respeitosamente durante a prisão pela Polícia Federal e ao chegar ao sistema prisional estadual. Confira a transcrição dos principais trechos do interrogatório.

Juiz federal Ricardo Sales (Foto: Divulgação/TSE)
Após essa audiência de custódia, o juiz Ricardo Augusto Sales expediu o Alvará de Soltura do ex-governador, que teve a prisão revogada. A juíza Ana Paula Serizawa havia decretado a prisão temporária de Melo, que foi preso no dia 21 de dezembro, na terceira fase da operação Maus Caminhos, batizada de Estado de Emergência.
Confira as transcrições

Juiz Ricardo Sales: Qual a sua profissão?
José Melo: Sou servidor público.
Juiz Ricardo Sales: O senhor mora onde?
José Melo: Bem.. A minha residência fixa é no conjunto Nilton Lins, na cidade de Manaus.
Juiz Ricardo Sales: O senhor lembra do endereço? Não tem problema se não lembrar, tá?
Não, senhor.
(…)
Juiz Ricardo Sales: O senhor pode nos informar como ocorreu a sua prisão?
José Melo: Eu estava lá no sítio onde, depois que fui cassado, eu praticamente eu me…. Fui pra lá, né. Eu vou normalmente na terça-feira e volto de lá no sábado de manhã. Eu tava lá no sítio quando chegou a Polícia Federal. Aí eu fui avisado. Eu durmo com a porta fechada porque lá é ermo, né. Muito perigoso. Recentemente, 11 pessoas armadas assaltaram um vizinho, foi uma… Fu fico lá, então abri a porta. Já estavam dentro da casa. Aí uma senhora, acho que a delegada encarregada do caso, falou-me que existia um mandado de busca e apreensão. Aí ela tava com ele na mão e (perguntou) se podiam iniciar. Eu disse “tudo bem”. Eu sentei no sofá e só levantei de lá quando um deles chegou comigo e disse ‘O senhor vá lá se vestir porque o senhor vai conosco’.
Juiz Ricardo Sales: Em algum momento, nessa ocorrência da prisão, o senhor foi desrespeitado? O senhor foi de alguma forma molestado por esses agentes públicos?
José Melo: Não, em nenhum momento. Nem quando eu fui interrogado. Eu também em nenhum momento me senti tolhido dos meus direitos. E, de qualquer maneira, foi tudo feito, na minha avaliação, da forma mais correta possível.
Juiz Ricardo Sales: Foi vítima de algum tipo de constrangimento no caminho da casa até a superintendência?
José Melo: Não. Colocaram-me entre duas moças, acho que agentes, e eu vim entre elas até chegar à Polícia Federal. Quando chegou lá, eles me introduziram por uma parte lateral e me levaram para uma sala onde eu fiz o meu depoimento. Eu fiquei aguardando uma hora e meia porque o delegado encarregado não estava. E eu fiquei aguardando a presença de um dos meus advogados até ele chegar. Ficou também no recinto um policial federal sentado na cadeira, ficou o tempo todo lá conosco.
Juiz Ricardo Sales: Circula na internet, não sei se o senhor teve a oportunidade de ver nas mídias sociais, uma fotografia em que o senhor aparece sem camisa, segurando aquelas plaquinhas de preso. Isso ocorreu ou foi uma montagem?
(…)
José Melo: Ah, não. Isso aí ocorreu quando eu fui para a penitenciária. Quando eu fui para a penitenciária, pediram-me para tirar a camisa, fizeram, me examinaram todo.
Juiz Ricardo Sales: Essa fotografia aqui.
José Melo: Essa foi tirada na penitenciária. Foi com uma plaquinha aqui.
Juiz Ricardo Sales: O senhor autorizou o uso de sua imagem, por quem quer que seja?
José Melo: Não, senhor. Eu desconheço completamente. Como também desconheço que, quando tiraram essa foto… para mim era para o processo.
Juiz Ricardo Sales: Isso foi perante autoridade policial federal ou estadual?
José Melo: Estadual. O policial federal me entregou e aí eu fiquei encarregado lá… Eles disseram que era procedimento interno fazer isso.
Juiz Ricardo Sales: O senhor sabe quem foi o responsável desse momento lá?
José Melo: Não senhor. Não sei. Não saberia lhe dizer.
Juiz Ricardo Sales: Quando o senhor chegou lá…?
José Melo: Aí eu passei pelo detector de…
Juiz Ricardo Sales: Metal?
José Melo: Metal. Aí então eu fui. Ele disse “O senhor aguarde um pouquinho”. Ele pegou um papel, começou a fazer anotação e disse “Agora eu preciso lhe examinar, tirar foto do senhor de perfil, de lado, de peito e de costa. O senhor pode tirar o sapato e a camisa?”. Eu disse ‘Pois não”. (…) Aí ele tirou, depois disse assim “Segura aqui essa plaquinha que é para o processo”.
