Manaus, 7 de julho de 2026
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Cidades

‘Deserto de vida’: incêndios florestais ameaçam sociobiodiversidade da Amazônia

Segundo dados do Instituo Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), entre os meses de junho a setembro, já foram identificados aproximadamente 21 mil incêndios florestais no Amazonas.

(Fotos: Mauro Neto/Secom)

Manaus (AM) – A sociobiodiversidade da Amazônia é gravemente impactada pelos incêndios florestais que afetam o Brasil. Dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) revelam que, entre junho e setembro, foram registrados cerca de 21 mil focos de incêndio no Amazonas. Esses números, verificados pelo Portal AM1, têm como base o satélite de referência ‘Aqua Tarde’, da plataforma BD Queimadas.

Com o aumento das queimadas, tanto a flora quanto a fauna são duramente afetadas. Em entrevista ao Portal AM1, Marcelo Garcia, gerente de Fauna do Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (IPAAM), destacou que áreas da floresta destruídas dificilmente retornam ao seu estado original de regeneração em menos de 40 anos. Além disso, espécies que vivem em grupos podem enfrentar maior dificuldade de reintegração, o que eleva o risco de extinção.

O superintendente do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), o geógrafo e gestor ambiental Joel Araújo, descreve um prognóstico semelhante relacionado à recuperação gradual. Joel Araújo declara que as queimadas deixam as áreas inaptas à vida silvestre.

“Existe ali um afugentamento do restante da fauna, tornando o local inviável para a existência da maior parte dos seres vivos. A recuperação daquela área, com o fim das queimadas e do verão, ocorre de forma lenta e gradual, por etapas nos sistemas ecológicos. Conforme a recuperação e regeneração acontecem, a fauna vai retornando, e toda a biodiversidade ressurgindo. Enquanto houver áreas desmatadas ou queimadas, elas permanecem totalmente inaptas para a vida silvestre”, explicou Araújo.

O Centro de Triagem de Animais Silvestres (Cetas), de responsabilidade do Ibama, é encarregado de receber animais silvestres mediante entrega voluntária, resgate ou oriundos de apreensão de fiscalização. No Amazonas, ele fica localizado na capital amazonense, na avenida Um, no bairro Distrito Industrial, na zona Leste de Manaus.

(Foto: Reprodução/Redes Sociais)

Com exclusividade ao Portal AM1, o superintendente do Instituto, Joel Araújo, alegou que o espaço está passando por reformas, porém, continua recebendo esses animais silvestres. Até o momento, não chegou até o centro de triagem animais com sinais de queimaduras, no entanto, já foram atendidos aqueles se acidentaram em função de incêndios, por atropelamento ou eletrocussão.

“Nós temos recebido animais no Cetas, que normalmente funciona 24 horas. No entanto, estamos com algumas restrições, pois o Cetas está passando por uma reforma. Inclusive, essa é uma informação nova que ainda não divulgamos, mas o Cetas iniciou uma reforma e continua recebendo animais. Não temos recebido animais com sinais diretos de queimaduras, mas recebemos aqueles que se acidentaram em função dos incêndios, como casos de atropelamento, eletrocussão e uma série de outras consequências das queimadas”, comentou Joel.

Bioma amazônico

Durante os últimos 10 anos, o número de espécies encontradas na Amazônia que estão ameaçadas de extinção aumentou em mais de 65%, de acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Apesar da redução no número de desmatamento, os incêndios florestais estão em crescimento.

Um artigo científico publicado pela revista Nature, em parceria com a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), aponta que entre os anos de 2001 e 2019, uma abundância de plantas e animais que habitam a Região da Amazônia foram impactadas pelas queimadas e incêndios florestais. Esse estudo analisou mais de onze mil espécies de plantas e três mil espécies de animais vertebrados, entre aves e mamíferos. A conclusão do estudo foi de que 90% das espécies foram atingidas pelas queimadas.

Ainda segundo o estudo, dentre as espécies já ameaçadas de extinção, 70% a 85% delas tiveram parte dos seus habitats naturais devastados pelo fogo, que, além de causar a morte de animais, transformou os locais onde viviam.

Das espécies listadas como ameaçadas de extinção na Amazônia pela International Union for Conservation of Nature (IUCN), 236 das 264 espécies de plantas foram atingidas pelo fogo, assim como 83 das 85 espécies de pássaros, 53 das 55 espécies de mamíferos, cinco das nove espécies de répteis e 95 das 107 espécies de anfíbios.

Deserto de vida

O superintendente do Ibama classifica os espaços afetados pelos incêndios florestais como um “deserto de vida”. Isso porque a biodiversidade engloba não apenas os animais, mas também as plantas daquele ecossistema.

“Áreas queimadas se tornam um deserto de vida. Pássaros, por exemplo, têm dificuldade em cruzar áreas abertas, assim como mamíferos, especialmente quando essas áreas estão em chamas. Portanto, há diversas dificuldades de reintegração e regeneração da biodiversidade em uma área queimada”, entende Joel.

 

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