Juiz Ricardo Sales: Tá
José Melo: Mas quero fazer uma ressalva que, afora isso aí, eu também tive um tratamento igual tive na polícia federal. Muito respeitoso em todos os momentos lá.
Juiz Ricardo Sales: Vamos então aqui… Lá no presídio, o senhor tem acompanhamento médico? O senhor sofre de algum tipo de doença?
José Melo: Não, senhor. Não tive acompanhamento médico nenhum. Quem tava… um dos que estavam lá comigo, que é o Wilson Alecrim, esse sim está com problema de próstata muito avançado. A próstata dele, de zero a dez, tá em sete. Ele sangra todo dia. Se ele não for operado o mais rápido possível, ele vai ter problema muito sério. Mas eu não…
Juiz Ricardo Sales: Tá saindo um alvará pra ele hoje. Acabei de assinar o alvará
José Melo: Deixa lhe dizer. É uma questão de humanidade. O senhor vai salvar a vida dele. O senhor vai salvar.
Juiz Ricardo Sales: Eu li os laudos médicos e eles informam mesmo que o problema é sério dele, né.
José Melo: Ele tá morrendo aos poucos sem ter o direito de se tratar ali dentro.
Juiz Ricardo Sales: O senhor sofre de algum tipo de doença?
José Melo: Não, eu não sofro.
Juiz Ricardo Sales: Pressão alta? Diabetes?
José Melo: Não, eu tomo toda noite um remédio para a diabetes, mas porque o médico disse que eu tenho 72 anos e o meu nível tá muito próximo do que seria depois do não ideal. E ele disse ‘Então você toma isso aqui que não vai lhe causar nenhum mal’. E tomo também dois outros tipos de remédios, um chamado Omnic, porque eu tinha muita dificuldade de urinar. Não era questão de próstata, não. Era questão dos tecidos não reagirem. Aí teu tomo esse remédio para os tecidos reagirem e eu urinar normalmente como todo mundo, sem ter que urinar aos pouquinhos. E tive gastrite e tomo todo dia um remédio chamado Tecta, de manhã cedo.
(…)
Juiz Ricardo Sales: A defesa, alguma pergunta?
DEFESA: Excelência. Sobre as condições da unidade onde ele está, a questão de, pra idade dele, né, essa questão do colchão, dos mosquitos, ele está sofrendo muito com essa situação. De repente pode esclarecer
José Melo: Eu realmente… a minha coluna, quando levanto de manhã, tenho que ser, digamos assim, ser como se tivesse esticando, porque é muito…
Juiz Ricardo Sales: É (inaudível) o colchão, né?
José Melo: É muito baixinho e muito… (inaudível)
Juiz Ricardo Sales: Pois não, governador, pois não, pode perguntar
José Melo: Desculpa, eu só complementei.
(…)
4ª PESSOA: O senhor tem se alimentado bem, seu José Melo?
José Melo: Não tenho conseguido. Não é que minha alimentação não esteja lá. Todo dia tem o café da manhã, o almoço… É que eu não consigo. Eu fui tentar, vomitei tudo. Aí eu tenho comido uma banana, um negócio assim, uma fruta, e o doutor Alecrim me deu um pacotezinho de ameixa. Ele disse que eu tinha que comer porque se não meu intestino ia parar.
Juiz Ricardo Sales: Os problemas aumentam, né?
(…)
Juiz Ricardo Sales: Só uma pergunta. Tem algum serviço médico que dê atenção para o senhor? O senhor, aparentemente, até pela sua idade, se percebe que o senhor está muito depressivo, né?
José Melo: Isso.
Juiz Ricardo Sales: Dá pra ver pelo seu semblante. O outro lá, o doutor Alecrim, o senhor me falou há pouco que ele estava até expelindo sangue, né? Não tem nenhum corpo médico que dê assistência para os senhores, não?
José Melo: Eu sinceramente.. Não apareceu, embora eu tenha dito a todos eles que eu estava bem toda vez que me perguntaram. Todo dia de manhã e à noite vinha, acho que era o diretor e mais, eu acho, o subdiretor, e me perguntava “O senhor tá bem? Tá precisando de alguma coisa? De saúde, o senhor tá bem?”. E eu dizia que estava, porque eu estava.
Juiz Ricardo Sales: Eles não vão mudar nada, né?
José Melo: Mas só isso que eu sei.
(…)
Juiz Ricardo Sales: O senhor quer uma água?
José Melo: Eu quero.
Juiz Ricardo Sales: Ou prefere um refrigerante?
José Melo: Água.
Juiz Ricardo Sales: Não é melhor refrigerante não, que tem açúcar? Ah, o senhor é diabético, né?





